LETRAS @CORdadas – Jonathan Littel

por Miguel Alves | 2016.10.24 - 13:11

 

Jonathan Littell: nasceu em Nova York em 1967 e vive em Barcelona

 

Grande prémio do Romance da Academia Francesa 2006;

Prémio Goncourt 2006.

 

Jonathan Littell nasceu em Nova York em outubro de 1967, neto de um casal de judeus russos que emigraram para os Estados Unidos no final do século XIX. Seu pai, Robert Littell, foi um escritor de romances policiais. Aos três anos foi para França com seus pais, tendo estudado no conhecido liceu Fénelon. Regressou aos USA aos 13 para completar parte da sua educação básica. Regressou mais tarde a França para fazer o bacharelato após o qual regressou aos USA para a universidade de Yale, onde concluiu os seus estudos em 1989. Aí conheceu William Burroughs que leu e estudou e desse contato resultou o seu primeiro livro: “Bad Voltage”. Na sequência dessa leitura e influência, estudou uma série de grandes autores como Sade, Genet, Celine, e Beckett, alguns dos quais traduziu para inglês. Posteriormente concebeu um projeto megalómano de escrever uma obra em 10 volumes, projeto que abandou ao terceiro volume.

Entre 1994 e 2001 trabalhou na organização humanitária internacional “Ação contra a fome”, tendo exercido funções na Bósnia, Chechénia, Republica Democrática do Congo, Serra Leoa, Cáucaso e Moscovo. Na Chechénia, o grupo em que seguia foi vítima de uma emboscada da qual saiu ferido. Pouco tempo depois abandonou essa atividade para se concentrar no seu segundo livro: “As Benevolentes”. Ao mesmo tempo continuou a fazer algum trabalho como consultor na área humanitária

Em 2007, JL obteve a nacionalidade francesa ao abrigo de uma lei francesa que a concede a cidadãos de outros países que” por acções meritórias contribuíram para a glória de França”.

Quero hoje @CORdar este segundo livro de JL: “AS BENEVOLENTES” *1, 2006. Publicado em 2006, recebeu o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa e o Prémio Goncourt.

É uma volumosa obra de 884 páginas que romanceia a vida de um oficial das SS nazis na frente leste durante a II guerra mundial, contada por ele próprio e de nome Maximilien Aue. JL leu aproximadamente duas centenas de livros sobre a Alemanha nazi e a frente leste da II guerra mundial. Visitou e investigou em termos históricos e geográficos a Alemanha, a Europa de leste e todo o Cáucaso. JL afirma que para a criação do seu personagem principal, imaginou o que ele próprio teria feito se tivesse nascido antes da II guerra mundial e fosse um oficial nazi das SSs. Este o primeiro grande embate que senti ao começar a ler a obra e no seu capítulo primeiro (TOCCATA): Uma espécie, em simultâneo, da confirmação dos factos históricos e a sua “possível” justificação através de uma tentativa que parece séria, porque situada psicológica e humanamente, entre uma visão crítica embora sem arrependimento e a assunção da ideologia nazi. “Adivinho o pensamento dos que me lêem: Aqui está um homem realmente mau, um tipo reles sobre todos os aspetos, que deveria estar a apodrecer na prisão em vez de nos despejar em cima a sua filosofia confusa de ex-fascista semi arrependido. A distinção inteiramente arbitrária estabelecida depois da guerra entre por um lado as “operações militares” equivalente ás de qualquer outro conflito, e por outro, as atrocidades conduzidas por uma minoria de sádicos e de tarados é uma fantasia consoladora dos vencedores ocidentais. As vítimas, na vasta maioria dos casos, não foram torturadas ou mortas por serem boas, do mesmo modo que os seus carrascos não as atormentaram por serem maus. Ora a máquina do Estado é feita do mesmo aglomerado de areia friável de que é feito aquilo que tritura grão a grau. Estaline é uma demonstração eloquente disto, ao transformar cada geração de carrascos em vítimas da geração seguinte, sem que por isso os carrascos tenham vindo a faltar-lhe.  (Aue na frente leste após matar: “uma bela rapariga, quase nua, mas muito elegante, calma, com os olhos cheios de uma tristeza imensa. Disparei-lhe convulsivamente uma bala na cabeça”. …porque sabia bem que o reservatório de assassinos disponíveis era sem fundo, podia extrair dele os homens que quisesse, por isso qualquer de nós podia ser afectado a outras funções mais de acordo com os seus talentos próprios …um facto concluído pela história moderna é que toda a gente, ou quase, num conjunto de circunstâncias dadas, faz o que se lhe diz que faça. Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres e os vossos filhos, mas também ninguém apareça para vos dizer que matem as mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus por isso e vão em paz.   Talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu. Porque no momento em que tenham a arrogância de pensar sê-lo, aí começa o perigo”.

Ao imaginar-se na farda de um oficial das SS e escrevendo o que escreveu, fica a dúvida, sempre contraditória, sobre o que pensará o autor sobre as questões básicas que presidiram ao extermínio dos judeus, por exemplo, mesmo sabendo que são essas as suas origens (“…for me judeism is more a historical background”).  É na nossa opinião, o grande dilema desta obra e do seu personagem principal. Dilema não resolvido porque as posições “intelectuais”, conceptuais e estratégicas desta mente nacional socialista brilhante, não eram compatíveis com a sua prática e a sua carreira feita em períodos decisivos do regime e onde tiveram lugar promoções até á sua área de topo. Este argumento poderá ser forte e sustentado em algumas situações individuais e nos patamares básicos do regime e da sociedade alemã, como aliás é exemplificado com Döll: “Se Döll foi parar a Sobibor, e o seu vizinho não, tal ficou a dever-se a um acaso. …o que era Döll senão um bom pai de família, que queria alimentar os filhos, e que obedecia ao seu governo, ainda que no seu íntimo não estivesse inteiramente de acordo com as ordens.”

Mas o que dizer de toda uma nação e das suas elites que criaram, desenvolveram e apoiaram fanaticamente o regime e o seu execrável e inumano líder que liderou um período de trevas e de horror no coração do mundo civilizado? Talvez a matriz imperial e dominadora do povo alemão, que felizmente nunca conseguiu impor tal desiderato, cujo ADN herdado das tribos germânicas, a origem da maioria dos povos e nações atuais da europa central, nórdica e de leste, o possa parcialmente explicar, se tal explicação tivesse realização possível.

“IRMÃOS HUMANOS DEIXEM-ME CONTAR-VOS como foi o que se passou. É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral. E depois, isto diz-vos respeito: acabarão por ver bem que vos diz respeito. Não pensem que procuro convencer-vos seja do que for. Talvez estas notas sejam também confusas e más. Posso garantir-vos que pelo menos se hão-de manter livres de toda a contrição. Não me arrependo de nada: fiz o meu trabalho, e foi tudo. Os meus colegas consideram-me um homem calmo, pausado, reflectido. Calmo, com certeza; mas muitas vezes durante o dia a minha cabeça começa a rugir, surdamente, como um forno crematório. E bem vistas as coisas, ainda que me dirija aos que me lêem, não é para eles que eu escrevo. Saí da guerra um homem cheio unicamente de amargura e de uma longa vergonha, como areia que range entre os dentes”.

A escrita de JL neste livro é profunda, sedutora e encantatória porque arrebatadora na crueza e fealdade dos conteúdos e na verdade interna e externa com que os vive e no-los transmite. Devora-se página a página sem nos darmos conta da estupefação que sentimos, não obstante esta viagem ser um caminho pelo horror, pela barbárie e pela mais hedionda crueldade e maldade humanas. A forma como este oficial nazi de elevado estatuto se movimenta no interior do regime, estuda e analisa, decide e atua, se integra hierarquicamente e se mantém intelectualmente algo distante, defende princípios basilares do regime e os viola de forma que nem mesmo regime o apanha nas suas malhas destruidoras, apesar de alguma suspeita de que a sua figura é alvo, (“considerava que se tratava sobretudo de uma retórica de fachada; ao nível dos factos, se se soubesse manter a descrição, raramente havia problemas”) é um verdeiro prodígio de prestidigitação.

Maximilien Aue é doutorado em ciências jurídicas, homem culto, devorador de Back (“Não há nada que se aproxime de Back. É intocável, é imenso. O que ele realizou é a síntese definitiva do horizontal e do vertical, da arquitetura harmónica com o impulso melódico. Com isso, põe fim a tudo o que vem depois dele, e estabelece um quadro do qual tudo o que se lhe segue  tenta escapar de uma maneira ou de outra, até ao momento em que Wagner o faz finalmente explodir”); apenas admirador de Mozart, quem sabe devido às suas ligações maçónicas, e profundo conhecedor da chamada música erudita (estava destinado a ser pianista por vontade da mãe), informado e conhecedor da literatura da época “Estava a ler nessa época o diário de Stendhal, havia nele passagens crípticas que correspondiam espantosamente ao que eu próprio sentia: recusa dos judeus, o abafado do tempo acabrunha-me, a dor faz de mim uma máquina”, homossexual assumido internamente e sobre cujos comportamentos paira alguma suspeita de que apenas o seu amigo e protetor, Thomas, parece ter alguma certeza. Nacional socialista convicto, lúcido e parcialmente crítico e com uma larga visão estratégica dos acontecimentos e dos seus resultados que o leva a prever que a Alemanha perderá a guerra, mesmo quando ainda poucos o anteviam.

A sua história psicológica é fortemente conturbada ao nível das suas emoções e relações, precoces e posteriores, com o seu pai, a sua mãe e, sobretudo, a sua irmã. É uma área do livro forte, poderosa e carregada de grande intensidade psicológica que merecia, só por si, uma análise detalhada porque bastante explicativa do perfil humano global deste importante e influente oficial das SS. “Nunca gostei realmente da minha mãe, cheguei até a detestá-la. …amei uma mulher (sua irmã Una). Uma só, mais que tudo no mundo. Ora essa, justamente, era a que me estava proibida. Quanto a ela, esse amor ter-me-ia bastado para a vida. Não se riam: esse amor é sem dúvida a única coisa boa que fiz. Vi-a passar à minha frente, com um passo seguro e tranquilo, olhava-a, repassando-me do jogo de músculos das suas coxas, das suas nádegas, das suas costas altivas e direitas. Não podia imaginar nada de mais nobre e de mais belo e verdadeiro”.

“AS BENEVOLENTES” tem uma componente de investigação histórica, geográfica, de culturas nacionais e étnicas, de pessoas, acontecimentos e lugares verdadeiramente excecionais, e que em diversas fases do seu desenvolvimento os acontecimentos são relatados de forma muito próxima do relato histórico e com o nome verdadeiro dos atores que neles estiveram envolvidos. “Não sei se posso partilhar esse teu entusiasmo por esse Hitler. Parece-me neurótico, a abarrotar de complexos por resolver, de frustrações e ressentimentos perigosos. Becker queixava-se, havia muito, da atitude de Eichmann, que segundo a impressão que nos dava conduzia as negociações como uma simples formalidade. Eichmann está obnubilado pela sua mentalidade de técnico de logística. É incapaz de compreender e integrar o seu procedimento em finalidades complexas”.

O livro está situado entre 1942 e 1945, embora naturalmente inclua de forma menor outros acontecimentos anteriores e posteriores a essas datas, como por exemplo o julgamento de Nuremberg.

Não queremos detalhar a obra no seu conjunto. Tal tarefa seria pretensiosa e desinteressante, já que existe imensa informação factual e historicamente rígida sobre alguns dos temas cruciais deste livro, como por exemplo a ocupação da Polónia, o gueto de Varsóvia, o regime de Vicky em França, o cerco de Leninegrado, os campos de concentração e a sua gestão, a pouco conhecida e fracassada campanha da Hungria e as componentes militares em termos de material bélico, volume e dimensão das forças operacionais. Curiosa é a relativa ligeireza com que é visto o desembarque na Normandia, origem do volte face na guerra, e que só foi possível através de uma recuperação tecnológica dos aliados da derrota eminente que se vislumbrava durante o período da batalha do atlântico. A distância e o embrenhado dos acontecimentos militares que se desenrolavam na altura nos outros cenários da guerra e em que Aue estava envolvido, podem explicá-la.

