NÃO TRABALHO AQUI E NÃO VENDO LOTARIAS

por José Carreira | 2017.08.05 - 12:17

 

 

Normalmente, aproveito a hora de almoço para me dirigir aos CTT e despachar a correspondência pessoal. Numa das últimas incursões, deparei-me com uma multidão, cerca de três dezenas de pessoas à minha frente. Enquanto preenchia os impressos, para registar as cartas com aviso de receção, ia ouvindo o sinal sonoro que se seguia sempre à pergunta: “Quer uma lotaria?”. Os CTT vendem livros, lotarias, produtos financeiros, uma autêntica loja de conveniência…

Entretanto, observo o deambular de uma senhora septuagenária. Para a esquerda, para a direita, olhava para o balcão de atendimento, para as pessoas que esperavam e desesperavam, continuava a ziguezaguear, saía da sala, entrava na sala, olhava para as pessoas entretidas com os seus smartphones (provavelmente estaria a fazer o mesmo, caso a minha atenção não tivesse sido despertada pela aparente desorientação da senhora…).

A senhora aproximou-se, trazia dois envelopes na mão. Decidi perguntar-lhe se precisava de ajuda. Respondeu afirmativamente, sorriu e disse: “Ando à procura de um livro de códigos postais, quero enviar estas cartas para Montemor-o-Velho, mas não sei o código e tenho medo que não cheguem ao destino…”.

Confesso, não sei se haverá algum livro com os códigos postais, mas, bendito google, disse-lhe para aguardar um pouco (“Estou à espera, mas nunca me chamam, não sei se posso ir ao balcão, não quero incomodar… “).  Perguntei-lhe se tinha tirado a senha… “Senha? Que senha? Para que serve? Não sei nada disso…”.

Encontrei o código, ditei-lho, anotou no envelope, agradeceu e saiu. Entretanto, continuavam a ser chamados os clientes, aguardava a minha vez quando vejo novamente a senhora…perguntei-lhe se precisava de ajuda. Estava nitidamente desorientada, anuiu e disse-me que não sabia onde deveria colocar as cartas, já com os códigos postais… Tentei explicar-lhe, mas rapidamente percebi que a comunicação não estava a fluir, fui com a senhora ao local, depositou as cartas, agradeceu, sorriu e perguntou: “O menino trabalha aqui?”

Respondi: não, não trabalho aqui e também não vendo lotarias…

Sorrimo-nos e despedimo-nos…