No “Arbutus do Demo” com Alexandra Campos

por PN | 2019.07.31 - 13:59

No concelho de Vila Nova de Paiva, no dizer de Aquilino “a velha Barrelas de um sino”, existe uma estrutura botânica a merecer a visita de todos quantos se interessam pela flora e/ou, na aprazível sombra que o arvoredo projecta, no meio de espécimes com mais de meio século de existência, desejem passar um dia calmo, afastado do bulício urbano e em contacto directo com a frondosa natureza.

A RD visitou este Parque Botânico “Arbutus do Demo”, neste ano em que se comemora o centenário do livro de Aquilino Ribeiro com o título “Terras do Demo”, que deu ápodo aos concelhos de Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva.

Falámos com a responsável pelo Parque, Alexandra Campos, engenheira florestal de formação e uma “apaixonada” por aquele espaço que vive com emoção, expressividade, brio e competência profissional…

  • O que é o Arbutus do Demo?

A vinte minutos de Viseu, em Vila Nova de Paiva, existe um Parque Botânico que incorpora o nome genérico dos medronheiros (Arbutus unedo) que ali se abrigam e se torna cúmplice de Aquilino Ribeiro, o poeta que levantou aos olhos do mundo as Terras do Demo.

Parque Botânico Arbutus do Demo, acolhido numa região onde o Paiva é rio, onde os saberes e sabores se conjugam num esplendor social, cultural, estético, ético e ecológico, onde o turismo, a conservação da natureza, a agricultura e o lazer fazem parte do mesmo conjunto.

Para além da beleza e dos sentimentos que desperta, como projecto pioneiro e diferenciador que é, apresenta uma enorme importância para a gestão de uma área de conservação e de diversidade de espécies.

Arbutus do Demo visa criar um lugar de encantamento, demonstração e descoberta que torna imprescindível a sua visita.

Aqui, todos são convidados a serem protagonistas e a partilharem experiências, num conjunto de ateliers e eventos que despertem e desenvolvam as curiosidades técnico-científicas, culturais e estéticas. Mas exaltaremos igualmente, ao apelo e reconhecimento dos estímulos na sua multiplicidade, pelo contacto directo com os sentidos, promovendo formas de representação estéticas que reflictam a profusão das sensações e o despertar dos sentimentos.

Aproveitando as valências do Parque Botânico e o relógio biológico na natureza, procuramos colher em cada estação as impressões e os testemunhos que ajudem a revelar os seus segredos e a partilhar os saberes de uma magia natural.

  • Um pouco da sua história. O que era? O que é?

Parque Botânico Arbutus do Demo, sendo este um projecto de reconversão do antigo viveiro da Queiriga pertença das Infraestruras Portugal, S.A. (ex JAE), abandonado na década de 90, liderado pelo Município de Vila Nova de Paiva nesta nova fase.

Com uma área total de 80.000 m2, dos quais 12.500 m2 correspondem a matas de coníferas e caducifólias, constitui um património de inestimável valor paisagístico e ambiental. A área do projecto foi ampliada com uma zona florestal contígua ao viveiro de 50.000 m2.

O Parque Botânico Arbutus do Demo, não é igual, química e geograficamente, a todos os outros.

Arbutus do Demo tem condições propícias pela sua versatilidade diferenciadora que a natureza e a imaginação humana têm para com as infindáveis e renovadas manifestações das formas e cores.

Arbutus do Demo é um campo experimental com recursos inesgotáveis… é uma Escola.

Arbutus do Demo é um espaço criativo por excelência. Um palco com cenários inesgotáveis, onde as cores e os actores, os cenários e os cortinados, as teias, as cordas, as roldanas e as bambolinas, se misturam, se mesclam, numa atitude artística explosiva do sentir de cada um dos intervenientes.

O intuito do Parque Botânico passa também pelo contributo pedagógico, de mobilização e sensibilização da população, sobretudo das camadas mais jovens. Deverá ser uma atracção cultural, onde os artistas e criadores, possam também expressar as suas ideias inovadoras.

Na sua diversidade, Arbutus do Demo, é um produto multifacetado, em que quem nele entrar procura conhecer a história das personagens que o fizeram, a região das plantas que aqui chegaram, descobrir mais sobre o mundo das plantas como que se restaurasse uma peça de património vivo.

