LUA-CHEIA DE MEMÓRIAS

por Alberto Correia | 2016.07.23 - 12:19

 

Ontem, já noite adiantada, regressava, de automóvel, de Freixinho, emblemático lugar da geografia aquiliniana sito no Concelho de Sernancelhe, município a que me prendem os laços do sangue, as afectividades da gente, as memórias de muitos anos que se avivam sempre que ali retorno.

Uma lua-cheia, luminosa e bela, luzia ao longe sobre as montanhas da minha terra onde eu a conheci, onde a fiz companheira nos meus primeiros anos da razão, quando ela de longe me acompanhava, seguia eu dos campos de meu pai, sobre os quentes anoiteceres de Verão, para a mansidão da casa da aldeia sobre a qual ela, a Lua, velava meu sono que ainda hoje é tranquilo, como então.

A gente da minha terra contava que ia lá dentro, para escarmento dos homens, um homem carregando um molho de silvas às costas, silvas ceifadas ao Domingo, esse dia sagrado que ao Senhor apenas seria dedicado. E ele não cumpriu. E eu sempre tive pena do homem que ainda lá anda no retrato, que ali quis depois ficar, como lição.

Mais tarde achei, como tantos homens antigos, meus irmãos, que a Lua era uma deusa, divindade de graça e mansidão, que era ela quem velava o nascimento dos cordeiros e dos filhos das mulheres, era ela quem guiava a mão do lavrador nas sementeiras, era almanaque anunciando a canícula que viria ao outro dia, as orvalhadas, era ela que trazia para a praia as águas do mar que longe ficaram da minha aldeia de menino.

Ontem lembrei essa Lua antiga, de memória, lua de espanto, lua de lenda, lua de esplêndida beleza, deusa sempre de meus credos antigos, lua de menino, minha amiga, fiel que ela ficou, a lua que ontem me seguiu, velando a viagem, olhei-a da varanda e como antigamente por algum tempo deve ter velado, jeito de mãe, que também é, o sono que talvez lho deva, não sei, é sempre tranquilo.