LETRAS @CORdadas – Óscar Wilde (1854 – 1900)

por Miguel Alves | 2016.08.25 - 21:51

 

 

Oscar Fingal O´Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin, hoje capital da Republica da Irlanda e na altura pertencente ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Foi o segundo de três filhos numa família protestante que mais tarde se converteria ao catolicismo. Seu pai era médico e sua mãe escritora e defensora da independência da Irlanda.

Logo no início dos seus estudos se tornou conhecido pelas suas capacidades no domínio das línguas, tendo-se salientado como estudioso do latim. Foi nessa sequência agraciado com uma bolsa de estudos para o Magdalen College de Oxford. Aí ganhou o prémio Newdigate com o poema Ravenna, pouco antes de concluir os estudos em 1878.

Regressou a Londres, onde iniciou a uma vida social mundana, agitada, extravagante e excêntrica, caraterísticas que iriam caraterizar todo o seu percurso existencial. Inicia algum tempo depois um ciclo de conferências nos USA onde cria o movimente chamado de esteticismo que defendia o belo e a arte como antídotos ao domínio escravizante da industrialização a emergir em pleno naquele país. Viria abandonar este movimento, de pouca consistência, quando vai para Paris (1883) onde se integra no mundo artístico e literário da capital francesa, na altura pleno de pujança e vigor artísticos. No regresso a Inglaterra, casa-se e tem dois filhos.

OW esteve envolvido em problemas judiciais, tendo sido condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados por suposta homossexualidade (1895). Esta sua violenta experiência constitui o tema de “De Profundis”, 1897. Após a sua saída da prisão, OW estava isolado social e artisticamente e com a sua reputação destruída. Regressou a Paris sob o pseudónimo de Sebastian Melmoth onde teve uma reduzida e modesta atividade literária. Aí acabou os seus dias modestamente, quase abandonado e vítima de meningite agravada por problemas de alcoolismo.

OW está incluído no grupo dos grandes poetas e dramaturgos de língua inglesa e da Irlanda, cujo período mais fecundo se inclui entre 1887 e 1895. Ficou famoso por escrever epigramas, poesia e peças de teatro que são hoje clássicas na dramaturgia britânica. Escreveu apenas um romance que hoje revisitamos neste texto. Morreu precocemente em Paris.

É esse romance que hoje queremos @CORdar: “O Retrato de Dorian Gray”, 1890. É considerada uma das obras primas da literatura inglesa onde o sentido da vida, a sua perenidade e decadência, a vaidade e as manipulações humanas, a par da nostalgia do tempo que não regressa (“A tragédia da velhice não é ser-se velho mas ser-se novo”), são tratadas com um olhar irónico, sarcástico e até de algum cinismo e onde não falta que aqui e ali esse olhar reforçado seja sobre as mulheres (“As raparigas americanas são tão hábeis a ocultar a identidade dos pais quanto as mulheres inglesas em disfarçar o seu passado. Os homens casam-se por cansaço e as mulheres por curiosidade. Ambos se desiludem. Era terrivelmente míope e não dava gozo nenhum enganar um marido que nunca vê nada. A única maneira de uma mulher conseguir reformar um homem é mortifica-lo a tal ponto que ele perca todo o interesse da vida. As mulheres nunca sabem quando desceu o pano. Os maridos de mulheres muito bonitas pertencem à classe dos criminosos. As mulheres experimentam a sua sorte, os homens arriscam a deles. As mulheres gostam de fazer coisas perigosas. É uma das qualidades que eu mais admiro. Uma mulher dá-se ao luxo de namorar quem quer que seja desde que haja outras pessoas a olhar”). Esta obra está incluída na categoria que alguns apelidam de decadentismo, sendo, por isso, um “romance decadente”1*.

