LETRAS @CORdadas – Jorge Luís Borges

por Miguel Alves | 2015.12.26 - 15:11

 

 

 

(Jorge Luís Borges 1899 – 1986)

 

Prémio Formentor Internacional de editores) – 1961;

Prémio Jerusalém – 1971;

Prémio Cervantes – 1979;

Prémio Mundial Dino Del Duca – 1980.

 

Jorge Luís Borges é argentino, tendo nascido em Buenos Aires filho de uma família da classe média que o educou nos parâmetros da cultura dita anglófona. Em 1914, a sua família instalou-se na Suíça onde estudou. Da sua formação humana e cultural consta uma estadia prolongada em Madrid onde se integrou nos grupos e movimentos vanguardistas da época. Regressou à Argentina em 1921, onde foi bibliotecário, professor universitário e diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina. Aí fundou duas revistas de natureza cultural surrealista e onde foram publicados os seus primeiros trabalhos em poesia (Prisma e Proa – 1925/1929).

Segundo um estudo levado a cabo por António Andrade, JLB será descendente de portugueses, tendo o seu avô Francisco nascido em Portugal (1770) e vivido em Torre de Moncorvo de onde terá emigrado para a Argentina.

JLB cedo terá dito a seu pai que queria ser escritor, tendo escrito o primeiro conto com nove anos de idade.

Com menos de quarenta anos (1938), sofreu um grave acidente de viação em consequência do qual que esteve em risco de vida. Como resultado desse acidente ficou com uma degenerescência progressiva da visão que viria a perder totalmente na década de 50. A partir dessa altura, é sua mãe que cuida dele, que reproduz os seus escritos e lhe faz todas as leituras que o interessam. Por este facto, uma parte importante da sua obra, como grande escritor que foi, é levada a cabo na situação de invisual. Este faco não pode deixar de impressionar e de atribuir ao seu legado artístico e cultural um valor e uma riqueza que verdadeiramente nos deixam estupefactos.

A obra de JLB é composta de poesia, ensaio e conto, onde aborda os principais problemas da filosofia, da metafísica, da mitologia e da teologia, e fizeram dele um eterno candidato à atribuição do Prémio Nobel, circunstância que nunca viria a acontecer. JLB é um escritor não enquadrável em nenhum estilo literário ou ideológico, tão pouco no boom da literatura sul-americana que se tornou saliente numa parte importante do século XX. Talvez por isso, e porque também resultante da situação existencial deste autor, JLB não tenha recebido esse galardão, mas que, em contrapartida, fizeram dele um autor universal, de raro génio, embora de leitura difícil e muito exigente. ”Quem se conhece melhor que o cego? Cada pensamento é uma ferramenta”.

Quero hoje @CORdar uma das obras mais notáveis de JLB: “Ficções”, 1944. Trata-se de um livro de contos que inclui numa obra só, duas que foram publicadas em separado: “O Jardim dos Caminhos que se bifurcam” e “Artifícios”. Na sua essência, direta ou indiretamente, é um livro sobre livros e bibliotecas, através dos quais JLB, de uma forma mista de realidade e ficção, nos conduz pelo emaranhado do seu universo complexo e labiríntico. Nos labirintos em que nos envolve, misturam-se de forma insidiosa, atemporal, universal e a exigir uma leitura atenta, porque carregada de simbolismos reais e ficcionais às vezes de difícil e complexa compreensão, aspetos que aparentam ser autobiográficos, de ficção, e de realidade. É considerada por alguns uma das obras mais deslumbrantes da literatura universal e do século XX. Um livro inesgotável, circular e de sentidos múltiplos e labirínticos que suscitam a repetição da leitura para melhor se apreenderem. Da sua leitura resulta quase sempre a perplexidade, dada a natureza do seu texto completamente expurgado do acessório, enxuto e sintético, mas carregado de poesia, filosofia e até humor. ”Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são a extensão do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria. Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar o mundo sem livros”.

Nos dois volumes que compõem “Ficções”, é o próprio JLB que escreve o prólogo para cada um deles, sintetizando cada um dos seus contos e desvalorizando a sua importância. “Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros; o de espraiar por quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Mais razoável, mais inepto e mais mandrião, eu preferi a escrita de notas sobre livros imaginários”.

No prólogo do primeiro, começa por dizer que “as sete peças deste livro não requerem elucidação de maior” e classifica a “A lotaria da Babilónia” como não sendo “de modo nenhum inocente de simbolismo”. Escolhemos este por ser aquele que retrata um pouco do seu país e da sua época, nos diversos simbolismos que pode conter e a que não será alheia situação política da Argentina do seu tempo.

A história da Argentina durante o século XX é verdadeiramente dramática e tumultuosa. Nela ocorreram seis golpes de Estado: 1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1978. Os primeiros quatro deram lugar a ditaduras relativamente provisórias e as que tiveram lugar após os dois últimos perduraram com carateristicas violentamente autoritárias expressas na chamada guerra suja na linha do terrorismo do Estado. Os direitos humanos foram totalmente banidos e, neste período, foram sequestrados, torturados, assassinados, ou simplesmente desparecidos, cerca de 30.000 argentinos. Durante as ditaduras militares, a Argentina foi governada por 14 ditadores militares, à razão de 1,7 ditador por ano. A única exceção teve lugar com José Maria Guido, o único ditador não militar (1962/1963). Neste período, todas as experiências de governos democráticos foram violentamente interrompidas por golpes de Estado. A última ditadura foi apeada do governo da Argentina em Dezembro de 1983, com a tomada de posse do presidente Raúl Alfonsin. O colapso começou com a derrota estrondosa da Argentina perante a Inglaterra na guerra das Malvinas (1982). Ainda hoje, são algo misteriosas as razões que levaram a Argentina a desencadeá-la, uma das quais terá sido a legitimação popular do regime, tal como já antes havia acontecido com o campeonato do mundo de futebol de 1978 frente á Holanda. Valeu aos argentinos e ao mundo civilizado a determinação da “Dama de Ferro” e o peso moral da mais antiga democracia do mundo. O período da guerra suja é comparável, no horror e selvajaria, ao que Hitler levou a cabo aquando da invasão da Rússia. O escritor argentino Ernesto Sábato afirma num texto “Nunca Más”, 1984, “que “temos a certeza de que a ditadura militar produziu a maior tragédia da nossa história”. É comparável ao “Nacht und Nebel”, 1941, o decreto de Hitler, que visava a eliminação implacável e total de todos os adversários do regime, sem que para isso houvesse qualquer impedimento jurídico ou processual.

“Ficções” foi publicado no período da terceira ditadura (1944). Esta tivera

Início na revolução de 1943 que foi liderada por três generais, tendo todos assumido a presidência. Pretendia acabar com “a década infame” que a antecedera e teve também a “mão” da diplomacia americana que pretendia alterar a neutralidade argentina durante a II guerra mundial e substituir o relativo domínio britânico na economia argentina. “A lotaria da Babilónia” é uma metáfora política subtil e profunda que espanta pelo seu majestoso e labiríntico conteúdo ficcional. O seu simbolismo, a começar pelo título, é tão inteligente e magistral quanto destruidor. O tempo, porém, iria ainda ser longo!

Referindo-se às vicissitudes da sua vida como cidadão argentino, afirma:

”Conheci o que os gregos ignoram: a incerteza”. Devo esta variação quase atroz a uma instituição que as outras repúblicas ignoram”.

O regime, a oposição, a Igreja

“Sou de um país onde a lotaria é a parte principal da realidade. …penso com certo espanto na lotaria e nas conjecturas blasfemas que ao crepúsculo murmuram os homens velados. A lotaria da Babilónia era um jogo de carácter plebeu. A Companhia, assim começou a chamar-se então, teve de velar pelos ganhadores que não podiam levantar os prémios, se faltava na caixa a importância quase total das multas. Levantou um processo aos perdedores. Todos optaram pela prisão, para defraudar a Companhia. Desta bravata de uns poucos nasce a omnipotência da Companhia: o seu carácter eclesiástico, metafísico. Outra inquietação incubava nos bairros baixos. Os membros do colégio sacerdotal multiplicavam as apostas e gozavam de todas as vicissitudes do terror e da esperança”.

Os intervalos da democracia: eleições, voto secreto e universal, governo, oposição, tortura, perseguições, factos políticos

“O justo anseio de que todos, pobres e ricos, participassem por igual na lotaria, inspirou uma indignada agitação, cuja memória não se apagou com os anos. Alguns obstinados não compreenderam que se tratava de uma nova ordem, de uma etapa histórica necessária… Um escravo roubou um bilhete carmesim, que no sorteio o tornou credor de lhe queimarem a língua. Houve distúrbios, houve infusões lamentáveis de sangue; mas a gente babilónica impôs finalmente a sua vontade, conta a oposição dos ricos. …a Companhia aceitou a totalidade do poder público. Em segundo lugar conseguiu que a lotaria fosse secreta, gratuita e geral. Foi proibida a venda mercenária de sortes. Todo o homem livre automaticamente participava nos sorteios, de sessenta em sessenta noites e que determinavam o seu destino até ao outro exercício. Uma jogada feliz podia motivar a elevação ao concílio de magos ou à prisão de um inimigo. Uma jogada adversa: a mutilação, a variada infâmia, a morte. Por vezes um só facto – o assassínio público de C, a apoteose misteriosa de B, era a solução genial de trinta ou quarenta sorteios”.

