Não será tempo a mais na Escola?

por Carlos Cunha | 2016.02.14 - 17:03

 

 

Nos últimos anos temos assistido ao progressivo aumento da duração dos horários escolares. A Escola vai-se adaptando para dar resposta às necessidades de pais absorvidos pelo trabalho e com pouco tempo para a família.

Por outro lado, as crianças vão entrando mais cedo no sistema educativo. A partir dos 3 anos podem, legalmente, frequentar os Jardins de Infância da rede pública, onde podem entrar desde as 8:00 horas e permanecer até às 19:00 quando os pais necessitam. Este horário pode ser praticado nas interrupções letivas de Natal, Páscoa e no final do ano letivo.

Apesar de considerar que as crianças passam demasiado tempo “fechadas” nos Jardins de Infância, reconheço que há famílias com pouca ou nenhuma retaguarda e que têm horários laborais exigentes e pouco flexíveis, pelo que não lhes resta outra alternativa senão recorrer ao prolongamento de horário. Mas no meio daqueles que efetivamente precisam não haverá outros que aproveitam a oportunidade para, e perdoem-me se estou a ser injusto, se “descartarem” durante um bom par de horas dos filhos?

Sobra assim pouco tempo para pais e filhos conviverem, criarem e aprofundarem laços e cumplicidades. Até o fim-de-semana é cada vez mais preenchido com tarefas rotineiras como limpar e arrumar a casa, lavar e aspirar o carro, ir ao cabeleireiro ou dar uma volta de bicicleta com os amigos. Tarefas/programas tão legítimos quanto necessários.

Não deixa de ser paradoxal que num país como o nosso em que a taxa de desemprego é invariavelmente alta, que os pais se mostrem disponíveis para aceitar que os filhos passem mais tempo com a educadora e as assistentes operacionais do que com eles próprios. Não estarão os governos com a introdução de sucessivas medidas a incentivar a demissão dos pais de cumprirem uma das suas principais responsabilidades que é a de educar os seus filhos?

No presente muitas crianças já estão a “pagar a fatura”, recorrendo a medicamentos para se manterem atentas e concentradas nas aulas, mas e no futuro? Será que ninguém se interroga sobre os valores, os laços de afetividade e a noção se família que estas crianças serão capazes de construir?

Num tempo em que a função pública anseia pelo regresso às 35 horas de trabalho, tem de haver quem defenda que, nos primeiros anos de vida, as crianças necessitam de estar perto do pai e da mãe, da família, de serem crianças e de aproveitarem ao máximo a Infância para, um dia já crescidos, se recordarem desses tempos com uma saudade boa, passível de ser replicada quando um dia também eles forem pais.

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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