O chamado decadentismo em literatura foi um movimento literário dos finais do século XIX, cuja figura de proa é considerada Verlaine (Os poetas malditos, 1884). Estranhamente, este autor é também considerado um parnasiano*2, movimento que tinha pretensões e defendia para a poesia princípios e regras opostas e constituía s sua antítese. A literatura decadente investe contra a moral e os costumes burgueses e emigra para a evasão à realidade instalando-se em zonas e matérias do inconsciente que não é capaz de abordar e converter de forma lúcida e útil na construção de alguma riqueza interior, antes em angustia e infelicidade não produtivas e quase sempre destrutivas (“Quem pensa demasiado perde a beleza. Ser espetador da vida é escapar ao sofrimento. Os nomes são tudo na vida. Eu nunca discuto com acções. A minha única disputa é com as palavras. É por isso que odeio o realismo. Um homem que chame pá a uma pá devia ser obrigado a usar uma. É a única coisa para que tem vocação”).

Enobrece ainda os valores e feitos individuais, deslocados das suas componentes sociais e coletivas. A par disto, o decadentismo aparece associado a um certo exotismo de atitudes, comportamentos, gostos e interesses, quer artísticos, pessoais e de vida, como de regiões, países e culturas. A principal obra da literatura decadente é o romance “À rebours”, 1884 (Às avessas) do francês Joris-Karl Huysmans, que descreve o estilo de vida excêntrico de um membro da alta aristocracia francesa dos fins do século XIX. É também neste ambiente snob, classista e excêntrico da Inglaterra vitoriana que “O Retrato de Dorian Gray” se desenvolve (“A cerveja, a Bíblia e as sete virtudes mortais fizeram da nossa Inglaterra aquilo que é”).

Lord Henry Wotton defensor de uma vida hedonista (a grande arte aristocrática de não fazer rigorosamente nada. Lord Henry tinha o encanto de ser muito perigoso, mas era só isso. Era demasiado inteligente ou demasiado cínico para se poder gostar dele. A pontualidade é o ladrão do tempo. Vivemos numa época em que as coisas desnecessárias são as nossas únicas necessidades. Devemos absorver a cor da vida, mas não devíamos nunca recordar os seus pormenores. Os pormenores são sempre ordinários.”) observa o trabalho da pintura do retrato de Dorian Gray seu anfitrião, pelo artista Basil Wallward. Dorian, que era um jovem esbelto, sofisticado, sensual e mundano, decide seguir os ideais do seu mestre (“O rapaz era em grande medida a sua criação”) e almejar que sejam a arte e a beleza a presidir à sua vida, fazendo com que a beleza expressa no seu retrato se transfira para ele e para a sua vida, de forma perene e duradoura e, por sua vez, seja o retrato a envelhecer (“os que procuraram tornar-se perfeitos pela adoração da beleza”).

Para tanto, Dorian está disposto a tudo e inicia uma vida de luxuria e vícios. Apaixona-se por Sybil, atriz de teatro, que abandona a sua carreira, para o seguir. Desiludido com ela, Dorian afirma que representar era a sua beleza, abandonando-a. (“Vou-me embora, disse ele por fim numa voz calma e pousada. Não pretendo ser desagradável, mas não posso voltar a ver-te. Desiludiste-me”). Esta acaba por suicidar-se. A partir daí Dorian submerge ainda mais no vício e na luxuria, inspirado na vida decadente que lhe inspirara o seu mestre Lord Henry. “A única maneira de nos livramos de uma tentação é cedermos-lhe. Só os sentidos podem curar a alma. Nesse caso, que a nossa amizade seja um capricho

Mais tarde e antes de partir para Paris o autor do retrato de Dorian vai a sua casa questioná-lo sobre os rumores que corriam acerca da sua vida. Dorian leva-o ao quarto onde havia escondido o retrato que ele lhe fizera e ambos verificam que o retrato era agora o de uma figura envelhecida, hedionda e em acentuado grau de degradação. Possesso de raiva, apunhala o seu autor por considerá-lo a origem de todos os seus males, e encomenda a um amigo o desaparecimento do seu corpo com ácido nítrico.

Mais tarde, Dorian encontra James num antro de ópio onde este procura o príncipe encantado que havia seduzido Sybil e dá de face com Dorian. (“Havia antros de ópio onde se podia comprar o esquecimento. Antros de horror onde a memória de antigos pecados podia ser destruída pela loucura de novos pecados”). Este convence-o que não fora ele que a conhecera, já que era muito jovem e ela morrera há dezoito anos. Desmascarado, James persegue Dorian, mas acaba por ser morto numa caçada, supostamente por Dorian.

Arrependido, mais tarde decide destruir os vestígios da sua consciência de dandy, inconsciente e criminoso (“Era para si como uma consciência. Sim, era a sua consciência. Iria destruí-la. Mataria a voz monstruosa da sua alma”). Pega na faca com que assassinara Basil e, possesso de cólera, num estado de grande agitação e confusão, retalha o quadro que este fizera de si próprio. Alertados pelo barulho, os vizinhos e a polícia encontram um velho decrépito, desconhecido e esfaqueado no coração. Os seus anéis exuberantes identificam-no. Dorian suicidara-se (“Era a imaginação que enviara o remorso no encalço do pecado”). A seu lado, permanecia na sua beleza original o retrato de Dorian Gray.

A literatura de cada época espelha, por regra, a sociedade de onde emerge. Mas como todos os macro fenómenos sociais, tem componentes intemporais em que apenas a tonalidade é variante. Isto porque profundamente intrincadas na matriz originária da condição humana. Será fatalismo? Não creio, mas o tempo será longo. Vejamos:

Representar era a beleza de S….   .Só podemos julgar as verdades quando fazem acrobacias. A civilização não é de modo nenhum uma coisa fácil de atingir. Há duas maneiras de o homem a alcançar. Uma é pela cultura e outra pela corrupção. De que serve a um homem conquistar o mundo e perder a própria alma? Para sermos populares temos que ser medíocres. Não era suficientemente inteligente para ter inimigos. Por cada efeito causado ganhamos um inimigo. A vida não se rege pela vontade ou pelas intenções. A vida é uma questão de nervos, de fibra, de células lentamente edificadas onde se oculta o pensamento e a paixão tem os seus sonhos,

terá sido escrito ONTEM, HOJE OU AMANHÃ? Tanto faz! Foi Oscar Wilde, o decadente!

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*1. Uma pequena obra desta corrente é “A greve dos Eleitores”, 1902 de Octave Mirbeau: trata-se de um libelo acusatório contra a essência da democracia e a melhor das suas virtudes: o voto. Mirbeau (1848-1917) era também um fanático anarquista, cujos escritos parecem começar a suscitar atualmente algum cuidado e maior atenção. Dele, que era considerado o “milionário vermelho”, ficou-nos uma das maiores instituições literárias de França: A Academia Goncourt, fundada em 1886 e uma das, ainda hoje, mais respeitadas da sociedade literária francesa que anualmente premeia o melhor romance publicado em língua francesa.  “As Benevolentes”, 2006, um livro muito raro e sobre o qual escreveremos proximamente uma crónica, foi galardoado por esta fundação e pela Academia Francesa com o grande prémio do romance por ser considerado o melhor romance publicado em língua francesa nesse ano. O decadentismo chegou a ter uma revista que difundia e expandia as suas ideias, ideais e valores: “Le Décadent”, fundada em 1886 por Anatole Baju.

*2. Parnaso/Parnasianismo: nome de uma montanha da Grécia antiga, consagrada ao Deus Apolo e às Musas. É uma corrente literária no campo da poesia, contemporânea do realismo/naturalismo no romance, que defendeu o positivismo e cientifismo por reação ao romantismo dominante na literatura nos finais do século XIX. A arte pela arte. Surgiu em França e os nomes mais sonantes do início deste movimento foram Théophile Gautier (1811-1872) e Sully Proudhomme (1839-1907). A estética dos poetas parnasianos defende a exigência da forma até ao limite do sagrado: no respeito pelas regras, do ritmo vocabular, das rimas e da métrica das sílabas, que os leva a construir quase sempre estruturas poéticas fixas, cujo exemplo clássico é o soneto.

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Outras obras de OW

Uma mulher sem importância, 1883;

Um marido ideal, 1895;

A importância de ser prudente, 1895;

O Príncipe Feliz, 1888.

De Profundis, 1897;

Balada do Cárcere de Reading, 1898.

Poesia

O coro das Virgens das Nuvens, 1876;

Ravenna, 1878;

1ª Edição de poemas por David Bogue, 1881;

Teatro

A Duquesa de Pádua, 1883;

Phèdre (A Sara Bernard), 1888;

Salomé, 1893;

O leque de Lady Windermere, 1893.

Contos Infantis

O Filho da Estrela

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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