Espiões, polícia política, delatores

“Combinar jogadas era difícil; mas tem de se recordar que os indivíduos da Companhia eram (e são) todo-poderosos e astutos. Em muitos casos, o conhecimento de que certas facilidades eram simples obra do ocaso, poderia minorar a sua virtude; para evitar este inconveniente, os agentes das Companhia deitavam mão das sugestões e da magia: os seus passos, os seus manejos, eram secretos. Para indagar das íntimas esperanças e dos íntimos terrores de cada um, dispunham de astrólogos e piões. A Companhia, com uma modéstia divina, evita toda a publicidade. Os seus agentes, como é natural são secretos; as ordens que distribui continuamente (quiçá incessantemente), não diferem das que prodigam os impostores. Além disso, quem poderá gabar-se de ser um simples impostor? Havia uma latrina sagrada, havia umas gretas num pulverulento aqueduto que iam dar à Companhia; as pessoas malignas ou benévolas depositavam delações nesses sítios. Um arquivo alfabético recolhia essas notícias de variável veracidade. Pode parecer incrível, mas não faltavam queixas. A Companhia, com a sua discrição habitual, não replicou diretamente. Um argumento curto observava que a lotaria é uma interpolação do acaso na ordem do mundo e que aceitar erros não é contradizer o acaso, é corroborá-lo. Sob a influência benéfica da Companhia, os nossos costumes estão saturados de acaso. O comprador de uma dúzia de ânforas de vinho de Damasco não se espantará se uma delas contiver um talismã ou uma víbora. Esta declaração apaziguou as inquietações. Modificou profundamente o espirito e as operações da Companhia”.

Refazer/reescrever a história, justiça

“Os nossos historiadores são os mais perspicazes do globo, inventaram um método para corrigir o acaso; consta que as operações desse método (em geral) são fidedignas; embora, naturalmente, não se divulguem sem uma certa dose de engano. De resto, nada há tão contaminado de ficção como a própria história da Companhia. Os escribas prestam juramento secreto de omitirem, de interpolarem, de alterarem. Também se exerce a mentira indireta”.

No final, JLB recentra aquele regime do seu país para o sentido da história da humanidade, de todos os povos e dos seus governos

“Este funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, provoca toda a espécie de conjeturas. Uma abominavelmente insinua que há já séculos que não existe a Companhia e que a sagrada desordem de nossas vidas é puramente hereditária, tradicional. Outra julga-a eterna e ensina que perdurará até à última noite, quando o último deus aniquilar o mundo. Outra ainda declara que a Companhia é omnipresente, mas que só tem influência sobre coisas minúsculas: o piar de uma ave, as cambiantes da ferrugem e da poeira, os meios sonhos da madrugada. Outra pela boca de heresiarcas camuflados que nunca existiu nem existirá. Outra, não menos, ignominiosa, que é indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque a Babilónia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos”.

 

Portugal é a nossa Companhia, a Empresa de todos os portugueses. Onde os “acasos” financeiros de que todos tivemos conhecimento nos últimos anos dificilmente terão “esta declaração apaziguou as inquietações”, face à evidência de que “Também se exerce a mentira indirecta” e as explicações conhecidas “não diferem das que prodigam os impostores”. Este único facto, “era a solução genial de trinta ou quarenta sortes” (20/30% da dívida pública que todos teremos de pagar nas próximas décadas). Porém, “quem poderá gabar-se de ser um simples impostor?” São, também, “gestores” financeiros. Vendem ânforas de vinho de Damasco sem se espantar “se uma delas contiver uma víbora”.

Ao contrário destes, todos existimos para favorecer e participar no desenvolvimento, progresso e bem-estar dos nossos e de todos os membros desta Companhia. Para garantir e avolumar o prestígio e honra da nossa história. Para preservar, dignificar e acrescentar o nosso património.

Sem qualquer “funcionamento duvidoso” e nenhuma “espécie de conjecturas”.

O tempo, porém, parece ainda ser longo!

 

Outras obras de JLB

Poesia

Fervor em Buenos Aires, 1923;

Poemas (1923-1943);

Elogio da Sombra, 1969;

O ouro dos Tigres, 1972;

Os Conjurados, 1985.

Conto

O Aleph, 1949;

O Relatório de Brodie, 1970;

A memória de Shakespeare,1983.

Ensaio

Inquisições, 1925;

O idioma dos argentinos, 1928;

História da eternidade, 1936;

A História da Infâmia, 1935;

Aspectos da poesia gaúcha, 1950;

Outras Inquisições, 1952;

Livro dos sonhos, 1976.

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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