Interessaram-me sobremaneira do livro um conjunto de outros temas e discussões que o romance aborda e cuja atualidade pode ainda ser admitida e questionada.

São eles:

  1. O Cáucaso, na sua importância estratégica, diversidade humana, linguística, territorial, religiosa. Uma zona pouco conhecida, quase misteriosa.
  2. O nacional-socialismo e as SS.
  3. Nazismo e Fascismo.
  4.  Nacional-socialismo e Bolchevismo/Comunismo.
  5.  Nacional-socialismo e Kant.
  6.  A questão judaica/Judeus.
  7.  Crime, culpa, castigo, arrependimento.
  8. Thomas
  9. O Cáucaso é uma zona charneira do mundo. Fronteira montanhosa que separa o ocidente do oriente, todos os maiores movimentos da história passaram por aí e tiveram que lhe fazer face. A ocupação do Cáucaso por Hitler teve lugar depois da ocupação da Ucrânia, cujo resultado não terá sido brilhante. Dessa experiência resultou uma política diferente para esta região. “O Führer aprovara de facto a instauração, para o Kuban-Caúcaso de uma administração militar, confiada ao OKHGA (Estado Maior de um Grupo de Exércitos). Mais surpreendentemente ainda, o OKH (Alto Comando do Exército de Terra) ordenara ao OKHGA que formasse entidades territoriais autónomas para os cossacos e os diferentes povos montanheses; os kolkoses seriam dissolvidos, o trabalho forçado interdito: o contrapé sistemático da nossa política na Ucrânia. Parecia demasiado inteligente para ser verdade. Se formos bem sucedidos aqui, talvez tenhamos a possibilidade de reparar os estragos levados a cabo na Ucrânia e na Ostland”. Em Piatigorski, Aue conhece um oficial subalterno, Dr. Voss, linguista e profundo conhecedor dos povos do Cáucaso. Voss era sobretudo especializado em línguas indo-germânicas, sobretudo as de origem iraniana. A caminho do museu Lermontov (poeta e romancista russo duas vezes deportado para o Cáucaso e figura de proa do romantismo russo a par de Puchkin), que ambos combinaram visitar, falando da nova política para o Cáucaso este afirma: “Mais vale tarde que nunca, mas na minha opinião não vai resultar. Adquirimos demasiados maus hábitos. Não temos a mínima tradição colonial. Os próprios soviéticos, no fundo, fizeram as coisas melhor do que nós: apesar da sua brutalidade souberam criar um sentimento de identidade comum, e o Império deles aguenta-se”.

Voss atribui uma importância estratégica aos ubykhs, ao contrário da hierarquia da Wehrmacht que se interessa sobretudo pelos carachais, kabardes, bergmäners e balcares. No processo de ocupação, era necessário identificar os povos ou minorias anti bolcheviques para com eles colaborar; só que, em simultâneo tornava-se essencial identificar as tribos ou povos de origem judaica para serem eliminados e estabelecer relações de cooperação com os restantes “aqui a política visa criar boas relacções com as minorias anti-bolcheviques; não devem ser levianamente postas em perigo. Mas se essa gente não é racialmente constituída por judeus, é possível que não representem perigo. A Wehrmacht vai reunir uma comissão de especialistas”.

Uma das grandes questões que aos alemães tiveram nesta região foi a de identificar com garantia se os Berjuden tinham ou não origem judaica. Segundo a Lista das Nacionalidades Habitantes da Rússia, os Berjuden eram efetivamente judeus: “Povos orientais mistos com descendência indiana ou outra, mas judeus de origem, chegaram ao Cáucaso no século VIII”. Por outro lado, um outro especialista afirmava que os Berjuden são de ascendência caucasiana, iraniana e afegã e não judeus. “onde teriam ido buscar, então, a religião mosaica? Esse ponto não é claro. Talvez a esses célebres czares que se converteram ao judaísmo no século VIII. E não teriam sido antes os Berjuden a converter os czares? É o que temos de investigar. O que agora conta é que tomemos uma decisão. Já temos cá o Dr. Voss”.

Voss começou por contestar e questionar o conceito de raça, que apelidou de “filosofia de veterinários que roubou todos os seus conceitos à linguística, a única das ciências do homem até hoje que dispõe de uma base teórica cientificamente validade”, ao mesmo tempo que a compara ás pseudociências ao serviço do partido por parte dos bolcheviques. Além disso, os Berjuden eram considerados pelos seus vizinhos, como autênticos montanheses caucasianos. Mais tarde chega uma nova especialista para a comissão cujas opiniões se aproximam decididamente das da Wehrmacht. Em dada altura do processo Voss é morto em combate” por guerrilheiros, talvez até por esses judeus. É lamentável, bem entendido. …o carácter judeu deles é uma coisa que salta aos olhos. Têm modos insinuantes e tentaram até corromper-nos. Não podemos deixar-nos enganar”. Mais tarde, é colocada a questão de saber-se a opinião das SS sobre a problemática e sobretudo das relações originárias dos Berjuden com os czares. Na sessão de trabalho para o efeito, Aue não confirma os pressupostos que já estavam definidos pela hierarquia ao levantar sobretudo dúvidas em vez de certezas que confirmassem aqueles. Os especialistas foram louvados pelo trabalho realizado e decidiu-se que seria levada a cabo uma viagem ao Daguestão para consolidar a questão. Pouco tempo depois, Aue recebe guia de marcha para a frente russa em Estalinegrado.

 “Penso que deveríamos agradecer aos especialistas pelo seu notável trabalho. O encarregado das estruturas em Estalinegrado, pediu com urgência um oficial SD (Gabinete central de Segurança). Posso perguntar-lhe porque razão me propôs?  No meu estado-maior, desejo ter oficiais que compreendam o que se espera deles, sem que seja necessário explicar-lhes os pormenores”.

