Maria Barroso!

por Ana Albuquerque | 2016.07.08 - 16:21

 

Não, não era amiga íntima de Maria Barroso, mas sempre convivi com ela, de longe, admirando-lhe os traços. De artista, de atriz, de declamadora exímia, cuja voz revelava, com uma sensibilidade extrema, alguns dos meus poetas de eleição, de quem nunca fui amiga íntima, mas que sempre admirei e admiro.

Sempre convivi com ela, seguindo-a na caminhada árdua que foi a sua vida de mulher, de companheira de um político em exclusividade, de um combatente, sempre perseguido, e de uma mãe extremosa, que assumiu, publicamente, a sua dor e a sua busca de conforto em Deus, perante o drama da quase morte de um filho!

Tive a oportunidade de ter estado algumas vezes perto desta grande Senhora. Sempre discreta, pequenina na estatura, de aparência frágil, mas sempre grande no porte, na elegância, na majestade, na sabedoria!

Tive a oportunidade de ser brindada com as suas palavras de conforto num dos momentos importantes da minha carreira académica. Tive a oportunidade de receber o seu sorriso, num dos últimos momentos da sua aparição em público. E quero dizê-lo com orgulho!

Foi há um ano que foi descansar desta vida para, certamente, encontrar a glória plena na outra. Li a sua última entrevista e guardei muitas das suas palavras e a tranquilidade de alguém que sabia que estava para breve a partida. A sua serenidade, a sua discrição, a sua experiência de vida, a sua abdicação por amor aos outros e a sua simplicidade deram-lhe um estatuto superior. Nunca precisou de ser demagógica para ser política. Nunca precisou de utilizar os outros para ascender à categoria de ser de exceção.

Ficará na história por aquilo que foi! E a vida de Mário Soares teria sido a mesma sem a presença discreta, mas leal, da sua companheira de uma vida atribulada? Não o creio e ouso até afirmar que também ele partiu ao acenar-lhe o último adeus, num dia de julho como este!

Há mulheres, que embora partindo, continuam nas nossas vidas!