LETRAS @CORdadas – Somerset Maugham

por Miguel Alves | 2016.01.24 - 22:33

 

 

 

(William Somerset Maugham – 1874/1965)

 

William Somerset Maugham nasceu em Paris, filho de um dirigente da embaixada britânica em França. O seu nascimento teve lugar na própria embaixada para evitar a obrigação de ter que participar em eventuais guerras em que a França se viesse a envolver, tal como a lei previa para todas as crianças do sexo masculino nascidas em território francês.

O seu pai era advogado e responsável pelos assuntos jurídicos da embaixada. Já seu avô a havia sido também: um prestigiado advogado que fundou a English Law Society

Nascido com uma deficiência física, pé boto (pé inclinado para baixo e para dentro que não permite o seu assentamento equilibrado no chão), quando tinha dez anos os seus pais morreram tendo sido entregue aos cuidados de um tio e padrinho, pastor anglicano, em Inglaterra.  O tio, Henry, de caráter autoritário, austero, emocionalmente frio e de alguma crueldade, colocou-o em regime de internato na King´s School de Cantuária. Associado a este problema de locomoção, SM adquiriu nesta altura uma gaguez relativa, circunstâncias que lhe criaram, talvez por força do ridículo e bulling a que foi sujeito por falar mal inglês e ser de pequena estatura, enormes dificuldades de relacionamento durante a infância e juventude. Foi também neste período, por volta dos 15 anos, que começou a escrever sem nunca ter confiado esse seu gosto ao tio.

Aos dezasseis anos negou-se a continuar no regime a que o tio o submetera e viajou para a Alemanha onde estudou filosofia e literatura na universidade de Heidelberg. “A vida era banal e os alemães eram grosseiros”. Regressado a Inglaterra e apesar de estar mais consolidado o seu desejo de escrever, matriculou-se em medicina que concluiu em cinco anos em Londres.

O seu primeiro livro de sucesso foi “O Pecado de Lisa”, 1897; teve um êxito relativamente grande da crítica e do público, facto que o fez abandonar a medicina para se dedicar à escrita, atividade que exerceu durante 65 anos da sua vida. Este livro é baseado na sua experiência clínica, quer como estudante ainda, como de médico mais tarde. “Vi homens morrerem. Vi-os sofrer de dor. Aprendi o que era a esperança, o medo e a ajuda”. Ao abandonar a medicina perante o sucesso deste seu primeiro livro para se dedicar à escrita afirmou: “senti-me como peixe na água”.

Durante a I guerra mundial alistou-se para servir em França na Cruz Vermelha Britânica num grupo de 23 escritores denominados Literay Ambulance Drivers que incluiu Ernest Hemingway. Foi nesse período e durante as suas folgas, que levou a cabo a preparação final da sua obra mais importante: “Servidão Humana”,1915, que hoje pretendemos @CORdar.

“Servidão Humana”, como obra literária, é composta por três etapas importantes. O enquadramento local e familiar do personagem principal até á sua ida em para Paris na procura de um futuro no mundo das artes; a sua estadia em Paris, o seu regresso a Londres para estudar medicina e a sua paixão/submissão por Milready; finalmente, e numa zona vasta da obra, para as suas viagens por Espanha e oriente a que não terá sido alheio o suporte monetário recebido de uma herança.

SM teve para além da sua atividade como escritor outra algo estranha e pouco frequente para quem faz da escrita a sua vida. Voltado a Inglaterra para divulgar “Servidão Humana”, SM foi de seguida contactado para recolher informações para os serviços secretos ingleses na Suíça, tendo-o feito aproveitando o seu estatuto de escritor. Mais tarde ainda, 1917, o chefe dos serviços secretos ingleses incumbiu-o de levar a cabo uma missão especial junto do governo provisório da Rússia no sentido de o fazer entrar na guerra e para fazer face à propaganda pacifista da Alemanha. Pouco tempo depois os bolchevistas tomaram o poder naquele país inviabilizando a sua missão. SM lamentou não ter chegado mais cedo, pois se tal tivesse ocorrido, tê-la ido realizado com sucesso.

À semelhança do que aconteceu com uma parte importante da sua obra, que é inspirada em etapas existenciais próprias, também a sua experiência como espião foi transportada para a literatura: “Ashenden”, 1928, é um livro de contos sobre um espião elegante e sofisticado que iria ser mais tarde fonte de inspiração de Ian Fleming, o famoso autor da não menos famosa série de James Bond.

Mais tarde, aquando da sua estadia nos USA durante a II guerra mundial, foi também utilizado como agente da propaganda americana sobre a ajuda dada a Inglaterra, fazendo discursos e palestras de índole patriótica para diminuir as críticas da opinião pública a essa ajuda e aumentar a sua aceitação e até popularidade.