É importante analisar, pela curiosidade e até mérito que apresenta, um programa importante da ocupação bolchevique desta zona do mundo. Ela assentou naquilo que Voss sinalizou como sendo o oposto da política alemã. Lenine, perante a diversidade étnica, linguística, cultural e religiosa do Cáucaso, definiu pouco a pouco uma política das Nacionalidades verdadeiramente original. Estaline era nessa altura o comissário do povo para as Nacionalidades teve no programa um papel determinante. As nacionalidades implicavam um povo, um território e uma língua. Porém, as múltiplas línguas regionais eram quase apenas orais “…as línguas originais do Cáucaso, vagina dos povos”. Implantou, por isso, no território equipas de linguistas que levaram a cabo o levantamento de todas as oralidades e as transformaram em estruturas linguísticas escritas, que depois ensinaram aos habitantes ainda antes de os forçarem a aprender o russo. “Foi neste campo que os linguistas russos levaram acabo um trabalho formidável, colossal. Criaram alfabetos, na base dos caracteres latinos primeiro e a seguir do cirílico, para onze línguas caucasianas, bem como um grande número de línguas turcas, entre as quais as siberianas … estes alfabetos são, bem vistas as coisas, uma realização imensa, tanto mais que houve depois deles todo um mecanismo de educação. Em quinze ou às vezes dez anos, povos inteiros iletrados viram-se dotados na sua língua, de jornais, de livros, de revistas. As crianças aprenderam a ler a sua língua materna antes de aprenderem a ler russo”.

Foi um plano de rara inteligência e perspicácia, e de cujo resultado só poderia resultar a ocupação, o domínio e influência decisivos. “Você deve saber com certeza que os árabes, desde o século X, chamavam ao Cáucaso a Montanha das Línguas. Ninguém está de acordo quanto ao número exacto, porque continua a haver discussões sobre certos dialectos, mas a coisa anda á volta das cinquenta. Se raciocinarmos em termos de grupos ou de famílias de línguas temos as línguas indo-iranianas e as línguas indo-turcas. A política assenta, justamente, na língua”. Não faltou em todo este programa, como seria inevitável, a manipulação política: “Enfim, pior do que tudo, insistiram em que cada língua tivesse um alfabeto diferente. Linguisticamente, isso resulta em situações absurdas. Fizeram-no de propósito, é indubitável: tratava-se de uma decisão política e não linguística, que visava evidentemente separar o mais possível os povos vizinhos. …não deviam funcionar em rede, de modo horizontal, para se referirem todos eles de modo vertical e paralelo ao poder central, que assume a posição de arbitro último de conflitos que ele próprio não para de suscitar”.

Pequena nota: entre as páginas 259 e 265 desta parte do livro há uma pequena história entre Aue, um velho caucasiano, Ibrahim, e um Feldgendarme, Hanning. É um pequeno trecho, quase sublime, pela possibilidade de humanidade que deixa vislumbrar entre os homens: inteligentes e diversos. O desenlace foi igual a milhares de outros na Ucrânia: os judeus eram deslocados e levados aos magotes para longe das suas aldeias “para sua própria segurança”. “A sua segurança” estava no topo de uma ravina à beira de uma vala (comum). “Ele continuava a sorrir. Fogo, gritei eu a Hanning. O velho caiu como uma marioneta …jazia no fundo como um saco …continuando a sorrir levemente”.

