Letras@CORdadas – Génios, Inglaterra e Brexit

por Miguel Alves | 2019.03.29 - 11:11

 

Na parte legada das minhas estantes, vinda da minha família e que muito estimo e valorizo, encontrei uma pequena obra de que é oportuno e atual escrever hoje.

Trata-se de uma publicação da Organização dos Estudantes Alemães, escrita pelo Dr. H. Eckert, membro da Organização dos Estudantes da Universidade de Heidelberg e editada pela Casa editora Eher Nachj.,G.m.b.H., Munique. Infelizmente, esta edição não tem data.

Sobre H. Eckert não foi possível encontrar referências fidedignas dada alguma variedade de pessoas e personalidades com este nome e o livro nada acrescentar para além do seu nome.

Quero hoje @CORdar “A OPINIÃO DO GÉNIO SOBRE A INGLATERRA”, constituída pela opinião de 26 notáveis personalidades da história dos últimos séculos nos domínios da política, ciência, literatura, música e guerra. São elas: Byron, Dostojewskij, Príncipe Eugénio de Sabóia, Franklin, Frederico o Grande, Goethe, Grillparzer, Händel, Haydn, Hebbel, Herder, Wilhelm von Humbolt, Thomas Jefferson, Kant, Lutero, L. Mozart, Napoleão, Nietzche, Reger, Rousseau, Schiller, Schinkel, Shopenhauer, Richard Wagner e George Washington.

A edição desta, para mim, belíssima novidade literária é constituída pela fotografia das personalidades referidas e no verso da fotografia a sua opinião sobre o tema em causa, bem como as fontes e data de publicação de onde essa opinião foi retirada.

Nesta rememoração de notáveis pensadores, artistas, políticos e militares sobre a Inglaterra, escolhemos aqueles que melhor captaram a essência mais profunda deste país e que permanece ainda identificável na encruzilhada histórica que atravessa tanto o Reino Unido como a Europa.

Escreveu Byron: “Os ingleses parecem-me ser a raça mais miserável que vive sobre a terra de Deus. Prefiro vê-los a alguma distância a não ser que um terramoto ou uma erupção extraordinária me reconciliasse com a sua vizinhança. O meu esqueleto não encontraria sossego em nenhum túmulo inglês. Não desejo sequer servir de alimento aos vossos vermes, se eu o puder evitar”.

Disse Carlos XIII, rei da Suécia: ”Nós declaramos já há muito tempo que não nos desagradaria fazer uma paz equitativa com os nossos inimigos. Mas se a Inglaterra pensasse, como se diz, em arrogar-se sem ser solicitada por nos próprios, a fazer-se mediadora entre nós e os nossos inimigos então tereis, no caso de tal intenção, de lhe dar a perceber que não podemos aceitar uma tal mediação feita pelo seu livre arbítrio. Parece-nos ser uma grande aventura servirmo-nos de tais ofícios, que nos são oferecidos pela violência sob o pretexto da amizade e que, na verdade, em tal caso não têm outro fim senão favorecer os interesses dos nossos inimigos com prejuízo dos nossos. Isto se apercebe de uma maneira tanto mais clara, quanto é certo que é mostrada muito mais consideração, sobre todos os pontos de vista, aos nossos inimigos do que a nós. Por isso é necessário que, antes de podermos ousar servirmo-nos incondicionalmente dos ofícios das Inglaterra, desapareça a nossa desconfiança justificada de que  está em comunicação secreta com os nossos inimigos e que seja restabelecida a nossa confiança nela pelo facto de não dar motivos, por mais tempo, à dúvida, declarando, como é seu dever, ajudar-nos  primeiramente, segundo os tratados e alianças, e concedendo-nos assim, verdadeira assistência, a fim de que ao pactos que existem entre nós não pareçam, por mais tempo, como se tivessem sido revogados por completo”.

Escreveu Kant:

“Lá podes ver como a avidez exagerada

Torna loucos os escoceses e os bretões,

Não se sentindo ninguém seguro atrás dos seus portões”.

