Marrocos a solo em Renault 4 L

por Eugénio Costa | 2017.07.30 - 11:45

Superação no Saara

 

Cumprindo um sonho pensado há três anos, parti a solo, com destino a Marrocos, não num TT como é habitual, mas numa 4 L.

De abril a maio, 11 dias, 4.800 km e estava finalizada a experiência de uma travessia extenuante de um deserto impiedoso, calor, areia e distância.

Não falo dos locais fantástico, que todos por quem lá andaram, conhecem, nem dos “atascanços”, nas mangas de reboque, das pranchas e da mecânica.

Falo de superação, de pessoas, de afetos e emoções, de marcos de vida, de espaços paralelos, do que pensa, sente e vive alguém, sozinho dentro de uma 4 L.

Comigo, dois companheiros em TT, a 4 L era frágil, à partida, embora se tenha revelado forte na chegada.

A travessia do Atlas, e as suas crianças, desprotegidas aos nosso olhos e talvez não, por ser delas aquele território, constituiu o primeiro espasmo emocional.

São figuras frágeis que correm invadem e nos tocam, apelos repetidos gravados na nossa memória, são filhos de alguém, netos de alguém, crianças, o melhor do Mundo.

Se a travessia do Atlas tinha sido difícil, revelou-se um passeio de montanha comparado com os dias seguintes, areias finas, que tudo ocupam, carro e condutor, o calor impiedoso, os trilhos de pedra dos rios secos, distância enorme pelo lento avanço, nunca arrependimento ou dúvida, nem medo, prazer de superação, sim.

São momentos para reflexão, encontro connosco, descoberta do que de mais interessante e difícil temos para conhecer, nós próprios, o espaço que fica entre o nosso limite psicológico e físico e o abismo que nos levaria à exaustão fatal. Por fim, muito no fim, uma sombra, um chá e pessoas, ah e as dunas, mas só para quem as sabe surfar.

Na véspera da partida a minha neta Madalena, de 4 anos, deu-me um desenho, uma folha de papel enrolada e presa com uma fita. Disse-me em tom suave, “avô leva este mapa para que tu vás e encontres o caminho de regresso para mim”, no papel a um canto, estava o desenho, um “boneco”, e no lado oposto, outro, maior, no meio uns riscos paralelos, um caminho. De seguida tirou do pescoço um fio com umas pedras e deu-me “leva este fio para te lembrares de mim” em ambos peguei e seguiram comigo na linha mais curta do horizonte.

No quinto dia conduzimos durante quase 9 horas ininterruptas, focado na pista e no trilho, sabendo que qualquer descuido me deixava pelo caminho à mercê da minha asa, o Defender do Luís e do chefe de expedição, o Discovery do António.

Senti, como o esforço da mente desgasta de forma brutal a parte física, como nos desventra, nos consome as energias, nos alucina, o Luís viu cinco ou seis Wrangler´s pretos no horizonte e com tal convicção o disse que se zangou connosco por os não termos visto também.

Dormir era uma urgência, comer e beber uma necessidade, e quando ligava para casa apenas falava das coisas boas.

Um dia irei mais para Norte, ao gelo Árctico e aí os meus netos,  Madalena, Francisca e Leonardo, irão dar-me um gelado para lá comer, foi isso que lhe disseram o frio não deixa derreter os gelados e avô gosta de gelados