  1. A origem, papel do nacional-socialismo através das SS e a solução final: É nesta questão que o delírio alemão deste período histórico é mais visível e dramático, constituindo a fonte e origem de muita da barbárie nazi. O Dr. Mandelbrod é um alemão de cepa prussiana, industrial e figura relevante do regime, apoiara e era amigo da família, sobretudo do pai e avô de Aue com quem trabalhara. Tinha inclusive sido ele a fazer a sua inscrição escolar em Kiel. A conversa com ele ocorre tempos depois de Aue se ter recomposto dos ferimentos tidos na campanha de Leninegrado e ter sido apreciado por esse trabalho. O Dr. Mandelbrod irá ter um papel importante no projeto da solução final*2 para a questão judaica e quer aproveitar os conhecimentos e experiência que Aue adquiriu na frente russa. Este, à partida, pretendia funções diferentes e ao nível das relações jurídicas com outros países europeus. Virá a aceitar a participar nesse programa. Começaram por falar do pai e do avô (“tinha olhos secretos, quase transparentes”) de Aue, mostra-lhe uma fotografia que tinha com ele e que Aue não conhecia nem o identificava a ele. A conversa desenvolve-se à volta da qualidade dos alemães do tempo deles e dos atuais, bem como do regime e das suas origens. “O teu pai era um autentico nacional-socialista e antes ainda de o partido existir. Na Alemanha, o teu pai foi dos primeiros a compreender que o socialismo era uma igualdade internacional de classes no interior da nação. À sua maneira, todas as grandes sociedades da história foram nacionais e socialista. Olha para Temüdjin*3, o excluído: foi só quando ele pôde impor uma ideia semelhante, e unificar as tribos nessa base, que os mongóis foram capazes de conquistar o mundo, em nome desse desqualificado que se tornou Imperador Oceânico, o Gengis Khan. Toda a infraestrutura do Império Russo, todos os alicerces a partir dos quais os alemães construíram em seguida o seu domínio na região, sob os Czares que eram de facto também alemães, foram lançados pelos mongóis: as estradas, o dinheiro, os correios, as alfandegas, a administração. Foi só depois de os mongóis terem comprometido a sua pureza, tomando geração após geração mulheres estrangeiras, muitas vezes procuradas de entre os nestorianos, os mais judeus de entre os cristãos, que o império se dissolveu e afundou. Os chineses apresentam um caso contrário: absorvem e sinizam irremediavelmente qualquer povo que nele entre. São muito fortes. Os japoneses nunca lhe resistirão. Se não for para já, será dentro de cem, duzentos anos. Mais vale mantê-los frágeis. O nacional-socialismo foi forjado por um judeu, um percursor do sionismo: Moïsés Hess*4. Não poder haver Volk e Blut sem Bodem e Terra*5, e que, portanto, é necessário conduzir os judeus à terra. Os judeus foram os primeiros nacionais-socialistas, há seis mil anos, quando Moisés lhes deu uma lei para os separar para sempre dos outros povos. Todas as nossas grandes ideias nos vêm dos judeus, e devemos ter a lucidez de o reconhecer: a Terra como promessa e como destino, a noção de um povo escolhido entre todos, o conceito de pureza de sangue. Era por isso que os gregos, abastardados, democratas, viajantes, cosmopolitas, os odiavam tanto, e foi por isso que tentaram de início, destruí-los. Leu o Festgab que editámos por ocasião do quadragésimo aniversário do Reichfürer? O Reichfürer, rodeado de homens como nós podemos afirmar as SS como força motriz da construção da Nova Ordem na Europa. Ouviste sem dúvida rumores: são verdadeiros. A partir de 1941, essa solução foi alargada a todos os países da Europa. Por amor e respeito pelo teu pai, Max ajudei-te, acompanhei a tua carreira, ajudei-te quando pude fazê-lo. Tens o dever de o honrar, e á sua raça, e á tua própria. Não há lugar nesta terra para mais de um só povo escolhido, chamado a dominar os outros. Serão eles ou seremos nós. E portanto, temos de os abater até ao último, extirpar a sua cepa. Não estou certo de ter entendido completamente. Mas que espera de mim, então? Nada a não ser que sigas o caminho que tu próprio traçaste pata ti, até ao fim. Não estou inteiramente certo do que possa ser o meu caminho”.
  2. A discussão técnico política em volta do nazismo e do fascismo: Uma das formas mais benignas de identificar o sentido crítico, embora convicto no essencial, de Aue sobre o regime nazi encontra-se na sua relação com o académico nazi Otto Ohlendorf. “Era um homem de uma inteligência notável, penetrante, decerto um dos melhores espíritos do nacional socialismo e um dos mais intransigentes; a sua atitude atraía-lhe muitos inimigos, mas para mim tratava-se de uma questão de inspiração. Soube mais tarde que no tempo em que era estudante em Kiel, fora preso e interrogado pela Gestapo pelas suas denúncias virulentas da prostituição do nacional socialismo”. Como é sabido, Mussolini foi o grande aliado de Hitler. Eis a sua opinião sobre o seu regime: “…fascismo italiano, culpado em seu entender, de divinizar o Estado sem reconhecer as comunidades humanas, ao passo que o nacional socialismo se baseia, por seu lado, na comunidade, a Volksgemeinschaft*6. Pior, Mussolini abatera sistematicamente todos os constrangimentos institucionais sobre os homens do poder. O que leva diretctamente a uma versão totalitária do estatismo, em que nem o poder e os seus abusos conhecem qualquer limite. Em principio, o nacional socialismo assentava na realidade do valor da vida do ser humano individual e do Volk no seu conjunto; assim, o Estado subordinava-se às exigências do Volk. Sob o fascismo, as pessoas não tinham qualquer valor em si próprias, eram objecto do Estado”. Acusa depois o nacional socialismo de desvios bolchevistas nas suas tendências coletivistas: “O objecto fundamental e decisivo das medidas de economia política devia ser o homem; a economia, e nisso podiam seguir-se em absoluto as análises de Marx, era o factor mais importante no que se refere ao destino do homem. Era verdade que uma ordem económica nacional-socialista ainda não existia”.
