Lições de “recuperação” da economia

por João Fraga | 2014.01.26 - 20:07

Não ouvimos outra coisa que governantes e doutos “especialistas” empolgando, professoralmente, os “sinais” de “sucesso”, de “milagre”, de “recuperação da economia”.

Estes “professores” da “economia” que, nestes “tempos da finança”, se ensina nas “escolas de negócios” situadas nos top ten (ou, pelo menos, nos top twenty) dos rankings do Finantial Times, de certeza que nunca leram O Livro dos Conselhos, do rei D. Duarte.

Se o tivessem lido, talvez aprendessem, não só a olhar mas a ver e, sobretudo, a reparar (“se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara”) nas (reais) condições de vida e de trabalho das pessoas, na sua condição humana e social e, sobretudo, nas escandalosas desigualdades sociais. E, assim, talvez então renegassem as (neo)feitiçarias “económicas” que agora dizem de “sucesso”. E, mesmo, reaprendessem o clássico postulado de Karl Polanyi (e não só): “A economia é uma ciência eminentemente social”.

Mas não, não reparam (até porque nem vêem, sequer olham). E, assim, é-lhes alheio o quanto prossegue a destruição (que, cinicamente, dizem “criativa”) em todos os domínios sociais, da saúde à cultura, passando pela segurança social, a educação e a investigação e desenvolvimento.

De facto, para a maioria dos portugueses, (est)a “economia” do austeritarismo metametas (para além das metas) que agora é do “sucesso” não faz outra coisa do que, directa ou indirectamente, mexer-lhes nos bolsos (emprego, condições de trabalho, salários, pensões, prestações sociais, dificuldade de acesso e degradação da qualidade dos serviços públicos essenciais, etc.) para, por alguma forma, imediata ou mediatamente, encher os bolsos de muitos dos tais “especialistas” que, objectivamente, servem o tal “exterior” (FMI, OCDE, Goldman Sachs, etc., enfim, o poder financeiro).

O Governo e os seus professorais “especialistas”, nestes tempos de “sucesso” sim, mas do “sucesso” das desigualdades, não têm graça nenhuma.

Mas, de facto, fazem tudo para darem razão, tornarem mais real e menos metafórica, a ironia do saudoso Millôr Fernandes: “As lições de economia entram por um bolso e saem pelo outro”. E para outro…

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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