Não. Não. E não.

por Amélia Santos | 2014.05.08 - 14:59

Não dizer «não». Não ser capaz de dizer «não» é provavelmente um dos defeitos mais inconsequentes de quem um dia tem poder, nomeadamente político…

Já lá vão uns anos… No vaivém de professores contratados, conheci uma sábia colega de Inglês, com quem conversava habitualmente, que me disse que a palavra mais importante na vida é o «Não». Que o ensinara às suas filhas, desde pequenas. Que era um dos seus princípios de vida – cultivar e aprofundar o seu bom uso nas mais diferentes circunstâncias.

Fiquei a pensar na questão. De início não entendi o seu alcance, mas com o tempo dei-lhe mais e mais razão. Quando esta capacidade não se treina, desde jovem, somos confrontados com problemas de difícil resolução, que advêm justamente da incapacidade de dizer «não».

Quem não conhece esse tipo de pessoas? Quem não se sentiu já enganado, ludibriado, frustrado por causa de um «não» que não foi verbalizado?

As crianças têm uma fase, de afirmação, em que dizem «não» a todo o momento e a quase toda a gente. Digo quase, porque elas, inteligentes, entendem desde cedo quem são aqueles que estão e estarão sempre com elas (aqueles a quem se pode dizer facilmente «não») e os outros, os que, pelo sim pelo não, convém não afastar…

Mas, na adolescência, período em que a personalidade está em formação, em que somos assaltados por múltiplas inseguranças, conseguir e saber dizer «não» revela-se talvez a tarefa mais ambiciosa. Para impor ideias. Para não ir atrás dos outros, daqueles que parecem reunir um séquito de “amigos”, de discípulos e simpatizantes, só porque parecem ser os mais fortes. Dizer «não» na altura certa, saindo da zona de conforto aparente, representa o desenvolvimento de uma personalidade, a criação de um caminho, que ajuda a fazer frente às adversidades. Dá segurança. Ajuda a aceitar a diferença. E, ajuda, no limite, a aceitar a vida e a morte.

No namoro, é urgente conseguir dizer: Não quero isto. Não gosto daquilo. Sob pena de andarmos contrariados, a fingir ser quem não somos, a construir uma personagem, que não somos nós próprios. Este tipo de comportamento arrasta frustrações e recalcamentos. Alimenta monstrinhos, ignorantes de si próprios. Do que são e do que querem.

E, quando se chega a adulto sem ter tido a capacidade de dizer «não», é-se, naturalmente, um homem/mulher deficitário, que não usa a sua voz interior. É-se teatral. Incompleto. Responsável por infelicidades –as próprias e as dos que lhe estão direta ou indiretamente ligados. Portador de inverdades e desassossegos destrutivos da harmonia interior.

Hoje, já nem recordo o nome dessa colega de Inglês, mas a sua assertividade e a sua sabedoria marcaram a “jovem” que eu era nesses anos e contribuíram para a formação da minha personalidade. E assim acontece quando temos a sorte de conhecer e conviver com pessoas muito especiais. Sou uma privilegiada, nesse particular!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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