  3. Existe nesta obra uma discussão semelhante a esta; as diferenças entre o nacional socialismo, o bolchevismo/comunismo. Ela aparece numa entrevista que Aue faz a um politruk (comissário de regimento) bolchevista que havia sido preso. “Homem de meia idade, politicamente duro mas cordial, intelectualmente superior. Uma curiosa entrevista que Thomas me arranjou: “gostava que discutisse com certa pessoa, para falares de ideologia, veres um pouco o que eles têm na cabeça. És um espírito subtil, podes fazê-lo melhor do que eu”. Ah! Estou a perceber, queres que eu o abrande. “Exactamente”. Trazia o blusão curto dos tripulantes dos tanques. Tinha o rosto completamente esfolado. Tira-lhe as algemas, ordenei. Ficcionou os pulsos. “Simpáticos, os nossos traidores nacionais”, disse com humor. Apesar do sotaque, o seu alemão era claro. “Podem ficar com eles quando se forem embora”. Não nos vamos embora repliquei. “Tanto melhor! Isso vai evitar-nos termos de correr atrás deles para os fuzilar! Era militante bolchevista aos quinze anos. Em 1929 servi de interprete aos vossos oficiais que vinham treinar-se na Rússia soviética, testar as vossas novas armas e as vossas novas tácticas. Aprendemos muito com vocês. Os bolcheviques também cometem erros. Mas o que importa é que temos força de purgar regularmente as nossas próprias fileiras. É uma força que vocês não têm: o vosso partido apodrece a parti de dentro”. Entre nós também há problemas. Trabalhamos para tornar melhores o partido e o Volk”. “Afinal os nossos dois sistemas não são assim tão diferentes”. Uma declaração curiosa, essa vinda de um comunista. “Bem vistas as coisas, vocês copiaram-nos em tudo: a bandeira vermelha, o 1º de Maio, onde o comunismo vê uma sociedade sem classes, vocês pregam a Volksmeinschaft. Onde Marx via o proletariado como portador da verdade, vocês decidiram que a raça alemã é uma raça proletária. Substituíram a luta de classes, pela guerra proletária alemã contra os Estados capitalistas. Ao nível da economia as vossas ideias também não são mais do que a deformação dos nossos valores. Onde Marx estabeleceu uma teoria do valor baseada no trabalho, o vosso Hitler declara: “o nosso marco alemão, que não é suportado pelo ouro, vale mais do que o ouro”. O braço direito de Goebbels, Dietrich, explicava que o nacional-socialismo compreendera que a base de uma divisa é a confiança nas forças produtivas da nação e na Direcção do Estado. O dinheiro para vocês tornou-se um fetich que representa o poder produtivo do vosso país, portanto uma aberração total. Uma vez que vocês não quiseram imitar o marxismo, perverteram-no. A substituição da raça pela classe, que leva ao racismo proletário, é um absurdo sem sentido. Não mais do que a vossa noção da guerra das classes perpétuas. As classes são um dado histórico; apareceram num dado momento e do mesmo modo hão-de desaparecer, fundindo-se harmoniosamente na vossa Volksgemeischaft em vez de se dilacerarem. Ao passo que a raça é um dado natural, e por isso incontornável. As nossas ideologias têm em comum o seguinte aspecto fundamental: o de serem as duas essencialmente deterministas: determinismo racial para vocês, determinismo económico para nós, mas sempre determinismo em todo o caso. Vocês e eu acreditamos que o destino é imposto pela natureza e pela história. Concluímos ambos que existem inimigos objectivos e que certas categorias de seres humanos podem e devem ser legitimamente eliminadas, não pelo que fizeram ou sequer pensaram, mas pelo que são. Diferimos pela definição das categorias: para vocês: judeus, ciganos, polacos, doentes mentais; para nós os kulaques, burgueses, desviacionistas do Partido. No fundo a mesma coisa; recusamos ambos o homo economicus. …a NKVD (Comissariado do Povo para os Assuntos Internos) e a Gestapo, jardineiros do corpo social, que arrancam as ervas daninhas e forçam os homens a seguir os seus tutores. Tentei mostrar-lhe que os modos de funcionamento das nossas ideologias se assemelham. Para mim, o vosso nacional socialismo é uma heresia do marxismo. Este quer o bem de toda a humanidade ao passo que a vossa é egoísta, quer exclusivamente o bem dos alemães. Qual é a diferença, no fundo, entre um nacional-socialismo e o socialismo num só país? Porque nos envolvemos numa luta de morte como esta? Foram vocês que o quiseram, não fomos nós. Nós estávamos dispostos a arranjar as coisas. Mas é como no passado aconteceu com os cristãos e judeus: em vez de se unirem ao Povo de Deus com o qual tinham tudo em comum, os cristãos, sem dúvida por inveja, preferiram paganizar-se e virar-se para a sua desgraça. Foi um desperdício imenso”. Riposta Aue: “Apesar das nossas derrotas militares, o nosso partido e o nosso povo continuarão invictos. Agora, as coisas vão passar a correr em sentido contrário. Também vocês começam a desconfiar dos judeus. O problema não é o povo, são os vossos dirigentes. O comunismo é uma máscara colocada por cima do rosto inalterável da Rússia. O vosso Estaline é um czar. A mesma substituição do terror pelo senso comum, a mesma corrupção desenfreada. …desde os mongóis, tudo vos humilha e toda a política dos vossos governantes consiste em não corrigir essa humilhação e as suas causas, mas a escondê-las do resto do mundo. Os humilhados de 1917, do Estaline ao mugike, não fazem mais do que infligir aos outros o seu medo e a sua humilhação. A Petersburgo de Pedro não passa de uma aldeia à Potemkime*7: não é uma janela aberta para a Europa, mas um cenário de teatro montado para mascarar aos olhos do Ocidente toda a miséria e sujidade sem fim que se desdobram por detrás dele. E sempre que há uma ruptura real na vossa história, uma verdadeira oportunidade de saída desse ciclo infernal e de começo de uma nova história, vocês deixam-na passar; perante a liberdade, essa liberdade de 1917 de que você falava, toda a gente, tanto o povo como os dirigentes, recua e acaba por refugiar-se nos velhos reflexos já experimentados. Um dia, sem dúvida, a fachada comunista desaparecerá, com ou sem violência. …e na realidade vocês cometem crimes em nome dessa utopia”.