Também a sua vida pessoal, sentimental e afetiva foi conturbada e polémica para a época em que viveu, desde as desventuras conjugais e familiares até à sua orientação sexual. “…amei pessoas que não se preocupavam ou faziam pouco de mim. Quando alguém me amava, sentia-me preocupado… para não ferir os seus sentimentos várias vezes simulei uma paixão que não sentia”.

Foi toda a sua experiência existencial que, associada a uma capacidade de análise das profundezas da alma humana e da sua própria infelicidade, fez dele um dos grandes escritores do século XX.

A carreira literária de SM desenvolveu-se na época em que outros grandes nomes da literatura universal se impuseram, nomeadamente W. Faulkner, T. Mann, J. Joice e V. Wolf. Tem, por isso, críticos que entendem que ela seja algo clichê e até frívola, apesar da sua escrita lúcida, assertiva e até profunda. “O fio da Navalha”, a sua segunda obra mais reconhecida, apesar de ter um fundo de procura séria para o sentido da vida através dos valores, da cultura e da religião orientais, apresenta algumas carateristicas mundanas, personagens de uma relativa frivolidade e algumas formas enfáticas em excesso.

Outros há, porém, que vêm na obra de SM a matriz de Flaubert, Maupassant e Zola e, no limite, o próprio Espinosa no sentido de que ela é um alerta contra a armadilha da ilusão romântica da existência. “Julga por acaso que o homem seja capaz de fazer alguma coisa a não ser por motivos egoístas? Quando for mais velho compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável, é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. …os homens aceitam, em vez de um prazer imediato, uma dor imediata, mas isso unicamente porque esperam gozar  no futuro um prazer maior. Só o medo lhe detinha o braço”.

 

“Servidão Humana” é uma catarse autobiográfica dos traumas e angústias do seu autor que retirou o seu próprio título da “Ética” de Espinosa quando este escreveu: ”Chamo servidão à impotência do ser humano para governar ou restringir as suas emoções”. Na época em que foi escrita, era comum que todo o escritor que tivesse ambições de projeção teria que começar por escrever uma obra ficcional que camuflasse de forma mais ou menos explícita a própria existência do seu autor. Esta acabou por ser a obra maior de SM. “ Philip tinha poucos amigos. Adquirira senso de humor e tinha o dom de fazer observações amargas. As vítimas começavam a tratá-lo com hostilidade. Possuía o dom diabólico de descobrir os pontos fracos dos outros. Divertia-o imaginar que o futuro de alguém dependesse dele. Riu sozinho ao pensar em quanto ansiara por uma paixão absorvente. Amaldiçoava-se agora por lhe ter cedido. As coisas que o interessavam aborreciam Milready. Ignorava as expressões irresistíveis do humorismo vulgar”.

 

 “Servidão Humana” tem o seu núcleo principal numa paixão cega que torna Philip Carey escravo do objeto do seu desejo: Milready Rogers, uma criada que não prima pela beleza, grosseira e ignorante, que apenas o explora, humilha, rebaixa e reduz aos interesses que nele e através dele pode satisfazer. Com o conservadorismo britânico em pano de fundo para ajudar. “Que pena! Não poderia casar-se para me fazer favor? Possui o instinto infalível da mediocridade! Amou-o então com um novo amor porque ele a fizera sofrer. Gosto de ti quando não me falas de amor. Quando queremos que os homens se portem bem, devemos trata-los mal. Se a gente se porta corretamente, fazem-nos sofrer por isso. Tinha um modo particularmente humilhante de dar a entender o que pensava. Milready transformava a natureza humana em bestial e sentiu subitamente que o coração dos homens estava cheio de recantos sombrios. Ter uma aventura com uma mulher – observou com ar sentencioso, é a coisa mais simples do mundo. Mas livrar-se dela é um trabalho dos diabos. As faces de Milready estavam vermelhas de cólera e, quando respondeu, a voz tinha uma crua vulgaridade que geralmente ocultava sob uma pronúncia educada. Dirigiu-lhe um breve sorriso que lembrou a Philip o olhar tímido e suplicante de um cãozito espancado por travessura que quer conciliar-se com o seu dono. Aquele seu encanto mascarava um supino egoísmo. …sabia quanto o seu ar frio e irónico o intimidava. Não pôde evitar que a sua voz tomasse um tom se súplica. Nunca venceria aquela paixão, mas sabia que no fim de contas, era apenas uma questão de tempo. Apesar de tudo, no fundo do coração, sentia que um anseio estranho e desesperado por aquela mulher vil ficaria sempre latente nele. Aquele amor causara-lhe tanto sofrimento, que sabia que nunca se livraria totalmente dele. Só a morte poderia saciar aquele desejo. A aflição que se imagina é mais fácil de suportar do que a aflição que se vê. Começou a pensar que aquele amor deixara de ser lisonjeiro para se tornar alarmante. Entusiasmo era falto de distinção. Entusiasmo era falta de cavalheirismo. Não se pode fazer uma bolsa de seda com uma orelha de porco”.

