“…não há tristezas nos homens; só as mulheres são tristes…”

por PN | 2016.12.05 - 12:43

 

Menina e Moça

No vol. I das Obras Completas de Bernardim Ribeiro, com pref. e notas de Aquilino Ribeiro e Marques Braga (Livª Sá da Costa, 4ª ed. de 1982) lê-se no cap. III, a pp. 17 e 18:

não há tristezas nos homens; só as mulheres são tristes: que as tristezas quando viram que os homens andavam de um cabo para outro, e, como às mais das cousas, com as contínuas mudanças ora se espalhavam, ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhes tolhiam o mais do tempo, tornaram-se às coitadas das mulheres, ou porque aborreceram as mudanças, ou porque elas não tinham para onde lhes fugir. Cá certamente, segundo as desventuras são desarrezoadas e graves, aos homens, aos homens se haviam de fazer: mas quando com elas não puderem, tornaram-se a nós, como à parte mais fraca. Assim que padecemos dois males, um que sofremos e outro que se não fez para nós. Os homens cuidam outra cousa, mais do que as mulheres não cuidam. Logo costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se eles por isto têm razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter verdade desconhecida.” (subl. nosso)

paginas-do-menina-e-moca

A respeito deste extracto, Agustina Bessa-Luís, na sua preciosa obra “Contemplação Carinhosa da Angústia” (2ª ed. Guimarães Edit., 2000):

contemplacao

“Este belíssimo olhar por dentro a tristeza, não tem paralelo na literatura. E se cuidam que esta fala pode, em Bernardim, descrever a experiência duma mulher, isso é erro; aquele que é movido pelo mistério que as doutrinas não entendem, esse pode saber do homem e da mulher, ‘na sua verdade desconhecida.”

lagrima

Sobre este excerto de BR poder-se-iam verter tinteiros… Outrotanto sobre o escritor. Verdade é que a sua figura misteriosíssima vive envolta numa dissimulação extraordinária. Homem enigmático, pouco dele se sabe, e o que se conjectura pouco fundamento sólido tem de esteio. Agustina, na obra op.cit. escreve:

Em Bernardim há um requinte tão impertinente que pressupõe homem de condição para quem as letras sejam ocupação e não o trabalho; uma espécie de jogo, certo de ganhar, feito ao talento mundano. Suspira e finge com tão perfeita graça que o julgamos sincero das suas invenções. Homem rico decerto, que a fortuna faz a imaginação do sofrimento mais correcta do que a dor sofrida. Não é de repudiar completamente ter sido Bernardim o sobrinho da famosa Beatriz Mendes, judia portuguesa e banqueira triunfal que se tratava de igual para igual com o Grande Turco.

Nota: recordo que “Menina e Moça” foi publicado em Ferrara, no ano de 1554.