Este interessante, informado e inteligente diálogo de duas mentes brilhantes que teorizam pela positiva o cerne de dois sistemas políticos ignóbeis, que a história não validou e cujo rasto é constituído pelas páginas mais negras de um século, quiçá de toda a história da humanidade, espraia-se ainda por outros temas, como a aparente vitória dos alemães á sua chegada a Moscovo e o cerco de Leninegrado, ambos o princípio da derrota alemã.

“Nem você nem eu veremos o futuro que você descreve. Os lugares nos vossos aviões são demasiado poucos para decidirem evacuar um peixe tão miúdo. Sei perfeitamente que serei fuzilado daqui a pouco ou amanhã. Isso não me incomoda. Conhece o escritor Stendhal? Nesse caso, terá lido com certeza esta frase: “Não vejo senão a condenação á morte que distingue um homem. É a única coisa que não se compra”. Permita-me que não lhe aperte a mão”, disse o comissário com um pequeno sorriso irónico”.

“Também é pena que sejamos inimigos. Noutras circunstâncias seriamos capazes de nos entender”.

No final da conversa e após o comissário ter saído: “Não devia ter-lhe dado o maço todo, disse eu para comigo, não vai ter tempo de o acabar, e vão ser os ucranianos a fumar o resto.”

  1. A discussão do nacional socialismo à luz de Kant e do seu Imperativo Categórico, ocorre num sarau na casa de Eichmann em que Aue é convidado. A certa altura, e para desviar a conversa de uma anedota que um conviva contara sobre Goering, diz Eichmann:” Sturbannmfürer Aue, o senhor estudou, gostava de lhe pôr uma questão, uma questão séria.  Leu Kant, suponho. Estou a ler a “Crítica da Razão Pura”. E tenho reflectido muito sobretudo na questão do Imperativo Kantiano. Tal como o compreendo diz: o princípio da minha vontade individual deve ser tal que possa tornar-se o princípio da Lei Moral. Um dos meus amigos afirma que em tempo de guerra, em virtude do estado de excepção causado pelo perigo, o Imperativo Kantiano fica suspenso, porque bem entendido, aquilo que desejamos fazer ao inimigo não desejamos que o inimigo no-lo faça e, portanto, o que fazemos não pode tornar-se base de uma lei moral. …ainda não encontrei um argumento imparável que lhe prove que ele está errado. Todos convimos que num Estado nacional-socialista o fundamento último da lei positiva é a vontade do Führer”. “Creio que estou a ver onde quer chegar. Não há qualquer contradição entre este princípio e o Imperativo Kantiano. Ser livre é ser um vassalo, como diz o velho provérbio alemão. É necessário vivermos o nosso nacional-socialismo vivendo a nossa vontade como a do Führer. O erro do seu amigo é invocar um direito supranacional inteiramente mítico, uma convenção aberrante da Revolução Francesa. Todo o direito deve assentar num fundamento. Historicamente, este foi sempre uma ficção: Deus, o Rei ou o Povo. O grande avanço que fizemos foi fundar o conceito jurídico da nação sobre qualquer coisa de concreto e de inalienável: o Volk, cuja vontade colectiva se exprime através do Führer. O primeiro vassalo de todos é precisamente o Führer. O Führer não é senão puro serviço”. “Desculpem, interveio um dos convivas: mas Kant não era de qualquer maneira anti semita?” “Com certeza”, respondi eu. “Mas o seu anti semitismo continuava a ser puramente religioso, tributário da sua crença na vida futura. Nós ultrapassámos largamente essas concepções”.
  2. A questão judaica entranha todo o conteúdo deste espantoso livro. Tento, por isso, sintetizar apenas duas suas componentes que ao longo dele são abordadas e dada a complexidade e magnitude da questão: quem são para o nacional-socialismo os judeus, e porque se matam? A segunda questão, é abordada por JL de uma forma bem interessante, porque carregada de forte conteúdo psicanalítico. Quem são e como são, afinal, os judeus: ”Thomas tornou a beber, depois explodiu de novo: Sabes porque odiamos os judeus? Eu vou dizer-te: Odiamos os judeus porque são um povo ecónomo e prudente, avaro, não só de dinheiro e segurança mas das suas tradições, do seu saber e dos seus livros, incapaz de dom e de despesa, um povo que não conhece a guerra. Um povo que só sabe acumular e nunca desperdiçar. Em Kiev tu dizias que a chacina dos judeus era um desperdício. Pois justamente então, ao desperdiçarmos as suas vidas como o arroz que se atira durante um casamento, ensinámos-lhe a despesa, ensinámos-lhe a guerra. E a prova de que a coisa funciona, de que os judeus começam a compreender; a lição é Varsóvia, é Treblinca, Sobibor, Byalistok, é que os judeus começam a ser guerreiros, tornam-se cruéis, tornam-se também eles assassinos. Acho isto extremamente belo. Refizemos um inimigo digno de nós. E se os alemães não se sacudirem como os judeus estão a fazer, em vez de se lamentarem, não terão senão o que merecem”.

Porque é que os alemães “matam” os judeus: As razões que selecionamos encontram-se na descrição de uma conversa havida durante a visita que Aue faz em Piontek a casa do segundo marido de sua mãe, um descendente de um antigo aristocrata prussiano: Von Üxkküll. Está lá sua irmã Una e é nesta casa onde são mortos os seus dois filhos de uma forma que não chega a ser esclarecida, podendo supor-se por dedução que serão filhos de seu próprio irmão. “Porque é que os alemães se empenham tanto em matar os judeus? Engana-se se julga que são só os judeus. Os judeus são uma simples categoria de inimigos. Nós destruímos todos os nossos inimigos, quem quer que seja e onde quer que esteja. Sim, mas confesse que no caso dos judeus deram mostras de uma obstinação particular. Ao matarmos os judeus quisemos matar-nos a nós próprios, matar o judeu em nós, matar o que em nós se parecia com a ideia que fazemos do judeu. Matar em nós o burguês pançudo que conta os seus cobres, que anda atrás das honrarias e sonha com o poder, mas um poder que concebe sob as feições de um Napoleão III ou de um banqueiro; matar a moral mesquinha e tranquilizadora da burguesia, matar a economia, matar a obediência, matar a servidão do Knecht, matar todas essas belas virtudes alemãs. Porque nunca compreendemos que essas qualidades que atribuímos aos judeus, chamamos-lhe baixeza, indolência, avareza, avidez, sede de dominação e maldade fácil, são qualidades entranhadamente alemãs e que se os judeus dão mostras de tais qualidades, é porque sonham parecer-se com os alemães, ser alemães, é porque nos imitam servilmente como a própria imagem. E nós, pelo contrário, o nosso sonho de alemães era sermos judeus, puros, indestrutíveis, fiéis a uma lei, diferentes de todos e sob a mão de Deus. Ora a verdade é que estão todos enganados, tanto os alemães como os judeus, nos nossos dias, quer ainda dizer alguma coisa, quer dizer Outro, um Outro Modo talvez impossíveis, mas necessários. Os amigos de Berndt também não perceberam nada de tudo isto. Quanto a eles, diziam que afinal de contas o massacre dos judeus não tinha grande importância, e que matando o Hitler, podiam a atribui-lhe a culpa a ele, ao Himmler, à SS, a alguns assassinos doentes, a ti”.

  1. Não pode ler-se este livro sem que as temáticas do crime, culpa, castigo e arrependimento nos assaltem constantemente. Obvia e inevitavelmente, JL não fugiu a abordá-las. Mais do que isso, elas perpassam pela obra como cenário de fundo. É também da análise da condição humana neste território, que são visíveis algumas das influências de Dostoievsky neste seu trabalho, tal como noutras a são de Proust. “Falou-se muito, depois da guerra, para tentar explicar o que se passara, de inumano. Mas, queiram desculpar-me, o inumano é qualquer coisa de inexistente. Existe só o humano e mais humano. A necessidade, já os gregos o sabiam, é uma deusa não só cega, mas também cruel”.