 

 “Servidão Humana” é uma viagem às profundezas da construção da infelicidade do ser humano, viagem que todos fazemos em graus e cambiantes multiformes. Ser otimista, ser pessimista, mais ou menos depressivo, mais ou menos melancólico, são racionalizações “aceitáveis” para esse drama maior e mais profundo da condição humana. ”Embora tivesse horror às humilhações mais do que a qualquer outra coisa no mundo, embalou-se em dois ou três dias na ideia do prazer de se humilhar. Insistiu em se despedir para que vissem a sua dor e o lamentassem. Acreditava implicitamente na dor externa, muito mais do que na eterna felicidade. Uma vida estranha, sombria e torturada em que os homens revelavam a maldade que lhes ia no coração. Sentiu pungi-lo a tristeza por ver a realidade tão diferente do ideal. O seu desânimo provinha da sua falta de confiança na sua própria capacidade”.

 

 “Servidão Humana” é a procura obsessiva e constante da liberdade, da beleza e do futuro risonho, para deles ficarmos escravos. Foi isso que SM procurou obcessivamente em Paris. Alguns dos maiores dramas das sociedades atuais, mais não são que essa viagem ilusória e masoquista. ”A vida de Paris penetrara-lhe nos ossos. Seria incapaz de trocá-la, com toda a sua sordidez, penúria e dificuldade, por qualquer outra do mundo. Não vale a pena sacrificar tudo por um lume de palha. A vida não tem nenhum sentido. E vivendo, o homem não cumpre finalidade alguma. A vida é insignificante e a morte sem consequências. Porque se a vida não tem sentido, o mundo fica despojado da sua crueldade”.

 

“Servidão Humana” e SM compaginam com Dostoievsky, Gauguin e Van Gogh na atração pelo abismo moral e sentimental, na procura da servidão e da pobreza quase aberrante. A par da genialidade de que eram portadores. “Atravessou Piccadilly, arrastando o pé boto, sombriamente embriagado com a raiva e miséria a dilacerar-lhe o coração. Por fim invadira-o um desejo de fazer coisas horríveis e sórdidas. Desejava rolar nas sargetas. Todo o seu ser ansiava por bestialidades. Queria aviltar-se. Philip estava com os sentidos perturbados pelo sofrimento e pela raiva. Tinha a esquisita sensação de que, aceitando todas humilhações e indo mesmo ao encontro delas, forçaria a mão do destino em proveito próprio. Revelavam uma ilimitada crença na depravação humana. Expressavam-se por palavras cruéis que pareciam arrancadas dos seus corações pela vergonha e pela angústia”.

 

“Servidão Humana” e SM também compaginam com Portugal e com o nosso abrasivo Ramalho Ortigão. Revisitemo-lo: “Na evolução patológica dos sentimentos, o amor é o antraz maligno da nossa raça. Uma vez apaixonado, o português é um enfermo, é quase um irresponsável. Perde a faculdade de estar alegre e de estar atento. Torna-se estúpido e sombrio”. Hoje a forma será diferente, quiçá nalguns aspetos pior, num fundo que não difere no essencial.

 

“Servidão Humana” confronta-nos hoje e fá-lo-á sempre, com um dilema existencial extensivo a todo o ser humano: “Philip professara sempre um certo desdém pelo idealismo”. Será ele uma fuga cobarde à paixão pela vida e por tudo o que ela pode oferecer, ou o realismo que esta acarreta poderá acarretar algo mais? “Sentia-se em véspera de uma descoberta. Parecia-lhe existir, vagamente, alguma coisa de melhor. Esse principio de verdade assegurava-lhe que o homem não devia entregar a própria vida ao acaso, mas que a sua vontade devia ser poderosa. Dir-se-ia que o domínio sobre si próprio podia ser tão ardente e tão activo como o abandono às paixões; oferecia tanta diversidade, tantas riquezas como a vida daquele que conquista reinos e explora terras desconhecidas”.

 

Verdade para os seres humanos individuais, como para os povos e nações!

Verdade para os povos e nações e para a União Europeia!

 

Outras obras de SM:

O Pecado de Lisa, 1897;

O Herói, 1901;

Um Gosto e Seis Vinténs,1919;

Histórias dos Mares do Sul, 1921;

Ashenden, 1928,

O Destino de um Homem,1930;

Um Casamento em Florença, 1941;

O fio da Navalha, 1944;

Catalina, 1948;

Ponto de Vista, 1951.

SM escreveu também teatro e novelas. Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema, entre as quais “Servidão Humana”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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