Não há desenvolvimento sem trabalho digno

por Acácio Pinto | 2016.01.05 - 21:57

 

Vivemos tempos sombrios no que concerne aos direitos dos trabalhadores e à dignidade e remuneração do trabalho.

Esta é uma daquelas questões que tem vindo a piorar no decurso destas últimas décadas. As tais décadas de afirmação das “promissoras” globalização do comércio e “democratização” dos acessos à net. Dizia-se que caminhávamos para o tempo em que a igualdade de oportunidades rasgaria as amarras e todos seríamos mais iguais. Dizia-se que a breve prazo as circunstâncias dos berços de nascimento não seriam determinantes para o rumo de cada cidadão.

Era assim como que um éden mesmo ali à mão!

É bem verdade que nem todos embarcaram neste canto do cisne. Que nem todos trincaram esse engodo bem confecionado.

Mas o que é facto é que aqui chegámos e aqui estamos, hoje, todos aterrados e soterrados neste mundo de efetivos poderes dos “estados” económicas e financeiras supra estatais. Destes “impérios sem rosto” a quem paulatinamente os poderes políticos dos estados se entregaram em nome dos nobres valores do investimento, da competitividade, da eficiência e do livre comércio.

E vai daí, esse poder de facto, desses “estados”, a quem não conhecemos as feições faciais, disseram ao que vinham e aí estão em velocidade cruzeiro a imporem as suas regras.

E hoje, são aos milhões aqueles que face à iminência do desemprego e da precariedade se confrontam com a aceitação de regras e ditames leoninos nos mais diversos setores da economia. Tudo o que é economia é alvo das “diretivas” comerciais e laborais desses grupos. E as novas guerras, agora, passaram a ser entre esses impérios sem rosto, que quantas vezes arrastam povos inteiros para a fome e para a miséria.

Assistimos como que a uma “(re)escravização” do homem em muitas paragens do mundo.

E em Portugal os laivos destas políticas andam também por aí. As políticas desenvolvidas, nomeadamente, ao longo destes últimos anos tinham nos seus fundamentos mais profundos muitos destes pressupostos. E pelo menos uma coisa, estas políticas, geraram: “Ferraris e Maseratis batem recordes de vendas”, segundo título do JN de dia 5 de janeiro.

É bem verdade que não vai ser possível alterar tudo e sobretudo de uma vez. Mas não tenho dúvida de que se impõe regressar à política, à ideologia, e a tudo o que ela significa na linha do respeito pela dignidade da pessoa no trabalho e na vida. E esta linha tem que ecoar e vingar nas lideranças políticas da Europa, da União Europeia, para que esta retorne aos seus verdadeiros valores fundacionais.

Deputado do Partido Socialista (PS) na XII Legislatura eleito pelo Círculo Eleitoral de Viseu

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