Letras @CORdadas – Gore Vidal

por Miguel Alves | 2019.03.05 - 16:38

Gore Vidal (1925-2012)

Prémio National Book Award, 1993

Prémio National Book Foundation, 2009.

Eugene Luther Gore Vidal nasceu em novembro de 1925 no hospital da academia militar de West Point no estado de Nova York. Morreu em sua casa na cidade de Los Angeles. Seu pai foi um veterano da Força Aérea norte americana, tendo nascido quando ele era instrutor na academia militar mais importante e prestigiada dos USA. Seu pai foi ainda membro da casa presidencial de Theodore Roosevelt e o seu avô foi membro do Senado americano.

Foi romancista, dramaturgo, ensaísta e roteirista a par de uma grande atividade como ativista político e candidato a cargos políticos. Com uma enorme capacidade de observação e crítica das políticas belicistas dos USA, foi alvo de perseguições por parte das alas mais conservadoras da vida política norte americana, chefiadas pelo senador Joseph McCarty (1908-1957) que ficou famoso pela subversão comunista generalizada que afirmou existir na administração do Presidente Truman, na Secretaria de Estado, na Voz da América e no Exército Americano. Acabou censurado no Senado por 67 votos contra 22 em 1954, facto que fez dele um dos casos mais excecionais da história americana. GV chegou a candidatar-se como democrata ao congresso norte americano contra John Kennedy tendo obtido mais 70.000 votos que o futuro presidente americano. É, porém, como ensaísta que GV melhor se revela nas suas capacidades criativas “O melhor ensaísta do século XX”, segundo o crítico literário John Keats.

GV estudou na universidade de New Hampshire tendo publicado o seu primeiro romance (Williwaw) quando tinha 21 anos e prestava serviço nas Forças Armadas. Residiu temporariamente em Itália, tendo sido alvo de censuras pelo facto de criticar as políticas do seu país a partir do exterior, circunstância que lhe retiraria, supostamente, algumas condições objetivas para o fazer (“a imaginação de Vidal sobre a política americana é tão poderosa que induz reverência”, afirmou o crítico literário Harold Bloom).

A obra de GV na década de cinquenta foi escrita sob o pseudónimo de Edgar Box e gira á volta de um técnico de relações públicas de nome Peter Cutler Sargeant e cujo sucesso financiou o seu trabalho por mais de uma década. Também durante essa década (1956) foi contratado pela Metro Goldwyn Mayer, tendo escrito o guião do histórico filme Ben-Hur, mas que posteriormente viria a ser envolvido em polémicas acabando por não constar como seu autor original.

Quero hoje @CORdar uma das obras da trilogia de GV sobre a construção do Império Americano a partir dos finais do século XIX e do principio do século XX: “Império”, 1987.

É um romance histórico que abarca parte do mandato do assassinado presidente McKinley (“..fora o primeiro presidente barbeado. Embora não houvesse um estilo discernível naquilo que dizia, a maneira como falava era, simultaneamente, inspirada e sedativa. De estatura média, rosto grande e barriga igualmente grande, alta e firme, contida por um elegante colete de piqué branco. Parecia acima de tudo como um cardeal italiano do século XVII: suave, inteligente, vigilante”) e do surgimento na sociedade militar e política americanas do futuro presidente Roosevelt. Roosevelt (1882-1945) foi vice-presidente de McKinley (1843-1901) tendo-o substituído após o assassinato deste para, de seguida, ser eleito presidente em novo mandato. Outra componente importante desta obra de GV diz respeito às guerras dos USA com a Espanha de que resultaram a conquista das Filipinas e Cuba ao nosso país vizinho, assim como das polémicas opções que se defrontaram na sociedade política americana entre aqueles que defendiam a construção do império e os que entendiam que o país já era suficientemente grande, e exigente o seu governo e desenvolvimento (“ A emenda é clara quanto a nós podermos ficar com Cuba. Mas irá o Senado tentar alargá-la ás Filipinas? Se o Tratado passar, o arquipélago é nosso. Pago a pronto à Espanha. Vinte milhões de dólares por dez milhões de filipinos”).

A trama romanesca circula à volta dos media americanos na altura em plena pujança de nascimento / crescimento.

