LETRAS @CORdadas – Manuel Maria Carrilho

por Miguel Alves | 2016.11.30 - 17:05

 

Manuel Maria Carrilho

Membro da Fundação Chaire Perelman da Universidade Livre de Bruxelas, 1995;

Grã-Cruz da Ordem de Mérito Civil de Espanha, 1966;

Prémio Europeu da Herança Arqueológica da Associação Europeia de Arqueologia;

Grande Oficial da Legião de Honra de França, 1999;

Medalha Picasso/Miró da Unesco, 1999.

 

Quero hoje escrever sobre um dos muitos notáveis viseenses da atualidade. Numa ida recente a Lisboa onde estive aproximadamente uma semana, ao vasculhar os livros que por lá tenho, encontrei uma verdadeira preciosidade, organizada, com a introdução e notas de Manuel Maria Carrilho.

MMC é um intelectual de craveira excecional. Académico ilustre numa das áreas mais essenciais das ciências humanas: a filosofia. Em termos pessoais e humanos passa por um período difícil de que se espera uma solução justa. Tal facto não deve “apagar” o lugar proeminente que ocupa no pensamento contemporâneo português e o desempenho de grande relevo que lhe cabe no desenvolvimento cultural do país. Partilho a opinião de alguns que ele terá sido, porventura, o melhor e mais influente ministro da cultura de Portugal após a instauração da democracia. Muita da rede nacional de bibliotecas, museus, centros culturais, recuperação de velhos e abandonados teatros e outros projetos, são obra do seu consulado. Aqui bem próximo de nós, temos o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Coa, cujo vencimento sobre o megaprojeto hidroelétrico que aí estava já em construção é obra de qualidade superior reconhecida internacionalmente.

MMC nasceu em Coimbra em 1951 e viveu em Viseu até aos 18 anos. Seu pai, engenheiro Engrácia Carrilho, foi uma figura proeminente no distrito de Viseu de que foi governador civil, presidente da CM, e Provedor da SCM. No museu desta última instituição está agora patente uma exposição retrospetiva da sua vida, na altura em que decorre o centenário do seu nascimento. MMC é licenciado em filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorou-se em filosofia contemporânea na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na qual foi catedrático desde 1994.

MMC foi deputado, ministro da cultura nos XIII e XIV governos constitucionais a quem coube a criação, institucionalização e definição da Missão e finalidades deste ministério até então inexistente, candidato a presidente da CMLisboa e embaixador de Portugal na Unesco. MMC tem uma vasta obra publicada nacional e internacionalmente, bem como a participação em organismos e instituições de renome, nomeadamente a Comissão Fulbright e o Centro Europeu para o Estudo da Argumentação.

Quero hoje @CORdar uma obra cuja responsabilidade cabe a MMC:” DISSIDÊNCIA E NOVA FILOSOFIA”, uma edição da Assírio e Alvim de 1979.Trata-se de um livro de textos autónomos de grandes pensadores europeus á época, muitos dos quais, felizmente, ainda vivos, alguns portugueses, e cuja organização e introdução é de MMC, bem como um texto crítico seu sobre uma das obras mais salientes desse tempo: “A Barbárie de rosto humano”, 1977, de Bernard-Henry Levi. As problemáticas abordadas nos diferentes textos são, muitas delas, ainda atuais, pertinentes e estão na base de muitas das grandes questões contemporâneas. Os textos desta obra são de uma grande densidade intelectual e especulativa e exigem uma leitura muito atenta e exigente. A sua organização é verdadeiramente exemplar: em primeiro lugar as posições dominantes da “nova filosofia”: “Os novos filósofos” de Denis Bourgeois, uma entrevista a A. Glucksman, uma entrevista a Bernard-Henry Levy, “Os novos filósofos e a política” de C, Jambert, G. Lardreau, B-H Levy, J. M. Benoist e J.P. Dollé. De seguida vêem as contraposições à “nova filosofia” por Nicos Poulantzas, Jacques Rancière, Gillles Deleuze e F. Aubral e X. Dalcourt. Seguem-se os anexos que refletem ideias contiguas e intrincadas com as grandes questões em análise com M. Foucault, David Cooper e J.P. Payne. No final constam os depoimentos portugueses: Eduardo Lourenço, MMC, José Manuel Sobral, António Marques e Eduardo Prado Coelho