  • Quais os objectivos fundamentais desta estrutura

No horizonte artístico e criativo nacional dado que o Arbutus do Demo integra a rede nacional e europeia de Parques e Jardins Botânicos, destacando-se pelo seu contributo em termos pedagógicos, ambientais, sociais e culturais, entre outros, para a divulgação de um sem número de mensagens que, através das artes dos jardins, concorrem para a elevação, num contexto de cidadania, das nossas populações e dos que o visitam.

O Parque Botânico Arbutus do Demo já está devidamente alicerçado como acontecimento de referência – urge por isso aproveitá-lo e frui-lo de maneira a sensibilizar os visitantes e principalmente o público escolar que o visita para questões prementes e de grande relevância. Sempre foi e será esse o seu superior objectivo: aliar arte, os aromas, cheiros, cores, sons, sabores, temperaturas, formas, texturas: uma viagem à descoberta de Arbutus do Demo com os sentidos bem despertos. Neste espaço consegue-se explorar a relação com as coisas à sua volta, com o seu próprio corpo, interiorizando as descobertas e conquistas do dia a dia, fundamentais para o desenvolvimento psicomotor, associado a um conjunto de mensagens inovadoras e, simultaneamente, provocar a reflexão para além dos lugares comuns.

A sensibilização para a defesa do ambiente e para a preservação do património florestal, aliada à criatividade e à arte, é o saldo final que nos propomos alcançar como próxima etapa.

No Arbutus do Demo poder desfrutar e explorar o mundo vegetal de uma forma sempre divertida de uma diversidade significativa de plantas proporcionada pelos diversos domínios. A biodiversidade atinge a sua plenitude nessa época do ano o que permitirá às crianças poderem ter “sensações à flor da pele” através do contacto directo com os vários sentidos.

  • Com que meios materiais, técnicos e de recursos humanos conta?

Um conjunto de edifícios perfeitamente integrados no Parque Botânico, que foram remodelados e adaptados para as novas funcionalidades, respeitando a arquitectura original, constituindo pólos onde se desenvolvem actividades técnico-científicas, culturais e artísticas relacionadas com este espaço.

A casa da Floresta, situada no espaço designado ARBOSUDOE é considerada a recepção principal de todo o complexo, dotada de um anfiteatro com 60 lugares e um espaço multi-usos para exposições.

O Centro de Interpretação “Testemunhos da Natureza”, é um espaço perfeitamente incrustado no Parque Botânico, onde se pode encontrar um álbum de registos sobre o passado e um presente. Pode-se folhear um herbário de plantas autóctones de toda a região. Existe uma xiloteca, onde estão patentes amostras de madeiras nacionais e exóticas devidamente caracterizadas. Ainda se pode escolher um livro do centro de documentação, lê-lo numa zona de descanso ao longo do Parque e devolver no final.

A recuperação da antiga Casa dos Cantoneiros, respeitando integralmente a traça original, proporcionou a edificação de tipologia T3 destinando-se a hospedar estudantes, artistas plásticos, professores que desenvolvam trabalhos técnico-científicos, culturais, artísticos no Arbutus do Demo.

O laboratório “Impressões da Natureza” este espaço está dotado com tecnologia moderna, adaptada para dar resposta a muitas destas interrogações. A extracção e análise de ADN, a avaliação de antioxidantes em extractos vegetais, a propagação in vitro, são algumas das técnicas que se pretendem implementar neste espaço de ciência onde se pretende proporcionar ao visitante um conhecimento técnico e científico através da demonstração e descoberta de muitas das maravilhas e mistérios da natureza.

O atelier “Inventar a Natureza” destinado à vertente da criatividade e inovação onde podemos desenvolver objectos que reforcem a identidade e imagem do território, tendo presente a defesa do ambiente e valorização dos recursos endógenos. Deixar que a cor da pedra contraste, que o verde da agulha brilhe, que o torneado do fio se movimente, que o conjunto se harmonize.

Recursos humanos que estão integrados neste projecto são 3 jardineiras e uma técnica.

  • Quem é o rosto deste projecto, Alexandra Campos?

É engraçado que toda a gente se inibe em falar sobre si mesmo, como se o pressuposto do auto-elogio das nossas qualidades fosse uma arrogância, e não apenas o que devia ser, um fenómeno fabuloso de auto-conhecimento, tipo uma dinâmica de OFF em modo ON.

A Alexandra Campos é uma pessoa muito feliz, um espírito sagaz e curioso.

Gosto muito do que faço… Acho que isso ajuda a que o faça bem.