É uma obra que se desenvolve nos círculos internos das elites económicas, militares e políticas americanas que GV conheceu muito bem e onde cresceu e se desenvolveu. É, por isso, um autor decisivo para conhecer os circuitos do poder nos corredores na Casa Branca e no Congresso americanos e de que pode extrair-se um conhecimento aprofundado de aspetos históricos e culturais da sociedade americana que ainda hoje a caraterizam. Ao ler GV em torno das elites americanas, entendem-se muitas das idiossincrasias da sociedade americana que ainda hoje nos espantam, mas que nos visualizam uma certa “fatalidade” na sua permanência e inelutabilidade.

É uma obra que ajuda a desmistificar a “inexistência de história” da nação americana. O desvalor que frequentemente se lhe dá, resulta da sua riqueza e proximidade ao tempo atual e a que só a passagem do tempo poderá conferir o brilho da patine que efetivamente tem. É pertinente ler GV para entender a sociedade americana e perspetivar os seus valores intemporais, porque profundamente arreigados na sua matriz fundadora, políticos e culturais. Um desses valores dominantes é o dinheiro, o lucro, a economia como instrumentos de domínio e afirmação (“vim aqui para ajudar a espinha dorsal deste país, os negócios. É disso que o nosso partido é feito. Somos pelas taxas aduaneiras. Somos pela indústria americana em primeiro lugar e sempre. Temos aqui um país muito grande para cuidar”).

Esta obra é escrita à volta de famílias e personagens políticas reais e autênticas que dominaram a sociedade e política americanas nos finais do século XIX e princípios do século XX, muitas delas ainda fazendo parte da Guerra Civil Americana. Famílias como os Sanford, Adams, Cameron, Astor, Delacroix, Belmont, Vanderbilt, Apgar, Bingham, Souvestre, Whitney, Payne  e outras; políticos como Roosevelt, o Secretário de Estado John Hay (1838-1905), a eminência parda que perpassa por toda ela. Um dinossauro humano e político, membro do Congresso, embaixador em Londres, Secretário de Estado e sempre um possível presidente, que nunca quis ser, sem, no entanto, quase nunca sair dos círculos próximos da presidência (“fora o garoto secretário de Lincoln. …o rapaz de passo vivo transformara-se num homem de movimentos lentos. Foi respeitosamente saudado por numerosos funcionários cujas funções lhe eram tão desconhecidas como as suas pessoas. Mas fingiu reconhecer toda a gente, o truque do político, com um erguer de sobrancelha se a cara lhe parecia remotamente familiar, uma inclinação de cabeça se não; a urbanidade era a plataforma comum do político. Era a voz culta do partido republicano, como homem de letras, o seu poeta laureado, como homem, o seu elo vivo com o sacrificado Lincoln. Hay dizia normalmente que os outros queriam ouvir ”).

Roosevelt: dele afirmou Henry Adams: “sombria nulidade paginada e impressa na chamada American Ideals. Simplesmente americano. Previne-nos de que o homem culto não deve entrar na política como homem culto, porque está fadado a ser derrotado por alguém sem qualquer cultura mas, percebem a coisa, aconselha a quem entre nas eleições que o faça como se não tivesse qualquer cultura, apresentando-se ao eleitorado como simplesmente americano, caso em que ganhará que é o que importa. Ele é todo energia. Suponho que essa é a sua atraccão. Para quem acha atraente e energia bruta acéfala. Ele não é acéfalo, bem, não o é totalmente”.

São estas duas personagens históricas que ocupam o núcleo central desta obra, a par das figuras da sua componente romanesca: Caroline (“perturbantemente directa em questões triviais, e impenetrável quando se tratava daquelas coisas que tinham de ser levadas a sério, como o casamento. …também ela podia usar um jornal para mudar o mundo. Sentia vertigens a pensar em todas as possibilidades. Mas antes, tinha de se ocupar da sua herança. Preparava-se para se elevar a novas alturas de insinceridade. Mentia tão raramente que agora achava muito  fácil fazê-lo”), Blaise, meio irmão de Caroline cujas relações são marcadas pela intriga que rodeia a morte da mãe de ambos e do respetivo testamento, tendo como base uma data e uma idade de Caroline para poder reivindicar a sua execução. Ambos de origem e cultura francesa numa família da alta burguesia, os Delacroix por parte da mãe e Sanford por parte do pai americano, fazem dos USA o seu novo mundo em contraponto com o das suas origens (“A casa em Saint-Cloud era um palácio construído por um dos arquitetos menos competentes de Luís XV”). Del filho de Hay é considerado e apresentado como a melhor proposta de casamento para Caroline, mas morre precocemente, pouco tempo depois de ter cumprido missão na África do Sul e quando lhe perspetivavam uma carreira brilhante na política, deixando Hay amargurado, resignado e mais melancólico. Day, assistente do fiscal da moeda Dawes que fora renegado e não pôde fazer parte do gabinete de McKinley é um “jovem esbelto, ascendente, esguio …gótico” com quem Caroline se irá envolver gerando-lhe um filho que só mais tarde saberá ser seu após um rocambolesco e estranho casamento de fachada, mutuamente aceite com um advogado, de Caroline, para lhe atribuir o estatuto social de mulher casada e mãe e, assim, poder manter oculta a relação com Day.