Escreveu Dostojewskij: “Os pastores e os bispos anglicanos são orgulhosos e ricos, vivem em paróquias abastadas e engordam na mais completa tranquilidade de consciência. …atravessam todo o mundo, vão para as partes mais recônditas de África para converter um selvagem, e esquecem os milhões de selvagens em Londres, porque estes nada possuem com que lhes possam pagar. Proveitos verdadeiros só dá a guerra que levaram sempre os povos para falsos caminhos, lançando-os na perdição. Se não o virmos nós, os nossos filhos verão como a Inglaterra acabará”.

Escreveu Erasmo de Roterdam: ”A Inglaterra tem, em geral má fama, quando se trata de fidelidade”.

Disse o Príncipe Eugénio de Sabóia: “Pois como Vossa Excelência deve saber perfeitamente, a violência da nação inglesa, a intenção vergonhosa e malévola dos ministros e a forma imoral como tomam todas as suas resoluções, obrigam-nos a temer deles toda a espécie de mal e de ludibrio, sendo necessário prevenirmo-nos com resoluções firmes. Sem me ter sido pedida, participei a Vossa Majestade esta notícia muito submissamente, devendo ainda fazer notar que a Inglaterra, com esta dedicação vergonhosa, não procurou mais nada senão enganar-nos”.

Disse Franklin: “Todas as nações desejam ver a Inglaterra humilhada”.

Disse Frederico o Grande: “É um principio da política inglesa exigir tudo dos seus aliados, mas não fazer nada por eles. Um aliado não é, nunca, para a Inglaterra, um amigo com igualdade de direitos, mas simplesmente um seu assalariado ou soldado pago com subsídio. Tratados só estão escritos no papel e não são nenhum estorvo quando ela quer voltar ao seu isolamento. Quebrar a fidelidade para com um aliado, forjar intrigas contra ele, como dificilmente poderiam inventar os seus inimigos, provocar com zelo a sua derrocada, atraiçoá-lo e vendê-lo, assassina-lo, por assim dizer, tais crimes, tais acções sombrias e vituperáveis têm de ser estigmatizadas com toda a abominação, a fim de que o juízo da posteridade repila todos aqueles que são capazes de crimes semelhantes”

Escreveu Goethe: “Em nenhuma parte do mundo existe tanta hipocrisia e falsa santidade como na Inglaterra. Toda a gente conhece as suas declamações contra o comércio de escravos. Mas quando pretendiam fazer acreditar que tal procedimento se baseava em princípios humanitários, descobriu-se o verdadeiro motivo: é um objetivo real sem o qual os ingleses, como é sabido, nunca fazem nada e o qual se deve conhecer. Na parte ocidental de África empregam todos os negros nas suas grandes propriedades e é contra os seus interesses que eles são retirados de lá. Com estes satisfazem as suas necessidades norte americanas, fazendo desta forma um comércio muito rendoso. Em nenhum país predomina um egoísmo mais acentuado, e nenhum povo, é talvez, mais essencialmente desumano nas suas relações políticas e particulares”.

Disse Händel: “Vós tivestes demasiado trabalho com a ópera. Aqui deveis pensar no efeito retumbante, bem batido, sobre a pele dos tambores”.

Disse Haydn: “Na França: raparigas-virtuosas; mulheres-meretrizes. Na Holanda: raparigas-meretrizes; mulheres-virtuosas. Na Inglaterra, sempre meretrizes. Tais histórias são vulgares em Londres. O marido dá ocasião à sua própria mulher para tirar proveito dela, aliviando os seus senhores compadres de 1000, ou ainda mais, libras esterlinas”.