Aliar competências técnicas à paixão da investigação é muito mais fácil do que estimular paixão onde só existe técnica. Mas mesmo a melhor paixão tem técnica, tal como a sorte tem estratégia. O nome pode ser lexicalmente pobre para o conceito, mas poucos frutos há nesta vida que tenham sido consequência de cultivo alheio e displicente. Quando se diz que a sorte dá trabalho, quem a tem sabe o quanto deu tê-la. A sorte é tão imaterial como a paixão, só se revela como efeito, não enfeita, nem se faz anunciar. Talvez aí esteja a magia, talvez aí a inveja de quem não lhe reconhece o esforço, por não lhe ver cultivo. E o mais difícil é que a sorte e a paixão não se semeiam com bolbo certo. Umas vezes são semente plantada, outras, flores, outras, uma árvore já crescida.

Quem tem sorte, agradece. Agradeço quando olho para o céu no final do dia e para os pés descalços no chão da manhã.

A sorte não vinga apenas na audácia da tentativa, a sorte vinga sempre num sorriso. E se há dias em que parece que a sorte não acordou para o brindar, há outros em que a sorte acorda mesmo antes de ser dia. Na verdade, não tenho técnica para a sorte que tenho, mas tenho um sorriso cravado na cara que não obedece ao lucro tangível dos dias. É apenas uma forma merecida de agradecer essa sorte primeira de acordar todos os dias para fazer aquilo de que gosto.

  • Ao nível de reconhecimento exterior, que prémios têm obtido?

Convertido em Parque Botânico Arbutus do Demo pelo Município Vila Nova de Paiva recebe, em 2011, a distinção no programa Ouvir e Verão da prestigiada TSF, como um dos locais a visitar no Distrito de Viseu; em 2012 foi distinguido recebendo o Prémio Anim’arte Ambiente; em 2013 foi reconhecido pelo jornal semanário Expresso integrando a colecção de mapas “Descobrir Portugal em Família”; em 2014 o Viaje Comigo em conjunto com Lifecooler como um dos destinos a visitar e foi premiado pelo Turismo de Portugal e Quercus ANCN em 2016 na categoria Turismo Ambiental.

  • De que meios gostaria de dispôr?

Maior número de recursos humanos.

  • Que metas pretendem atingir?

“A Beira poderá ser a província mais recolhida no cerne de Portugal, será talvez aquela em que se encontra um reportório de tradições, de usos e costumes, mais genuíno e imareado”. – Aquilino Ribeiro

Vila Nova de Paiva, pode assumir-se como o protótipo de um território de baixa densidade com um elevado capital natural e humano, cujo potencial pode ser desenvolvido criando sinergias em prol do desenvolvimento e bem-estar das suas populações “naturalizadas” e daqueles que o visitam. O Concelho de Vila Nova de Paiva (17.533,6 ha), situa-se a Norte do Distrito de Viseu, no coração de Portugal e no âmago da Beira, no território apelidado por “Terras do Demo”.

Uma meta que seria importante de se criar uma marca perene – Arbutus do Demo.

Partindo da aplicação das novas tecnologias de informação na promoção desenvolvimento e iNOVAção das paisagens iNOVAr por Natureza, encontrando-se novas formas de interpretar as paisagens CriAR Centros de Interpretação in Vivo como forma de recuperação de uma paisagem… para memória futura.

  • Numa frase: “O que é para si Arbutus do Demo…”

“…Todavia, naquele ermo inóspito, batido pelos ventos agrestes da Meseta, a uma altitude que deve orçar pelos 800 metros, sob o olhar nevado da Estrela, nenhum dos patudos lavradores da região diria que seria possível fazer uma seara, quanto mais um jardim, não falando no souto. Pois ali está como espelho de proveito e exemplo.”Aquilino Ribeiro

………………………………..

Em longos dias de estio,

uma deliciosa indulgência prevalece,

desfrutando do suspense do inesperado.

Correr e investigar a madrugada,

sorver as surpreendentes cores,

seguir o aroma da paisagem,

partilhar o horizonte num sorriso,

e encontrar a cornucópia dos sentimentos,

fundi-los numa tela imaterial,

dos mais suaves contrastes feita,

onde o sol alimenta as sombras

onde a magia perene e a brisa

desenham um místico de aromas

e sensações à flor da pele.

…………………………………….

Parque Botânico Arbutus do Demo

Alexandra Campos