Não é um texto sobre como (não) vivi a praxe

por Silvia Vermelho | 2014.02.22 - 12:48

A maioria dos textos sobre a praxe são um longo romance sobre a praxe e eu. Também eu me sinto tentada a fazê-lo, e a regressar a Lisboa, em 2005. Mas a verdade é que isso não é nada relevante para o debate. Debate esse onde toda a gente lança defesas a uma fase das suas vidas, que estão a viver no momento ou que já viveram no passado, quiçá para esta não perder o sentido ou levar a questionamentos sérios sobre a identidade formada pós-vida universitária.

Com efeito, a vida universitária é, inevitavelmente, repleta de festas. As/os jovens universitárias/os têm mais descontos, mais festas, mais espaços para elas/es que quaisquer outras/os jovens no país. A vida nocturna das cidades universitárias está feita para elas/es, e a de Lisboa ou Porto tem o seu espaço para universitárias/os, também. A vida universitária move muito, muito, dinheiro, que o digam as marcas presentes nos Festivais Académicos, sejam de álcool, tecnologia, lojas de trajes, etc.

Facto é que as festas existem – ou podem existir – para além da praxe. Os trajes também, e as tunas e as fitas e essas coisas. Uma festa não precisa de um sistema ou um conjunto de formalidades e de normas de conduta, neste caso, no meio académico, para existir. Pelo que “a alegria”, “o companheirismo”, “a festa”, etc., não são a praxe. Podem vir com ela, como podem vir com quinhentas mil coisas atrás, mas não é isso que é definidor da praxe. O que é definidor é aquilo que a maioria dos defensores escolhe dizer que não é, que a existência de uma hierarquia que legitima normas de conduta baseadas no critério da “antiguidade” na instituição académica. E isto não é opinião, nem subjectividade, é definição. É dicionário. Ou seja, novamente, como se fosse muito difícil: posso ter festas, cortejos, etc., sem praxe? Posso. Posso ter um conjunto de formalidades e normas de conduta no meio académico baseados na “antiguidade” sem praxe? Não. Pois então a praxe é esta última.

Facto é, também, que no nosso quotidiano aceitamos diversas estruturas de poder sem as questionar, como é exemplo a ilusão da escolha dos nossos governos ou até mesmo as estruturas familiares mais rígidas. Fazemo-lo porque, de alguma forma, o respeito dessas estruturas fornece-nos (aparentemente) vantagens adaptativas na sobrevivência. Contudo, acho que podemos concluir pelo estado em que o país está, ou pelo estado em que o mundo está, que não dá muito jeito continuar a alinhar em estruturas sem as pensar e reinventar.

O que levam dezenas de milhares de estudantes, todos os anos, a alinhar numa estrutura hierárquica que é baseada na “antiguidade”, como se isso fosse algum critério legitimador de qualquer coisa que fosse, é algo que pessoalmente não percebo. Tenho um instinto de autopreservação nunca me fez dizer ámen a este tipo de estruturas, na universidade ou fora dela. Talvez por isso nunca tenha conseguido filiar-me num partido. Talvez, por isso, não consiga empatizar com este argumento que me apontaram: “vestir o traje é muito importante porque te faz perceber que és igual aos outros e que não és mais que ninguém, Coimbra dá-te uma lição de humildade”. E, quando ouvi isto, calei-me, porque de facto, em toda a nossa vida é-nos ensinado que a humildade é uma coisa boa. E pode ser, de facto, quando é humildade perante as certezas, dando-nos o poder de questionar. E a propósito da praxe, está na altura de questionar a praxe. E aboli-la. Não por decreto, porque há sempre quem arranje forma de fazer estas coisas clandestinamente e já chega de decretos. Mas por entrada em desuso. Por sair de moda. Por reconhecermos que, de facto, não há razão nenhuma para construirmos uma estrutura de poder com base na antiguidade. Para abolir a praxe, só é preciso recusar a praxe, não é preciso recusar festas, nem serenatas, nem outras “tradições académicas”. Só a praxe. Nem é a praxe pesada, nem a praxe leve, porque onde há Poder também há abuso, mas as consequências do exercício do Poder ou do seu abuso não se diferenciam na sua origem: a praxe.

No próximo ano lectivo, praxe-se a praxe, submetendo quem precisa de se sentir reforçado porque entrou na faculdade um ano antes de alguém ao tratamento que merece: ignore-se essa pessoa e, se essa pessoa não se der bem com isso e interferir com a sua liberdade, denuncie-a. A praxe não precisa de ser crime público para que possamos travá-la. Só precisamos de activar o nosso instinto de autopreservação.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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