Menos sobrado, mais rés do chão!

por Fernando Figueiredo | 2019.05.09 - 13:18

Em tempo lembro-me de uma parede onde a velha tabuleta, com os dizeres: “É prohibido afixar cartazes n´esta propriedade” não servia de nada. Ou eram cartazes de papel colados nas paredes que ali permaneciam durante meses até a chuva os desfazer. Mais tarde vieram os graffitti, popularizados, em 1970, por um jovem grego, Demetrius, residente em Washington, cuja alcunha era Taki 183 e muito ligados à cultura hip-hop e aos disc jockeys Afrika Bambaataa e Kool Herc.

Nessa época havia pichagens, que eram letras horrorosamente desenhadas, com sprays de tinta que danificavam edifícios, por vezes até monumentos nacionais e infelizmente ainda hoje isso acontece. Através das pinturas com sprays em muros, os jovens iam (ou vão, não sei) criando grupos organizados, delimitando territórios e caminhando para a marginalidade.

A matéria é delicada. Os fãs dizem que o graffiti é uma forma de arte e não um crime, uma forma de os jovens se afirmarem. Se não o fizessem desse modo, recorreriam a meios piores mas o facto é que mesmo os países mais liberais tendem a condenar esta prática.

A capacidade de correr à frente dos polícias é uma qualidade tão importante como a habilidade para usar os sprays de tinta. A tentativa de solução foi a de utilizar muros livres e o resultado não podia ser pior. Bairros inteiros ficaram repletos de graffiti. Uma alternativa, no Canadá por exemplo, foi o das pinturas apenas serem autorizadas em painéis de teflon especialmente fornecidos para o efeito. Esta iniciativa, sim, foi bem sucedida.

Até que um dia chegou a Viseu o “imersivo da urbe, vendedor de ilusões, decorador de chavões e pintor de sonhos” e logo tratou de vender aos parolos provincianos das terras de Viriato e Vissaium a arte nobre de pintar as paredes com o recurso ao orçamento camarário.

É assim uma cena mais “in” que o Gonçalo Loureiro, redator na empresa NOSSA™, teme “que se tenha aburguesado nos últimos tempos para os lados de Viseu, para cair no goto do poder político e beneficiar dos subsídios necessários para viabilizar a realização do seu festival e não causar desconforto nas ruas da cidade.”

O que hoje se promove na urbe estoirando verbas avultadas do erário público já não é felizmente o grafitteiro fugitivo do spray mas também não é o criativo amador, até porque em Viseu já foi gerado um ecossistema empreendedor de profissionais à volta destas questões da Street Art com o patrocínio do vereador que por este andar vai acabar por mandar fazer não uma pintura mural mas sim uma estátua sua na Praça.

Com o dinheiro dos contribuintes e a minha criatividade também eu pintaria a cidade toda, começaria era pelos abandonados bairros sociais. São critérios, tal como a arte, discutíveis. Uns gostam de ter os pés assentes no rés do chão preocupados com o futuro, outros com o dinheiro público gozam o presente nas festas do sobrado!

Fernando Figueiredo

Forjado na Beira Alta, aos 56 anos dá-se por bem casado e aprecia a companhia de três filhos, dois ainda na fase de espalhar magia a toda a hora; em família dá-se como feliz, apenas por o fazerem feliz. Como os duros estudou na Academia Militar, que não é para meninos e na época em que ainda se viajava de pé no comboio mas teve ainda tempo para queimar as pestanas em Gestão de Recursos Humanos. 36 anos “militarizado” vê-se agora na reforma a procurar ser “civilizado”. Em termos profissionais esteve no Iraque e voltou para contar, também esteve em Timor onde bebeu água de coco e visitou Jaco, erro fatal que lhe deixou o coração preso nas valorosas gentes timorenses e nas paisagens únicas do País que ajudou a ver nascer independente já no Séc XXI. Nos tempos livre actualiza o blog mais lido e odiado do delta do Dão, o Viseu Sra da Beira, e ainda escreve textos para jornais mas, poucos o lêem. Homem sem grande preocupação em fazer amigos, escreve o que entende sobre quem não consegue entender. Tais liberdades já lhe valeram um par de processos em tribunal, sem nunca se ter declarado Charlie. A genética deixou-o sem um único cabelo mas está careca de saber que os valores do trabalho, da honestidade e da amizade são o maior legado que o pai lhe deixou. Benfiquista moderado, gosta mesmo é de um bom jantar na companhia dos melhores amigos. Agora como empresário e homem de negócios só aceita de lucro o necessário para viver e distribuir por outros e de comissão a 100% a ética, a responsabilidade e o profissionalismo. É garantidamente mais bonito ao vivo que em foto.

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