A chamada “nova filosofia” terá surgido na segunda metade dos anos 70 do século passado. Teve como patrono inicial Bernard-Henry Levy, inicialmente editor e posteriormente o mais célebre dos novos filósofos “e provavelmente o mais inconsistente” segundo MMC. Os desencadeantes históricos deste movimento que mobilizou toda a intelectualidade francesa e posteriormente a europeia foram a dissidência de Soljenitsyne e a sua obra primeira, “O Gulag”, dada a dimensão do horror que o sistema denunciado desencadeou de forma irrecusável e universal. A partir dele, “a nova filosofia”, num processo montado na perfeição em termos mediáticos, organiza-se como frente concertada e convicta para “pôr termo à fascinação marxista enquanto referência explicita ou implícita da cultura ocidental triunfante”, no dizer de Eduardo Lourenço. Neste discurso foram assimiladas ideias de outros grandes pensadores em áreas diferentes como M. Foucault, J. Lacan e D. Cooper, o que implicou também, a entrada de Freud e muitos conceitos ligados à psicanálise.  Como é sabido, Lacan é o fundador de uma corrente psicanalítica, Cooper ficou conhecido como um dos fundadores da anti-psiquiatria e Foucault teorizou as estratégias de poder e dominação embrenhando-se, por vezes, na sua articulação com a psicanálise. Eduardo Lourenço entende a pretensão da nova filosofia: “o primeiro anti discurso marxista que não procede da direita clássica, mas do seio mesmo de uma esquerda de regresso da sua própria utopia redentora. …sem esse acontecimento que é o Gulag, quer dizer a coexistência (coessência) da prática socialista histórica concreta com a realidade impensável do campo concentracionário”. Mas conclui: “Qual o futuro desta lírica contestação da mitologia da esquerda pelos seus próprios ex-arcanjos?”

Na sua introdução, MMC clarifica que a coletânea pretende ser “sem inúteis pretensões polémicas, mas também sem enjeitar opções claras, procura sobretudo equacionar e debater algumas questões já demasiado adiadas entre nós: as que se tecem á volta do Estado, do Gulag e do marxismo, do poder e da revolução, da dissidência e da liberdade”.

Na sua crítica à obra de B-H Levy, MMC escreve na sua plena erudição argumentativa: “Pensamento da revelação e da denúncia, dir-se-ia que a nova filosofia voga num puro movimento de retorno, sem imprevisto nem alegria, antes carregado de acusações e culpabilidades, retorno que não se sabe muito bem a quê, para quê ou para onde, movimento por vezes bordejado de inacreditáveis arcaísmos: o retorno a Platão, a recusa do cientismo, uma certa nostalgia da filosofia teológica. … apetece perguntar, se em nome da crítica e do combate ao Gulag soviético, não se estarão a esquecer e a ocultar muitos outros gulags, diários, mas periféricos, tumultuosos, mas silenciados. Tudo parece indicar que, para os novos filósofos, é a dimensão da repressão que a torna condenável ou tolerável, o que nos revela a outra face deste angelismo demasiadamente puro e voluntariosamente exigente: o cinismo. Porque o cinismo não é só manifestar crença no que não se crê, é também manifestar descrença naquilo em que nunca se acreditou, tornando-o assim estranha e pesadamente crível.

Polémico, controverso e altivo, mas corajoso, duro e convicto, acaba sentenciando B-H Levy: ”Livro sem ousadia que não seja a do estilo, sem originalidades que não sejam alheias, sem ideias que não sejam, afinal, as  que ele combate. Só um vencido proporia, ao terminar a sua obra, que o intelectual de hoje seja um anti bárbaro, metafisicamente angélico, moralista e artista. Foi há um século que Nietzsche detectou no moralista uma “secreta intenção de se vingar da vida” e foi ainda ele quem caracterizou o pessimismo como um “cinismo contagioso de frustrações e de vencidos”.

Este livro é uma obra a ler por inteiro. Devagar e pausadamente. Filosoficamente! Porque a filosofia estrutura o pensamento. Por isso, toda a ação deve ter a filosofia na base (o que teria na cabeça um ex ministro da educação que quis irradiar o ensino da filosofia nas escolas?). Separar a ação da sua base (versus os empreendedores e os filósofos), é erro de lesa pátria. Os resultados do frenesim e da volúpia, acelarados e vazios, são sempre conjunturais, efémeros e desparecem na voragem da primeira curva da história.

____________________________________________________________

Outras obras de MMC:

Criou e dirigiu as revistas “Filosofia e Epistemologia” e “Crítica”;

Coleções “Clássicos da Filosofia”, ENCM;

“Opus Biblioteca de Filosofia”, D. Quixote;

“Argumentos”, Edições ASA.

 

(foto DR)

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub