NÃO, OS PARTIDOS NÃO SÃO TODOS IGUAIS! E NÃO FOI PARA DAR VOZ À EXTREMA-DIREITA QUE SE FEZ O 25 DE ABRIL!

por Carlos Vieira | 2018.09.10 - 04:30

 

 

“Servir o Povo e nunca servir-se dele!”

Padre Max(imino de Sousa), assassinado pelos bombistas da extrema-direita em 2 de Abril de 1976.

 

 

         Durante três semanas, cronistas, comentadores e dirigentes de partidos da direita, dedicaram-se a zurzir no BE em particular e na esquerda em geral, a pretexto do caso Robles.

         Foi triste ver que à boleia da direita, também dirigentes de partidos de esquerda e de centro-esquerda, como Manuel Tiago, de forma mais sectária e virulenta, ou António Costa, de modo mais cínico e desleal, não resistiram a “bater no ceguinho”, como se há muito estivessem à espera que ele tropeçasse e se pusesse a jeito. Não viram que o ataque da direita à pretensa “superioridade moral” do BE tinha como alvo toda a esquerda, para concluir que “afinal, os partidos são todos iguais”.

É certo que o vereador do BE errou, enganou o partido e os seus eleitores,  praticou o contrário do que defendia e que o BE sempre defenderá. É certo que a direcção do BE demorou (três dias) a tirar as conclusões que se impunham e a demissão de Robles pecou por tardia. Mas, o que interessa é o resultado: a Coordenadora admitiu que errou na avaliação do caso e Robles demitiu-se de vereador e de dirigente concelhio do BE, não por ter feito algo ilegal, mas apenas (e não foi pouco!) por falta de coerência política. Mas isto faz toda a diferença com os casos conhecidos de dirigentes de partidos de direita e do centro acusados de coisas mais graves e ilegais, sem tirarem consequências, nem eles, nem os seus partidos.

Isabel Patrício, jurista, no jornal SOL do passado dia 11, ao mesmo tempo que vaticinava o “Início do fim do BE ou apenas de Catarina Martins”, acabou por explicar, melhor do que ninguém, o cerne do problema: “É que o eleitorado pode perdoar comportamentos e palavras menos próprios a políticos de direita ou do centro, por entender que já se sabe que são mesmo assim. Mas não perdoa nem esquece esses comportamentos e essas palavras vindos dos que se arrogam ser os verdadeiros defensores daqueles que a sociedade menos bafejou”. [sublinhado meu].

É assim:  já estamos conformados a que os políticos de direita e do centro mintam, roubem, financiem ilegalmente os partidos, passem dos governos para as empresas privadas a quem fizeram favores, etc. Apanhar um político de esquerda em contra-mão é tão raro que se compreende que a direita e o centro se aproveitem para espalhar aos quatro ventos: “- Vêem? Afinal, são todos iguais!”

Não, os partidos não são todos iguais! José Mujica, o ex-presidente do Uruguai, e ex-guerrilheiro, famoso pelo seu desapego aos bens materiais (doava uma parte do salário ao Plano Juntos, um projecto solidário de moradias para pobres que criou ao assumir a presidência”), definia “ser de esquerda” como “ser solidário”. Ser solidário com quem? Com “os pobres, os deserdados, os excluídos”, que segundo Giorgio Agamben, são designados nas línguas europeias modernas, pela palavra “Povo”, depositário único da soberania, desde a Revolução Francesa.

A “esquerda” nasceu, precisamente,  da posição que os Jacobinos tomaram na Assembleia Nacional Constituinte, durante a Revolução Francesa de 1789, em representação do “terceiro estado” (pequenos camponeses e proletários urbanos “sans-culottes”, artesãos e pequenos comerciantes, médicos, professores e outros profissionais liberais) que pretendiam eliminar os escandalosos privilégios do “primeiro estado” (clero) e do “segundo estado” (nobreza), assentes no poder do rei e aliados à grande burguesia (banqueiros e grandes empresários),  representados pelos Girondinos (à direita).  Desta assembleia sairia a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que instituiu a igualdade de todos perante a lei, abolindo os privilégios por nascimento e a servidão feudal. A Convenção Nacional, a 21.09.1792, proclamaria a República. A universalização da democracia era uma questão de tempo.

Quando parecia que o caso Robles já estaria mais que exaurido, eis que um novo vómito lhes assumou à boca: os insultos ao BE e à esquerda que se indignou pelo convite da Web Summit (subsidiada pelo governo português) a Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa que anda a espalhar pela Europa o ódio e a violência contra i(e)migrantes.

A História não confere “autoridade moral” a quaisquer doutrinas (políticas ou religiosas), mas é a “direita” que fica muito mal na fotografia, como instigadora do pior que a humanidade criou: escravatura, colonialismo, imperialismo, fascismo e nazismo, frutos do capitalismo (selvagem  por natureza),  financiador de Hitler, Mussolini, Salazar, Franco, Pinochet, Videla e outros bons alunos da “Escola de Ditadores” dos EUA na América Latina; guerras de pilhagem de territórios, de matérias-primas e de mercados. E também se deve maioritariamente à direita o nacionalismo dos Estados-Nação (esmagador do nacionalismo de pequenos países/regiões, carentes de liberdade e autonomia), e o neoliberalismo promotor da austeridade e da extinção dos direitos laborais e serviços públicos.

É verdade que muitas experiências revolucionárias fracassaram precisamente por terem abandonado o carácter solidário, logo democrático, da Esquerda.  Foi o que aconteceu na URSS, na China ou em Angola, entre outros. Por nem toda a esquerda o ter percebido é que surgiu há quase 20 anos o Bloco de Esquerda, que não se reconhece em qualquer dos poucos regimes hoje no poder que se reclamam de “comunistas”, “socialistas” ou coisas do género. Como dizia Lenine, “no nosso ideal não há lugar para a violência”. E quando pela primeira vez na história da humanidade, os trabalhadores tomaram o poder, na Rússia, e se recusaram a disparar contra os seus irmãos proletários de outros países, abandonando a I Guerra Mundial (outros partidos socialistas apoiaram a guerra, traindo os seus princípios marxistas,  como o Partido Social-Democrata alemão, excepto o deputado Karl Liebknecht que haveria de fundar, com Rosa Luxemburgo, o Partido Comunista da Alemanha), sofreram a invasão de 14 exércitos estrangeiros, incluindo das potências ocidentais ditas democráticas que não queriam que os trabalhadores dos seus países seguissem o exemplo de emancipação dos proletários, camponeses e soldados russos, com a Revolução de Outubro de 1917. O povo russo venceu, mas poucas décadas depois voltou a sofrer a invasão das hordas selvagens do capitalismo e do seu cão raivoso, Hitler (que morderia o próprio dono). E à custa de milhões de mortos, voltou a vencer, contribuindo para o fim do nazismo.

A Esquerda não é moralista pela simples razão de que não tem dogmas. Como dizia Engels: “O marxismo não é um dogma, mas um guia para a acção!” A acção para acabar com a exploração do Homem pelo Homem, e da mulher pelo homem; para acabar com o Capitalismo predador  do ambiente do nosso Planeta, causador de guerras, doenças e corruptor do caracter dos seus agentes;  acção para acabar com o racismo, a xenofobia, a homofobia e todos os preconceitos derivados da ignorância. É essa a moral (ética) da Esquerda: ser solidário com os mais fracos e lutar por um Mundo melhor!

E não foi para dar voz à extrema-direita racista e xenófoba de Le Pen e quejandos que fizemos o 25 de Abril!

 

Carlos Vieira e Castro