Nascer em Portugal é ter uma segunda Mãe.

por António Soares | 2014.10.09 - 11:21

 

É tatuar o coração com uma emoção que só um Português é capaz de sentir, baptizar a alma com água salgada e abençoar o futuro com esperança.

É aprender a sentir saudade, a rimar saudade, a cantar saudade. É saber como navegar à bolina uma caravela ou uma adversidade, derrotar o Adamastor e saber cantar e ouvir Fado.

Mas quando a Mãe Nação vira as costas aos jovens filhos a quem proclamou estudo, trabalho e mérito, porque de compadrios se faz a ascensão social; quando nos pede para lhe confiar as poupanças do nosso labor e suor, para mais tarde nos despojar de dignidade, na idade de maior fragilidade, porque ela própria se endividou; e quando expulsa os próprios filhos e ela mesma se prostitui; condena-se ao abandono e à má memória.

A revolta que verbalizamos é contra a Mãe Nação, contra o Escudo, os Castelos, as Quinas, a Língua e o nome Portugal, porque a culpa parece não ter nome nem rosto. Pior, a culpa parece não ter alguém suficientemente digno para dar a cara. A culpa morre solteira enquanto Portugal é assassinado.

A culpa é dos Adamastores que conduzem há demasiado tempo esta nossa pequena Nau de Pedra. Esses que, propositadamente, nos tatuam a pele a murro, nos marcam a alma a ferro quente e nos desferem vergastadas nas costas, daqueles a quem prometeram servir. São esses os proxenetas desta Nobre Nação, e são esses os que deviam ser açoitados e abandonados num Pelourinho, em público.

No final, cada Português que viu o seu direito cerceado pela corrupção social; cada Português humilhado na sua dignidade por um Estado demasiado narcisista para ser justo; cada Português escorraçado do seu País; deveria vazar um punhado de lágrimas e sal sobre as feridas abertas nas costas destes capatazes, que tão bem conhecemos dos títulos garrafais dos Jornais.

Nascer em Portugal devia ser um direito, uma honra, uma láurea. Nunca um triste mero acaso.