Disse Thomaz Jefferson: “Concordo consigo em que o governo da Inglaterra não tem moral nenhuma: é desavergonhado até ao máximo, cheio de vaidade e ambição, desejando o domínio exclusivo dos mares, mergulhado em corrupção e em profundo ódio contra nós, hostil a qualquer liberdade onde quer que ela surja e um eterno perturbador da paz no mundo. Não é na história da Inglaterra moderna, ou nos representantes dos princípios e hábitos do seu governo, que o amigo da liberdade e da moral política deve procurar ensinamentos. Qual seria a nossa garantia para que a Inglaterra não fizesse uma paz em separado e nos abandonasse em caso de termos entrado na guerra a seu favor? A sua honestidade? A honestidade de uma nação mercantil? De uma nação que nunca admitiu no seu código político um único capítulo de moral? E agora afirma esta nação que tudo pode conseguir pela força e lhe pertence pela justiça. O dinheiro e não a moral, é o princípio do comércio dos povos mercantis. É bem conhecido que ela foi, de todos os povos europeus, a que pior cumpriu os seus tratados”.

Escreveu Kant: “A nação inglesa é, considerada como Estado contra outros Estados, a mais corrupta, a mais violenta, a mais tirânica e a mais belicosa de todas. Contudo, o carácter do inglês não deveria significar outra coisa senão o princípio, ganho em ensinamentos e exemplos anteriores, que tinha de o formar, ou seja, simular antecipadamente que possui tal carácter, como expressão de um princípio permanente e rígido aceite voluntariamente e não se desviar duma certa regra, (seja ela qual for), pois isto é que dá um homem a possibilidade de saber certamente o que tem a esperar dele e ele dos outros. O estrangeiro cujo destino o levou ao solo inglês e que caiu em grande miséria, pode sempre sucumbir sobre um monte de esterco porque não é inglês e, portanto, não é um ser humano”;

Escreveu Lutero:Realmente, no vosso povo não há lobos, mas vós próprios sois lobos. Os escoceses são a gente mais vaidosa, mais orgulhosa e mais desavergonhada que existe; julgam e pensam que são as únicas pessoas que existem no mundo”;

Escreveu Mozart: “Não aceitei uma proposta que me foi feita, mas não vale a pena falar muito acerca de uma coisa que eu fiz com reflexão, depois de ter bem ponderado e após ter passado algumas noites de insónias e que já passou. Não quero que os meus filhos sejam educados num lugar tão perigoso como este (onde a maior parte dos homens não têm nenhuma religião e onde só se vêm maus exemplos). Se vísseis como as crianças são aqui educadas, ficaríeis admirados. Nem vale a pena falar dos restantes assuntos religiosos”.

Disse Napoleão: “O governo de França tem de destruir a monarquia inglesa ou então terá de contar com a sua própria destruição. Eu actuo no interesse geral do continente, ao passo que a Inglaterra abusa, de facto, do seu poderio, da sua posição preponderante sobre os mares e somente no seu próprio interesse: pois a felicidade desse continente, de cuja benevolência tira tanto proveito, não interessa nada aos mercadores londrinos. Eles sacrificariam os Estados da Europa, todo o mundo, a uma única das suas especulações. Com o tempo acabar-se-á por perceber isto: os olhos abrir-se-ão a todos. O que a posteridade censurará sobretudo aos ingleses, é a escola abjecta que eles legaram: o seu maquiavelismo desavergonhado, a sua imoralidade profunda, o seu egoísmo frio, o seu desprezo pelas condições humanas e por uma ideologia justa”;

Escreveu Nietzsche: “Ninguém acredita mais que a Inglaterra seja suficientemente forte para continuar a desempenhar o seu antigo papel durante mais cinquenta anos; ela sucumbirá pela impossibilidade de excluir os “homines novi” do governo, e não deve contar com tais mudanças nos partidos para preparar tais coisas demoradas. O próximo século, neste sentido como em outros, seguirá as pegadas de Napoleão, o primeiro homem e o mais perspicaz da era moderna. Os ingleses causaram já, devido á sua baixa mediocridade, uma depressão geral do espírito europeu. Não se procura a felicidade; é preciso ser inglês para se poder acreditar que o homem procura sempre o seu proveito próprio.”;

Escreveu Rousseau:Eu bem sei que os ingleses se gabam muito da sua humanidade e do bom caráter do seu povo que eles classificam de “a good natural people”. Mas, eles podem gritar quanto quiserem: ninguém o repetirá”.

Escreveu Schiller:

“O inglês com a sua armada mercante

É um povo pretendendo tomar

O grande e livre reino de Amfitrite

Em seu vassalo para o dominar.