JL compara depois o colonialismo alemão com os de França, Bélgica, Inglaterra e América do Norte. O francês “ostensivamente mais civilizado”, o alemão fracassado “a impossibilidade em que as nossas administrações pareciam encontrar-se de tratar os povos colonizados, alguns dos quais estarim dispostos a servir-nos se tivéssemos sabido dar-lhe certas garantias e não mais por meio da violência e do desprezo”. O belga violento “pensemos nos copiosos extermínios que os belgas efetuaram no Congo, na sua política de mutilação sistemática”. O inglês, considerado com exemplar “os ingleses precisaram do traumatismo de 1858 para começarem a desenvolver instrumentos de controle mais elaborados, a jogar com virtuosismo da alternativa da cenoura e do pau. …o pau estava longe de ser descurado”. O americano, vencedor “a América, tende-se a esquecê-lo, era tudo menos um espaço virgem, mas os americanos triunfaram onde nós falhámos”. “O homem não é naturalmente bom, mas não é também naturalmente mau: o bem e o mal são categorias que podem servir para qualificar os efeitos da acção de um homem sobre outro. …são necessárias instâncias reguladoras, que tracem limites aos desejos e arbitrem os conflitos: este mecanismo é a Lei. O crime refere-se ao acto, não à vontade. Édipo quanto mata o pai, não sabe que está a cometer um parricídio; a ignorância nada muda no que se refere ao crime; é um facto que o próprio Édipo reconhece e, quando finalmente descobre a verdade escolhe ele próprio a sua punição. A ligação entre a vontade e o crime é uma noção cristã que persiste no direito moderno. …para um bom alemão, ser um bom alemão significa obedecer ás leis e por isso ao Führer. Quanto a moralidade não pode haver outra, pois nada poderia fundá-la (e não é um acaso que os raros opositores ao poder, tenham sido na sua maioria crentes; conservaram uma outra referência moral, eram capazes de arbitrar o Bem e o Mal que não era o constituído pelo Führer, e Deus servia-lhes de ponto de apoio ao traírem o seu chefe e o seu país). Portanto, se se desejar julgar as acções alemãs durante a guerra como criminosas, será a toda a Alemanha que deverão pedir-se contas. Um soldado, quando é enviado para a frente, não protesta; não só arrisca a vida como é obrigado a matar, ainda que ele não queira matar, a sua vontade abdica. O homem que é colocado num campo de concentração, ou num batalhão de polícia, sabe que a sua vontade nada tem a ver com esse facto e que só um acaso o torna um assassino ou um herói, ou um morto. Os homens têm necessidade de ser guiados o que não é culpa sua”.

Em termos individuais, será bom lembrar o que Eichmann afirmou durante o seu julgamento em Jerusalém: “Os remorsos são bons para as crianças”.

  1. Uma palavra final sobre Thomas, uma espécie de eminência parda na hierarquia nacional-socialista nesta obra. Que está em todas, ou quase, tudo parece resolver, tudo e todos conhece: “Thomas, pelo seu lado, era decerto um homem de convicções, visivelmente, inteiramente compatíveis com a ambições que procurava realizar e com o seu prazer”. É um perfil conhecido.

“AS BENEVOLENTES” é uma obra sobre a maldade, a crueldade e a ignomínia humanas na sua plenitude. O lado mais negro, a zona das trevas (ver Agustina Beça Luís, 2002 in “O Princípio da Incerteza” e Conrad, J., 1902 in “O coração das Trevas), o lado oculto, denegado, racionalizado, sublimado da condição humana; poço bem fundo e duro a que nem Freud conseguiu descer totalmente. Mas que existe. É uma teia complexa, inexorável e globalizada da banalização do mal (Arendt, H., 1963 in “Eichmann em Jerusalém”). Devia ler-se e não se acreditar. Mas lê-se e acredita-se. Porque as fatalidades, não o são tanto como parecem ser.

Uma aparente, mas próxima, fusão entre o romance e a história que faz de JL, a continuar com este vigor literário no interior da condição humana e a partir de realidades históricas ou de outras, um escritor a acompanhar, e que poderá vir a perfilar-se como um futuro e promissor Nobel.

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*1. “AS BENEVOLENTES”: São as Deusas da perseguição e da vingança na mitologia grega. JL acaba o seu livro dizendo: “Estava febril, o meu espírito partia-se aos bocados. Estava triste, mas sem saber porquê. Sentia de repente todo o peso do passado, da dor da vida e da memória inalterável. As Benevolentes tinham descoberto o meu rasto”.

*2. Na conversa, Mandelbrod cita o primeiro ministro inglês Chamberlain para defender a solução final como processo de substituição da raça judaica pelas raça ariana: “o Ebreu é uma raça sem mescla… uma raça sem mescla e com uma organização de primeira classe, a aristocracia da Natureza. Nenhuma lei penal, nenhuma tortura física pode fazer com que uma raça superior seja absorvida por uma inferior, ou destruída por ela. As raças perseguidoras misturadas desaparecem; a pura raça perseguida permanece.

*3. Temüdjin: Nome original, ao nascer, do Imperador Mongol, atualmente conhecido como Gengis Khan, nascido junto do rio Onon nas imediações do lago Baikal.

*4. Moïsés Hess: Percursor do sionismo e defensor do messianismo judaico. Estudou na universidade de Bona e viveu em França. Amigo e colaborador de Marx e Engels com quem inicialmente partilhou muitas ideias. É dele a expressão:” a religião é o ópio do povo”.

*5. Volk e Blut sem Bodem e Território: Povo e Sangue (laços de sangue) sem terra e território. Relativo às ambições judaicas e à sua diáspora.  

*6. Volksgemeinschaft: Comunidade de povos perfeitos para significar o apuramento

da raça ariana, que a seria constituída liberta das raças inferiores.

*7. Potemkime: Nome de um militar da corte de Catarina a Grande e seu amante. Nome dado a um couraçado russo da frota do mar negro, capturado pelos alemães em 1918, sendo mais tarde recapturado e entregue aos aliados que o desmantelaram em 1922.

 

Outras obras de JL

Bad Voltage, 1989.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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