O afecto de Marcelo e o ódio de Coelho

por PN | 2016.12.09 - 09:57

 

 

 

Marcelo tem sido um bom presidente da República.

Depois de Cavaco Silva era fácil fazer melhor, porém, Marcelo superou as expectativas. Mesmo de quantos nele não votaram.

Jovial e híper-activo, parece ter o dom da ubiquidade e, desdobrando-se, estar em vários lugares ao mesmo tempo. O seu discurso é afectivo e, se dirigido aos portugueses, em geral, nas entrelinhas percebe-se um destinatário muito específico, Pedro Passos Coelho, líder do PSD e ex primeiro-ministro, que ainda não aceitou ter deixado de o ser, agindo pateticamente como se ainda o fosse.

Consciente do absurdo da guerrilha que constantemente Coelho move na sua praxis política quotidiana, em qualquer discurso proferido, não como oposição lúcida, mas como vítima de um ressabiamento por sublimar, Marcelo bem parece pregar, em vão, como no “Sermão da Sexagésima” pregava pela voz de António Vieira, descoroçoado e desiludido, S. António aos Peixes do Maranhão.

Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.”

Mas Coelho não é peixe e surdo se mostra ao bom senso de quem, naturalmente e em prol da concórdia e da estabilidade do País, tão empenhado parece estar e com esse fito agir.

Ademais, a cegueira da desrazão obstinada parece não achar em Coelho tisana que o sare. Talvez sendo de curativa sensatez aproveitar-se o refluente fel do peixe, como fez Tobias, no entendimento de que “era bom para sarar da cegueira”, quando esfregado nos olhos sem visão.

Ontem, inesperadamente, Marcelo apresentou-se em Faro, no Refúgio Aboím Ascenção, centro de acolhimento de 80 jovens em situação de risco. Aí, junto das crianças, deixou mais uma vez claro a imperiosidade de “saber convergir naquilo que é essencial”.

Pena é que o essencial para alguns seja a acessória litigância pessoal, para outros…

Mas disse mais, claramente induzido pelo local e pelo espírito natalício: “As pessoas podem ser de partidos diferentes, de regiões diferentes, de opiniões diferentes, com ideias totalmente diversas sobre a vida e aquilo que as aproxima, que fez o nosso país, mas aquilo que faz a nossa vida nas comunidades em que nos integramos é o afecto.”

O mesmo Vieira no Sermão dos Bons Anos afirma ao auditório: “Se a campanha é uma mesa de jogo onde se ganha e se perde; se as bandeiras vitoriosas mais firmes seguem o vento vário que as meneia, quem se prometerá firmeza na guerra, que derruba muralhas de mármore? E como a guerra e a felicidade são dois acidentes tão vários; como a Fortuna e Marte são dois árbitros do Mundo tão inconstantes, como poderei eu seguramente prometer bons anos a Portugal, em tempo que o vejo por uma parte com as armas nas mãos, por outra com as mãos cheias de felicidade?”

Assim parecem andar os dois, Coelho de arma assestada, a esmo disparando cunhetes de ricocheteantes projécteis, Marcelo, pregando afectos onde só o ódio parece medrar.