Na política vale mesmo tudo?

por Ana Albuquerque | 2014.09.03 - 13:04

 

Aristóteles advogou a política como meio de reconciliar, de encontrar a unidade na polis, um aglomerado de pessoas diferentes. A política era o meio de estabelecer a ordem, evitando regras coercivas, autoritárias.

Se atendermos ao sentido do sufixo grego Kratia, com o significado de poder ou regra, o seu sentido é alterado pela base que utilizarmos, por exemplo, em termos como democracia e autocracia, as fontes de poder são, obviamente, diferentes.

O entendimento da vida dos partidos, como organizações políticas, pressupõe a mobilização de conceitos como interesses, conflito e poder.

Quanto aos interesses, aparecem destacados os interesses pessoais, ligados ao trabalho, à progressão na carreira, à satisfação económica, à dominação narcísica etc. Um conjunto de pessoas com interesses mais ou menos comuns forma um grupo de interesses. Os grupos de interesse vão variando, não são estáveis, e os indivíduos, ou melhor, os atores estratégicos, vão mudando de grupo conforme a conveniência e a oportunidade oportunista dos momentos. Não falemos, agora, dos interesses ideológicos, frequentemente esquecidos ou relegados para segundo plano na vida dos partidos.

O conflito pode materializar-se de forma mais ou menos explícita. Umas vezes aberto, manifesto nas lutas de poder, outras velado, encoberto, mas sempre latente. O conflito exerce-se nas disputas entre grupos de interesse que ora se coligam, ora se digladiam na arena, no jogo das redes formais ou informais de dominação, controlo ou influência, na relação flutuante e sempre assimétrica de poderes.

O poder só se consubstancia na relação grupal, isto é, entre, com e contra os outros. Nenhum ator armazena o poder. Ele só se exerce num determinado contexto de ação que o possibilita. O poder é indissociável da troca, da regulação de dependências, de jogos, numa ordem contingente, indispensável à vida organizacional. A forma como as relações de poder se estabelecem pode ser maquiavélica, levar a excessos que corroem a vida dos sistemas, mas que, ao mesmo tempo, potenciam a sua requalificação, redimensão, reestruturação, qual Fénix que das cinzas renasce.

As fontes de poder são múltiplas. O controlo dos recursos económicos, o controlo dos procedimentos, o controlo do conhecimento e da informação, o controlo das alianças interpessoais e das redes informais, a gestão das relações de género e a capacidade de lidar com a incerteza são algumas delas.

A forma como o poder se exerce num partido político com um grande número de indivíduos instáveis, integrados em grupos de interesses instáveis, leva a um conjunto variável de táticas e estratégias de controlo e de influência. Estas podem expressar-se através de práticas de natureza relacional, empatia, simpatia, benevolência, ou através de práticas de ordem racional como o controlo do cumprimento de regras formalizadas em regulamentos, estatutos, que interessam a alguns, ora através de práticas, mais ou menos coercivas ou autoritárias, de ameaças, represálias, vinganças, etc.

Os partidos políticos estão repletos de pessoas a quem não interessa o significado do termo democracia e que são peritos no exercício do último tipo de táticas.

Há sempre lógicas de ação que escapam aos olhos do analista, aos olhos de Aristóteles, o Grego!

No dia 6, eu voto B. No dia 28, estarei com Costa.