Num singelo dia cinzento de maio…

por Amélia Santos | 2015.05.19 - 17:21

 

Era uma vez um dia cinzento e triste. Era uma vez um dia cinco de maio, em que a chuva persiste e o sol está encoberto por nuvens de tédio. Era uma vez uma terça-feira, igual a tantas outras terças-feiras de inverno, numa vila pacata que, para mim, nunca será a cidade que tanto quiseram que ela fosse…

Saio de casa, como tantos dias cinzentos e tristes e sem sol, sem qualquer expectativa. Apenas para tomar um café e ganhar energias para enfrentar o dia e, às vezes, também para escrever umas frases. O momento do café matinal é profícuo em palavras e ideias e (des) encontros… E, eis que, sem o esperar, sou abordada por uma pessoa com quem raríssimas vezes falei ao longo da vida. Por nada de especial. Apenas porque os nossos caminhos não se cruzaram… E, essa pessoa, uma mulher, teve a capacidade de me emocionar com as suas palavras meigas e elogiosas. Eu sei que estou cada vez mais lamechas, é certo… Mas emocionou-me muito. Pelo que me disse, pela coragem de o dizer… As mulheres são tantas vezes acusadas de inveja e despeito, em relação às suas semelhantes, que esta mulher mostrou a sua grandeza e despojamento, a sua generosidade, alguma coragem e muita humildade para me dizer o que disse. Fiquei muito enternecida com este momento. Porque a sua acção transformou, imediatamente, o meu dia cinzento em dia de sol. As nuvens desapareceram e da chuva nunca mais soube nada… E, porque sei que ela é uma leitora dos meus textos, a esta mulher especial, que saiu do recato do seu silêncio para me transformar o dia e para alterar as condições atmosféricas emocionais, dedico esta reflexão…

Porque, por norma, não se fala das grandes mulheres que, tantas vezes, não passam do anonimato do lar ou da família. Mas que fazem florescer jardins inteiros, como se de uma poção mágica se tratasse…dão vida aos filhos e luz ao mundo. Conseguem, com uma sensibilidade ímpar, e ao mesmo tempo, fazer o jantar e passar a ferro e olhar pelos filhos e dar atenção a uma notícia que passa na TV.

Porque, por norma, não se fala dessas mulheres incógnitas que se multiplicam para estar no lar e no trabalho; para ser mães e para ser filhas. Para cuidar de todos os que as rodeiam, com dedicação e esmero.

Porque, habitualmente, não se valorizam mulheres que são perpetuadoras de um saber de experiências feito, de emoções e instintos muito particulares. Que são lutadoras e obstinadas e, por isso, capazes de demover exércitos ou montanhas, quando assim o determinam.

Dessas mulheres parece que só os poetas falam. Os poetas como António Gedeão, que retratou a Luísa, na sua “Calçada de Carriche” e o Carlos Drummond de Andrade em “A mulher que trata de tudo” e o Vinicius com “Mulher que passa”, ou o especialíssimo Papa Francisco. Parece que essas mulheres nunca saem da poesia e do pensamento dos seus autores…

Essas mesmas mulheres, que constituem 52% da população, são ainda representadas por uma minoria de homens. Um dia destes, uma homónima que muito aprecio e com quem partilho conversas e gostos (outra mulher especial), referiu-me que em quatro décadas de democracia terá havido, em Portugal, trinta e poucas mulheres ministras, frente a quatrocentos e tantos homens. Não deixa de ser curioso que, ainda hoje, em pleno século XXI, essa continue a ser uma triste realidade na maioria dos lugares de destaque, das chefias, das pastas ministeriais, das candidaturas a altos lugares… E aquelas que ainda vamos encontrando em alguns, devem-no à miserável (mas pelos vistos ainda necessária…) lei da paridade. O facto de as listas eleitorais serem obrigadas a colocar uma mulher depois de dois homens, sob pena de se pagar uma coima, justifica a presença de algumas e envergonha a todas as que têm algum espírito crítico. Não serão as mulheres tão ou mais capazes de desempenhar qualquer cargo de chefia? Enche-me de orgulho ver uma Mariana Mortágua, na comissão de inquérito ao BES, fazer o papel de 10 homens… Está na altura de lutar, efectivamente, contra esta descriminação!

Não querendo parecer feminista, que não sou, creio que, a par de homens extraordinários existirão ainda mais mulheres extraordinárias que nunca terão oportunidade de o demonstrar, em nenhum lugar, nem cargo, porque estes continuam a ser desenhados e destinados a homens!

Parece-me que, quando as mulheres têm essa intrínseca liberdade interior para agir, são poderosas e catalisadoras de mudanças. Algumas descobrem tardiamente essas capacidades, mas nunca é tarde para, quase, nada nesta vida…

Eu quis homenagear uma mulher concreta, mas também todas as que encaixam neste perfil. E há muitas. E eu conheço muitas. E muitas delas povoam a minha vida e as minhas relações. Das outras não reza a História!

Que longe é ver tão perto o centro da frescura

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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