Penetra até ao ponto mais distante

Do mundo que se lhe ofereceu.

E toda a ilha e costa mais longínqua

É achada por ele mas não o céu”.

Disse Schopenhauer: “Por isso é dever humano fazer penetrar na Inglaterra luz, cultura e ciência, por todos os meios imagináveis, a fim de que termine de vez a actuação dos mais obesos de todos os clérigos. A insolência dos clérigos anglicanos e dos seus servos, é completamente incrível e por isso deve ficar restringida á sua ilha; e se se atreverem a aparecer no continente, devem ser imediatamente sujeitos a desempenharem o papel de corujas durante o dia. São de todos os mais obscurantistas, plenos da maior superstição judaica, grosseira e misturados como o vinagre e o azeite. Tudo isto não melhorará enquanto os bovinos ortodoxos de Oxford derem a educação final às classes instruídas”.

Disse Richard Wagner: “Não posso imaginar nada mais repugnante que o inglês propriamente dito; de um modo geral, tem o tipo de carneiro. O entendimento práctico dos ingleses é tão seguro como o instinto do carneiro ao procurar o seu pasto nas campinas; ele acha infalivelmente o seu pasto, mas a sua sensibilidade não encontra, infelizmente, nem o céu azul nem a paisagem encantadora. Como deve sentir-se desditoso entre eles aquele que, pelo contrário, só presta atenção á paisagem e ao céu, mas não encontra bem as ervas saborosas. Todo aquele que aqui vive, está tão intimamente convencido da indignidade, insolência, corrupção e vileza da imprensa inglesa, qua a mim, falando sinceramente, não me agrada sujar-me pegando em tais jornais. Quem compreende alguma coisa e tem verdadeiramente uma convicção independente, não se mistura com esta ralé judaica. Se a natureza fez surgir entre os ingleses um homem único como Shakespeare, vemos também como ele foi único, e comove-me profundamente que a magnifica nação inglesa progrida cada vez mais com negociatas mundiais, enquanto a nação espanhola sucumbe”.

Disse George Washington: “Sou obrigado a constatar que recebi muitos relatórios, não só de prisioneiros fugitivos, mas também de pessoas que vieram de Filadélfia, segundo os quais os nossos soldados que estão em vosso poder, sofrem de tratamento perante o qual a humanidade tem de arrepiar-se, e que muitos deles teriam morrido de fome se não tivessem recebido dádivas caridosas dos habitantes. Estas acusações são ainda agravadas pelo facto de se dizer que esta iniquidade deve levar os pobres a enfileirarem-se entre as vossas tropas recém-alistadas”.

 

O Brexit e o profundo desencontro do Reino Unido consigo próprio que provocou, expresso na sua enorme desorientação, dúvidas, dilemas, equívocos e alternativas sobre a sua identidade, papel e local que pretende assumir na história contemporânea, será, provavelmente, o último resquício da sua velha vocação imperial de que se julga detentora e possuída. Que poderá conduzir à redução mínima da sua identidade à Inglaterra e ao País de Gales, já que a história e os escoceses clamam e reclamam pela sua identidade social e independência política. Tal como com a Formosa no oriente, também a aberração de duas Irlandas poderá um dia ter o seu fim. Até porque, a velha Inglaterra como nação de ingleses não existe mais. Somos todos nós, europeus, americanos e asiáticos, que todos os dias a fazem funcionar e a movimentam para o futuro.

As suas relações com a EU e que levaram ao Brexit, são uma espécie de processo transferencial negativo que, tal como em psicanálise, a União Europeia tenta ajudar a resolver e decidir, devolvendo-lhe amigável e afetuosamente, as fantasias que construiu em relação a esta e que, afinal, são agora o seu drama visível, dramaticamente expresso e de enorme dificuldade em assumir como seu. Oxalá o seu final seja o tranquilo, maduro e interpares regresso à casa materna comum, desprovido de autossuficiências maníacas, qualquer que seja o processo que for dado a essa sua pertença.

 

MIGUEL ALVES

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub