LETRAS @CORdadas – Mia Couto

por Miguel Alves | 2016.12.21 - 10:32

 

 

Prémio Nacional de Jornalismo Areosa Pena em 1989;

Grande Prémio da Ficção Narrativa, 1990;

Prémio Nacional de Ficção da Associação de Escritores Moçambicanos, 1992;

Prémio Virgílio Ferreira, 1999;

Prémio Mário António, 2001;

Prémio União Latina de Literaturas Românicas, 2007;

Comendador da Ordem Militar de Sant´Iago da Espada, 2007;

Prémio Eduardo Lourenço, 2012;

Prémio Camões, 2013;

Prémio Neustadt International for Literature, 2014.

 

 

Mia Couto nasceu na cidade da Beira, província de Sofala em Moçambique no ano de 1951. O seu nome é um pseudónimo que adotou por uma razão singular: o seu irmão não era capaz de pronunciar o seu nome e, por outro lado, ele tinha uma enorme admiração pelos gatos. Não encontrámos nenhuma referência ao seu nome original.

Publicou os seus primeiros poemas aos quatorze anos no jornal “Notícias da Beira”. Aos dezassete mudou-se para a capital Lourenço Marques, hoje Maputo, a capital de Moçambique independente. Fez estudos universitários em medicina até ao terceiro ano; abandonou esses estudos para iniciar a sua atividade como jornalista após a revolução dos cravos em Portugal. Mais tarde iniciará estudos em biologia, que vieram a constituir a sua área profissional para além da de escritor. Ainda é atualmente professor de ecologia na universidade de Eduardo Mondlane em Maputo. Como jornalista, dirigiu a “Tribuna” até as suas instalações serem destruídas pelos colonos que se opunham à independência de Moçambique. Dirigiu ainda a Agência de Informação de Moçambique. Foi também diretor do “Tempo” até 1981, donde transitou para o jornal “Notícias” onde permaneceu até 1985 algum tempo após ter publicado a sua primeira obra de poesia – “Raiz de Orvalho”, 1983.

Mia Couto é o escritor moçambicano mais traduzido, o seu expoente maior e um dos maiores da língua portuguesa. A sua escrita tem raízes africanas profundas, num recriar da língua portuguesa com o léxico de muitas regiões de Moçambique e cujo resultado é uma narrativa encantatória misturada de misticismo e magia, melancolia e fé no intangível e imaterial, poesia e sonho, raiva e alegria num tom doce, suave, sublime e soalheiro como o chão africano (“África é o mais sensual dos continentes. …um dilúvio de luz. Intensa, total, capaz de cegar. Era certo que a invasão da sensualidade negra era um sinal que os padrões de beleza se tornaram menos preconceituosos”).

Quero hoje @CORdar aquela que é considerada a obra maior, porque a mais madura e realizada de Mia Couto: “Jesusalém”, 2009.

O menino Mwanito tem o papel central na narrativa. O “afinador de silêncios. Em África os silêncios são parte da conversa. O silencio é uma outra maneira de viver e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira. Ninguém te poderá pedir que sejas mais que um pastor de silêncios. Minha única vocação é o silêncio. Tenho uma inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Não tive coragem de interromper aquele diálogo de silêncios. O silêncio é uma travessia”.

 

Seu pai Vitalício foge da cidade (da vida, da culpa e do tempo) para recuperar uma antiga propriedade colonial e que em termos simbólicos é o seu país (“Jesusalém é uma jovem nação independente e eu sou o Presidente. Aliás, como o meu nome já diz, sou o Presidente Vitalício… Meu pai era teimoso como agulha de bússola. Meu pai: a voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio. Meu pai vazara o mundo para o encher das suas invenções. Fugindo do campo para a cidade, escapando da guerra rural para se abrigarem na miséria urbana). Com ele seguem Ntunzi, o irmão mais velho (“Ntunzi entrava em greve de existir. Mais grave que qualquer doença, era essa total desistência dele”), e Zacarias Kalash, o antigo soldado que combateu do lado errado da guerra (“Sabe porque nunca me separo das minhas balas? Queres conhecer um homem espreita-lhe as cicatrizes. Eu só tenho sabedorias de bicho: pressinto mortes e sangue. O que ele queria era contar histórias de caça, falar sem conversar, escutar-se a si mesmo para deixar de ouvir os seus fantasmas. Cuspia para apenas não ficar com o gosto de si mesmo”. Zacarias Kalash chegará a ministro que, face às convulsões da independência, porá em marcha o recolher obrigatório em todo o país (”E a lei marcial seria imposta em resposta àquilo que ele designou de ingerências coloniais. E executado com a ajuda do seu braço direito, o Ministro Zacarias Kalash”).

“Jesusalém” é a terra sem dono e sem vida, onde a solidão poderia resgatar todas as mágoas, sofrimentos e desilusões. Onde tudo poderia ter um outro nome, mas sem que nada acontecesse, porque aí só o vazio fará sentido. É uma estranha alegoria ao Moçambique independente. Mwanito é o símbolo da paz que Vitalício procura e encontra; é a sua única ligação ao mundo, ao passado e ao tempo aos quais não consegue fugir. Ambos personificam o sofrimento e desencanto da vida e condição humanas.  Em “Jesusalém” estão questionadas muitas das grandes angustias humanas e sociais como sejam:

O tempo e a memória associados às fugas que para eles tentamos descortinar: ”Porque nunca nos visitou? Sou um militar, não mando na minha vida. Não manda? Então, porque está tão feliz? Não sei. Talvez porque, pela primeira, vez mando em alguém. Meu velho estava cego para si mesmo. Segredo da sobrevivência, alvitrava, é almoçar com o diabo e comer os restos com os anjos. Porém, se temos que viver na mentira que seja a nossa própria mentira. Há lembranças que apenas na morte se reencontram”.

 

Os silêncios e os vazios da vida e das almas:

“Foram os demónios interiores que o devoraram. A vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida. O mundo termina quando já não somos capazes de o amar. As palavras podem ser o arco que liga a Morte e a Vida. A razão é que eu  nunca tinha exercido a minha própria infância, meu pai me envelhecera desde a nascença. Quem nunca foi criança, não precisa de tempo para envelhecer. Nascera sem querer, vivera sem desejo, estava morrendo sem aviso nem alarme. Metade do que fiz foi errado; o resto foi mentira. A solidão é o que mais tememos da morte. A solidão nada mais é que solidão. Eu perdi a minha interioridade”.

 

A guerra e a paz:

“Eu fui para a guerra para matar alguém. Alguém dentro de mim. Agora é muito tarde. Esse alguém já me matou a mim. Mas a voz de Kalash tinha a tranquilidade das vontades consumadas quando disse: Segure esta pistola. Os rios da portuguesa eram cada vez mais os de África: mais de areia do que de água, mais telúricas fúrias do que suaves e educados caudais”.

 

O medo e a culpa:

“A fronteira entre Jesusalém e a cidade não foi nunca traçada pela distância. O medo e a culpa foram a única fronteira. Nenhum governo do mundo manda mais que o medo e a culpa. O medo me fez viver recatado e pequeno. Só Deus me aliviaria de um castigo que a mim mesmo me havia imposto. Tememos a Deus porque existe. Mais tememos do demónio porque não existe. Ora, o que é ilícito nos dias de hoje? Uma mão suja a outra e as duas imitam o gesto de Pilatos. O passado era uma doença e as lembranças um castigo. Ele queria morar no esquecimento. Ele queria viver longe da culpa. …o que me cobria não era tanto o vestuário, mas a vergonha. A raiva é apenas um modo diverso de chorar. Ninguém se deve aproximar de um homem que faz de conta que não chora. Velhice não é idade: é um cansaço”,

 

A mágoa e o desencanto:

“A bem dizer, neste nosso mundo, haverá outro modo de viver que não seja por via de enganos? A verdade é triste quando é única. Eu não era mais menino, perdera o acesso à lágrima. Dizem que a história de uma vida se esgota no relato da sua morte. O demónio mora sempre entre os vizinhos. Nada ali ressoava em mim. Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez. De que vale ter crença em Deus, se perdemos a fé nos homens?”.

 

O amor e a felicidade:

“O amor vicia mesmo antes de acontecer. Quem amam, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Exceto amar. O amor é um território onde não se podem dar ordens. As mulheres são como as guerras: fazem os homens ficar animais. É isso que as negras têm que nunca podemos ter: elas são sempre o corpo inteiro. Elas moram em cada porção do corpo. Todo o seu corpo é mulher, todo o seu tempo é feminino. E nós, brancas, vivemos numa estranha transumância: ora somos alma ora somos corpo. Acedemos ao pecado para fugir do inferno. Aspiramos á asa do desejo para, depois, tombarmos sob o peso da culpa. O amor é uma morfina. Podia ser comercializado em embalagens sob o nome de Amorfina. Os olhos de quem se ama nunca se vêm.

“Jesusalém” tem no início de cada capítulo um poema, onde abundam os de Sophia de Mello Breyner Andersen. Um deles proclama: ”Quando a pátria que temos não a temos Perdida por silêncios e por renúncias Até a voz do mar se torna exílio E a luz que nos rodeia é como grades”. Escreve MC: “Esperei que chegasses para te falar, mas chegaste demasiado vazio para escutar”.

O vazio que nos povoa terá que ser preenchido para nele haver lugar para os outros. Falar é oferecer algo de nós …que tenha existência. Falamos sem conversar, …para nos escutarmos. E este vazio só o outro o poderá deslacunar. Assim se vai a pátria, também por excesso de fala e carência de silêncio, de que são faustoso exemplo muitos locutores de televisão. Fazem convites para os convidados os ouvirem a eles. Os pressupostos prévios são evidentes …porque as grades estão lá.

 

Aos leitores da RUA DIREITA, bem como a todos os outros, Festas Felizes e um Ano Nove cheio de paz, concórdia e realizações.

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Outras obras de Mia Couto:

Poesia

Raiz de orvalho e outros poemas, 1983;

Tradutor de Chuvas, 2011.

Contos

Vozes anoitecidas, 1986;

Cada homem é uma Raça, 1990;

Na Berma de Nenhuma Estrada, 2001;

Contos do nascer da Terra, 2002;

O Fio das Missangas, 2001.

Crónicas

Cronicando, 1991;

O País de Queixa Andar, 2003.

Romance

Terra Sonâmbula, 1992;

Mar Me Quer, 2000;

O Último Voo do Flamingo, 2000;

O Gato e o Escuro, 2001;

Um Rio Chamado Tempo,

Uma Casa Chamada Terra, 2002;

A Chuva Pasmada, 2004;

Pensageiro Frequente, 2010:

A Confissão da Leoa, 2012;

Trilogia “As Areias do Imperador”, 2015;

A Espada e a Azagaia, 2016.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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