Luz ao Longe, Salve!

por Alberto Correia | 2016.06.11 - 14:04

 

LUZ AO LONGE, SALVE!*

Lisboa, pátria dos meus amores sonhados, mão gentil a acenar-me, teatro onde se propunha representar a minha humanidade ambiciosa, luz ao longe, salve!

Aquilino Ribeiro, in Uma Luz ao Longe.

Mais premonitório do que estranho é este parágrafo, o último, o que encerra a tessitura do pequeno romance, dito de Internato, Uma Luz ao Longe, evocação saudosa desse tempo do primeiro crescimento fora do ambiente familiar, lição primeira sobre o curso de uma existência que apenas se vence, se empreendida com afoiteza e engenho; efabulação dos cinco anos mal contados que Aquilino Gomes Ribeiro traça, como saga correndo numa estranha Terra do Nunca, a Lapa, onde a natureza e o céu se encontraram e onde o mistério que foi segredo de Joana, a pastora, jamais, inteiro, se desvela.

Primeiro, foi no Pátio dos Sanhudos onde moravam seus pais, ao Carregal, através do boqueirão do pórtico já deslavado de uma fidalguia antiga, que Aquilino pela vez primeira estendeu ao longe seus olhos sem saber ainda de bússola nem de Norte.

Depois veio a Lapa. E foi neste chão que pisamos que as linhas mestras de uma geografia, indecisa ainda, começaram por apontar-lhe um destino, por mais que a agulha de marear se revelasse incerta no balançar da nau em que embarcara.

Aqui exactamente, na envoltura pesada do velho Colégio a quem seu pai o confia no longínquo ano de 1895, era uma meia manhã de um dia de Junho em começo, faz agora 121 anos, Aquilino Gomes Ribeiro que não perfizera ainda os dez anos, menino de sua mãe que o era ainda, aqui vem à luz, num segundo nascimento, sofrido que foi, como o primeiro.

O bom do Padre Leonel, que mais não é senão Padre Francisco Pinto Ferreira, por quem Aquilino sentirá uma terna veneração, então Director do Colégio, colhe-o em suas mãos, como parteira, escuta-lhe os primeiros lamentos e ao jeito também de profeta antigo e lúcido confessa ao vento sobre o destino do rapaz:

– Vai-se carpinteirar daqui alguém!…

Padre ou doutor, pouco importava, então. Camponês é que já não iria ser.

E os caminhos novos passaram a desbravar-se através das páginas dos livros – Latim, História, Geografia ou Francês, construíram-se com o bater dos passos que traziam romeiros e Malhadinhas, uns e outros fazendo da vida milagre de cada dia, anunciaram-se através desse deslumbrado olhar pela vidraça, do vão das janelas, o estendal roxo da urze, o giestal amarelo de Maio em flor, a neve mansa que caia no fio dos dias para agasalhar a serra que outro manto não tinha, inquietos ficaram de espanto, sempre, seus olhos, frente ao rasgo aberto do rochedo sagrado que para sempre permanecerá misterioso.

Cinco anos mal cumpridos, foi o tempo de demora nesta morada que Aquilino nos faz habitar com ele, no romance, quando o lemos. O desmedido peso de uma arquitectura que nasceu, como os rochedos, para durar para a eternidade, o dia-a-dia vencido assente na temperança das magras refeições de carne de cabra repetidas, na água da fonte, de longe-em-longe as guloseimas que a mãe lhe mandava, a disciplina tão austera quanto a pedraria, o companheirismo sadio, cinquenta a sessenta rapazes como ele, razão e força entrechocando-se e assim todos crescendo. E as romarias de gente que vinha pelo Espírito Santo, pela festa de S. Barnabé, pela Senhora do mês de Agosto, e esse olhar compassivo e sagaz sobre essa humana cobertura das Terras do Demo de que não inventara ainda letra de forma, gente que corria em busca dos milagres que ali aconteciam como ao tempo se via nos quadrinhos de votos pendurados nos muros do Santuário.

Exames feitos. Férias de Verão, de Páscoa e de Natal. Caminhos andados a pé ou a cavalo. E as visitas da Maria Lóia, da mãe, da Tia Custódia, o olhar meigo de Adelaide ou de Silvana, a outra face de uma humanidade necessária, amorosa seiva que adormentava a penosidade dos dias.

Até que um dia Padre Leonel manda aparelhar o cavalinho do Colégio. E o tropel dele caminho fora.

A Lapa não seria mais o seu destino. O rapazinho crescera.

“Uma Luz ao Longe” surgia agora na distância, longínqua mas real, tal qual esse fio de luz feito estrela que o salvou quando um dia se perdeu nas sombrias caves do Colégio.

E recordo a última frase do romance que ele escreve, já homem feito, debruçado e comovido sobre esse velho tempo de memória:

Lisboa, pátria dos meus amores sonhados, mão gentil a acenar-me, teatro onde se propunha representar a minha humanidade ambiciosa, luz ao longe, salve!

Lisboa, a luz ao longe, Lisboa que não passava então de metáfora de um mundo bem mais vasto, nem ele sabia, nem ele sabia das sete-partidas que haveria de trilhar. Restava-lhe o sonho e a vontade. O que ele chama ambição.

E cumpriu-se o seu desígnio. E permito-me comentar aqui um fragmento da lição da Revista Aquilino que hoje, neste emblemático espaço, se apresenta em sua essência como trajectória de retratos, de retratos de Aquilino, tão significantes de per si, que escusaram largos textos para a compreensão da sua odisseia, da sua viagem para Ítaca que apenas estará cumprida quando tivermos seguido o roteiro que nos legou.

Da Lapa se guarda, na Revista, o primeiro retrato conhecido de Aquilino, infante de onze anos, e ao fim do caminho então Lisboa, a premonição, a Luz ao Longe, a última fotografia, retrato ainda por mais que imaginal, essas cinzas de memória cobertas por bandeira sob o tecto, também sagrado, da Igreja de Santa Engrácia, o Panteão.

A Lapa, todavia, permanecerá nesta mundividência de Aquilino como lugar de memória. Geografia de sentimento. Onde apetece vir como em novena. Repisando-lhe as pegadas que na Lapa ficaram marcadas como passadas de caçador num branco estendal de neve. Apetecendo o pão das courelas da serra ou dos votos da gente que vinha e se pesava a trigo, apetecendo o queijo de ovelha, tradição que nos chega da mãe de Joana, a pastora, apetecendo o mistério, apetecendo o sagrado que na Lapa se encerra.

E aqui estamos. Aquilino e nós. Lado a lado.

 

*Lapa, 3 de Junho de 2016, Sessão de apresentação da Revista “AQUILINO”.