Líder no vazio

por João Salgueiro | 2015.11.02 - 16:36

 

 

Francisco Assis é um desses casos de sucesso mediático que têm surgido em Portugal e que, sem se saber bem porquê, tem vindo a emergir no mundo jornalístico e político como uma espécie de reserva moral do Partido Socialista.

Da minha parte, começo já por dizer que não lhe reconheço tais pergaminhos. Por mais que tente fazer um esforço por ver nas suas tomadas de posição uma linha de conduta sustentada em princípios configuradores de uma ideia de Bem Comum, não consigo perscrutar nada de significativo numa já tão longa carreira política, seja nas palavras (que já lhe mereceram o epiteto de “palavroso”), seja nas ações.

Desconheço a história pessoal ou familiar de um personagem com um nome de tamanho significado, Francisco Assis. Com este nome só me ocorrem dois guardiões da moral das vidas que nos trouxeram até aqui e, um deles, até nos acompanha no presente. Falo, naturalmente, de Francisco de Assis, o criador dos Franciscanos e defensor de um cristianismo baseado no desprendimento e na ajuda ao próximo; e no Papa que, proveniente da ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola, fez-se atribuir como base definidora de ação o nome Francisco.

Reconheço que talvez esteja a colocar a fasquia demasiado alta, ao fazer tamanha comparação, mas confesso que convivo dificilmente com a projeção de um líder de papel, vazio de sentido, catapultado para um protagonismo que não pode ser o seu.

Pelo que se sabe, a sua carreira política, que o levou até ao lugar de deputado do Parlamento Europeu, que ainda hoje ocupa, começou precocemente. Com apenas 25 anos já era Presidente da Câmara de Amarante. A este primeiro grande impulso, seguiram-se outros que o conduziram a deputado da Assembleia da República desde 1995. Viria depois a cumprir dois mandatos como deputado europeu. Pelo meio, fez uma tentativa de voltar à política nacional, sendo eleito presidente da Federação Distrital do PS Porto, mas quando concorreu a presidente da câmara da cidade foi estrondosamente derrotado por Rui Rio. Apesar disso, permaneceu resguardado em Estrasburgo, enquanto fazia uma perninha na Assembleia Municipal do Porto.

Apesar do vazio que continua a marcar o seu percurso político, este líder não cai. Aparece como Cabeça de Lista pelo PS, pelo Círculo da Guarda [sabe-se lá porquê!], ficando com a eleição garantida. Torna-se, mesmo, pela segunda vez, líder parlamentar do PS, (entre 2009 e 2011; já o tinha sido entre 1997-2002).

A sua carreira política tem vindo a ser pintalgada com o desempenho daquela que se tem vindo a mostrar como a arena política mais nobre para este e outros líderes no vazio, com a agravante que, neste caso, nem sequer chega às massas dos consumidores, a profissão de comentador político!

Francisco Assis chegou mesmo a ser agraciado com a Ordem de Rio Branco, a 21 de maio de 1999[1].

Fora da política, Francisco Assis, nunca teve vida profissional própria, embora se apresente como professor de Filosofia [em que tempos?]. Na política, não se conhece qualquer obra de saliência, mesmo na própria cidade de Amarante. Nunca desempenhou funções de responsabilidade, enquanto Ministro ou Secretário de Estado, mantendo-se sempre, qual aristocrata Clássico, como Tribuno e Orador público.

Escolhido pelo trabalho feito? Não se conhece trabalho. Escolhido pelas competências oratórias? Não faz vibrar as plateias. Escolhido pelo Povo? Sempre se refugiou nas Listas, quando o não fez saiu derrotado [uma exceção só confirma a regra].

Nos últimos dias, este político profissional apareceu com a ameaça de vir a ser uma alternativa a Costa, na condução dos destinos do partido socialista e do País. Pasme-se. Foi candidato com Seguro e perdeu, mas manteve-se na sombra tirando daí os dividendos que se conhecem. Volta agora à carga, posicionando-se contra um possível acordo do PS com os partidos à sua esquerda.

À Comunicação Social, Francisco Assis parece ter caído no “goto”, como se diria na gíria popular. Desde aquela peripécia de Felgueiras, em que as TVs mostraram uma imagem dele como vítima de agressões – qual mártir! –, que este eminente deputado surge como alternativa de liderança nos jornais e nas TVs.

Nunca o será. O episódio de Felgueiras não o tornou líder do tipo, por exemplo, de Mário Soares, que na Marinha Grande pugnava por liberdade ou que nos primeiros tempos da nossa democracia se posicionava na Fonte Luminosa. Este sim, um líder substantivo que utilizava o verbo para lutar, enfrentando, no tempo certo, as dificuldades e podendo apresentar uma obra ímpar.

Francisco Assis nem sequer é comparável a Costa, pois embora este tenha feito uma vida como político, já assumiu responsabilidades governativas, já venceu eleições e soube governar para os cidadãos, na Câmara de Lisboa, e nunca se escudou nas bancadas do Parlamento, cá, ou em Estrasburgo.

Num contexto contingente e complexo, líder é aquele que consegue tomar uma decisão diferente do esperado. Entre a espada e a parede, já tivemos um líder que escolheu a espada (pondo assim fim, aparentemente, à sua vida política em Portugal). Costa enfrentou a realidade de modo diferente, nem escolheu fazer, qual japonês, haraquíri, nem se deixou emparedar entre a sua esquerda e a sua direita, antes, escolheu tomar a iniciativa, na procura de uma solução alternativa.

Tem riscos, sim, mas o que é que não tem riscos hoje em dia? Um risco maior é, sem dúvida, fazer a opção por um líder no vazio e seguir alguém que nunca se afigurou com as caraterísticas necessárias para conduzir o Partido Socialista, nesta ou noutras condições.

 

[1] “A Ordem de Rio Branco foi instituída pelo Decreto nº 51.697, de 5 de fevereiro de 1963, com o objetivo de, ao distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção”

http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5698:ordem-de-rio-branco&catid=222:cerimonial&Itemid=450&lang=pt-BR, acedido em 01-11-2015