Mar salgado pelas lágrimas de Portugal

por José Carreira | 2014.04.07 - 10:14

Os nossos governantes adoram slogans, aqui fica o mais recente: “PORTUGAL É MAR”.

Há um facto que não podemos negar, há uma certa atratividade, deste e de outros governos, pelo mar, a julgar pela “água que metem” nos múltiplos ministérios…Água essa que se torna rapidamente salgada com as lágrimas dos portugueses, ou não fossem muitos e dolorosos os danos provocados pelas descargas da “barragem ministerial”.

Sujeito-me a ser criticado como “Velho do Restelo”, mas escrevo na mesma, não me parece muito avisado produzir um mapa sem que tenha sido aprovada a candidatura às Nações Unidas para a extensão da plataforma continental…

Evocando a “nuvem negra” dos Lusíadas, do grande narrador das façanhas lusas, aquando da expansão marítima portuguesa, – Luís de Camões -, talvez não seja bom pronuncio o alerta dado por Adriano Moreia, IN Memórias do Outono Ocidental: Um Século sem Bússola: “Estávamos à espera que a ONU reconhecesse o nosso direito neste ano de 2013, mas foi já anunciado o adiamento para 2015, e neste sistema de adiamentos é aconselhável contar sempre com a criatividade da eurocracia.”

Julgo que ninguém terá dúvidas das potencialidades do mar e do interesse estratégico do Atlântico, numa era em que o tráfego marítimo de mercadorias aumenta e parece ser uma tendência de futuro.

Mais do que um mapa colocado à mesma hora em milhares de escolas do país, urge a criação de um Conceito Estratégico Nacional que, como há muito tempo defende Adriano Moreira, tenha o Atlântico como nova centralidade, alavancado na CPLP.

O Presidente da República regozijou com o novo mapa: “é fundamental que os mais novos compreendam que Portugal é um país enorme e que este Portugal mar tem enormes potencialidades”.

Não perdemos a mania das grandezas, estamos sempre em “bicos de pés”…

Eu gostava, isso sim, que o mapa tivesse legendados os projetos de exploração das anunciadas “potencialidades” e que o mesmo fosse afixado à mesma hora em milhares de empresas do nosso país e nas universidades com que estariam a trabalhar em parceria na inovação e criação de valor.

“Os progressos obtidos por meio do ensino são lentos, já os obtidos por meio de exemplos são mais imediatos e eficazes” (Séneca, Filósofo e Escritor da Roma Antiga).

Porque nunca é demais citar quem sabe, Adriano Moreira alerta que na construção do Império Euromundista, no que ao povo luso diz respeito: “que dos Impérios, o da Índia terminou em Alcácer Quibir e este Estado estava falido; o segundo Império, acabou com a Independência do Brasil, e este Estado aqui estava falido: o terceiro Império, o da África depois da conferência de Berlim, acabou com o fim do Império Euromundista, com a Revolução de 1974, e, neste caso, a fronteira da pobreza foi subindo do Sul do Saara para o Norte do Mediterrâneo, e nesta entrada do Milénio vários Estados europeus, a Grécia de origem, Portugal, a Itália do esplendor renascentista, a Espanha da vizinhança do nosso inimigo íntimo, a Irlanda da missionação da Europa, e com a tendência para alargar a situação, estão já abrangidos pela fronteira da pobreza.”

Passados séculos, continuamos a ter “o mar salgado pelas lágrimas de Portugal”.