Mundialização, um paraíso para todos?

por PN | 2019.12.17 - 15:22

Num artigo de Tiago Soares, na revista do Expresso da semana passada, lia-se que “segundo a lista de milionários da Forbes, os 50 mais ricos de Portugal possuem uma fortuna de 24 mil milhões de euros. (…) Somadas, as fortunas destes 50 totalizam qualquer coisa como 12% do PIB português. As dez famílias mais ricas do país, no entanto, só são responsáveis por 1,3% do emprego nacional.

Haverá aqui alguma contradição? Aparentemente não. Dizem-nos os estudos económicos que, com a mundialização/globalização, criação de empregos e criação de riquezas já não estão intimamente ligados.

Vamos por partes…

O que é o PIB?  É o indicador económico medindo a riqueza criada por ano num determinado país. Mede o crescimento económico, evidenciando o valor conjunto total dos bens e dos serviços produzidos num território nacional.

O que é a mundialização (ou globalização)? De forma simples e em economia é uma aceleração das trocas comerciais e financeiras à escala mundial graças ao desaparecimento das barreiras comerciais e ao desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação. Mas vai muito para além da economia, por exemplo, nos domínios dos seres humanos, bens e serviços, capitais, tecnologias ou práticas culturais. É também geradora de um nível crescente de interacção entre diferentes regiões e diferentes populações do globo.

Assim…

A mundialização económica é o desenvolvimento das trocas comerciais com players transnacionais, do tipo empresas transnacionais.

A mundialização financeira é o surgimento de uma finança mundial com trocas financeiras internacionais, com trocas monetárias.

A mundialização cultural é a interpenetração das culturas em toda a sua diversidade, mas também a emergência de uma supracultura mundializada.

A mundialização política é o desenvolvimento e a influência crescente das organizações tais como a ONU a a OMS, assim como das ONG’s.

A mundialização sociológica é a circulação em tempo real, interconexão e interdependência dos acontecimentos e das suas consequências.

A mundialização geográfica é a nova organização e hierarquização das diferentes regiões do mundo, em constante evolução.

A mundialização tem consequências económicas?

Sim, carreia vantagens e desvantagens.

As consequências mais visíveis são as que respeitam ao mundo económico. A mundialização levou a um claro aumento das trocas comerciais e económicas, mas também a uma multiplicação das trocas financeiras. Esta aceleração das trocas económicas originou um forte crescimento económico mundial e permitiu um desenvolvimento industrial global mais rápido. Segundo alguns investigadores, contribuiu para melhorar as condições económicas globais criando numerosas riquezas económicas. Porém, as consequências aparecem: desigualdade de proveitos, de desenvolvimento, degradação das condições de troca. Ademais, certos players (países, empresas, indivíduos) beneficiam enormemente dos fenómenos de mundialização, enquanto que outros são vistos como os perdedores da mundialização. Tenhamos presentes as consequências sobre o meio ambiente, por intermédio, por exemplo, do desenvolvimento brutal dos meios de transporte e das emissões de gás geradoras do efeito de estufa, do aquecimento climático, da poluição do ar, etc.

Hoje sabe-se que há companhias de aviação brutalmente poluidoras. Um estudo apurou que no nosso país, só uma companhia de aviação a operar, poluía mais que todos os veículos a circular nas 5 maiores cidades portuguesas. Não esqueçamos que os grandes transportadores de contentores por via marítima, são dos maiores poluidores mundiais.

O crescimento económico mundial e a produtividade industrial, que são simultaneamente o motor e as consequências principais da mundialização são também a causa da delapidação dos recursos naturais, desflorestação e destruição dos ecossistemas.

Em suma, um equilíbrio sustentado e sustentável é hoje dificilmente configurável, até e pela feérica emergência do “novo” em termos de conceitos advenientes desta mutabilidade.

Parece que a humanidade, em geral, ainda não sabe como conviver harmoniosa e proficuamente com todas estas alterações supravenientes da globalização, enquanto que, por outro lado, uma ínfima parte dela, com todos os meios humanos e tecnológicos ao seu alcance, aparenta saber muito bem como tirar todos os dividendos e proventos deste novo cenário. Por isso, a eclosão de cada vez mais muito ricos e a existência de cada vez mais muito pobres, agravando a eterna fissura social mundial.

Mas que fique claro: não é mau haver mais arquimilionários. Péssimo é haver cada vez mais miséria e penúria no planeta.

Paulo Neto