Ao longo desta volumosa obra de GV espraia-se também um rol infindo de personagens e figuras relevantes da história dos USA à época que é curioso e instrutivo conhecer, e através das quais podemos vislumbrar o paradigma que sustenta a história e cultura desta notável nação.

Vejamos alguns:

Lord Pauncefote (Pouncefote, 1828-1902), advogado convertido em diplomata do Reino Unido nos USA foi o obreiro do tratado Hay-Pauncefote assinado entre os USA e o Reino Unido em novembro de 1901 que permitiu a construção e respetivas vantagens do Canal do Panamá pelos USA. Substituíu o tratado Clayton-Bulwer de 1850 que impedia a construção do canal apenas por um destes dois países. Tal aconteceu por força da pressão dos grandes interesses americanos perante os quais os ingleses abdicaram na esperança de ambos contrabalançarem a influência alemã na américa central e do sul. Tal cedência é considerada um dos processos que iniciaram a decadência do império britânico a nível global e do surgimento do “império” americano que o substituiu no poder mundial (“Quando a fraca Inglaterra começa a afrouxar o seu controle do mundo, e quando a Alemanha, a Rússia e o Japão se acotovelam mutuamente para ocupar o lugar da Inglaterra, o Major (McKinley) ultrapassa-os a todos, toma posse e o oceano pacífico é nosso! …os novos polos de poder serão a Rússia, nos territórios orientais, e os Estados Unidos, a ocidente, com a Inglaterra, enfim nossa, no meio dos dois. Se não pegarmos no que a Inglaterra largou, ou de que simplesmente desistiu, quem o fará? Faríamos bem em arranjar um império de baixo preço, partindo do princípio que os ingleses largarão o deles. Quando a história começa a mexer-se debaixo de nós, o melhor é ver como havemos de montá-la, se não somos cuspidos. O que a Inglaterra foi, somos nós agora a partir de hoje. A Ásia é nossa. A aquisição de um império civilizou os ingleses”).

Elihu Root (Root,  1845-1937), membro da família Withney, foi senador republicano pelo Estado de Nova York, e Secretário da Guerra em cujas funções participou na criação e ampliação da Academia de West Point no mandato de McKinley. Secretário de Estado no mandato de Roosevelt, negociou 75 tratados internacionais e esteve na origem do Tribunal Permanente de Justiça Internacional dependente da Sociedade das Nações. Foi considerado no seu tempo como o protótipo do político sábio. Em1912 foi laureado com o prémio Nobel sobretudo por estas últimas funções (“Root dava mais prazer a Hay do que o resto do flagrantemente sombrio gabinete todo junto. O seu cabelo estava cortado curto como o de Júlio César, com uma franja escura sobre a testa e um modesto bigode. Os olhos escuros eram tão rápidos como o espírito. E o sorriso, fugidio, era ao mesmo tempo franco e agradavelmente mortífero. As frases de Root eram como facas atiradas a um alvo. Nunca falhavam. Acabei de dividir Cuba em quatro circunscrições militares, um pouco á maneira do que fizemos no sul em 1865. A seu tempo sairemos de lá, mas, nessa altura, o que vai a acontecer a Cuba?”).

Henry Cabot Lodge (Cabot, 1850-1924), membro da Câmara de Representantes, senador republicano e historiador. Doutorado em Harvard, foi membro de uma das famílias mais proeminentes da política americana desde os finais do século XIX. Especialista em política internacional, ficou conhecido pela sua dissidência com o presidente Wilson na assinatura do Tratado de Versailhes que redefiniu a Europa no fim da I guerra mundial em 1919. Muito próximo de Roosevelt patrocinou e defendeu a anexação das Filipinas após a sua conquista, assim com as restrições à emigração que vigoraram no seu tempo (“Lodge, verdadeiro político, sempre no máximo da sua atração quando enfrenta cara a cara um inimigo implacável. Lodge mentia com verdadeira sinceridade. Não pode suportar que outra pessoa seja o centro das atenções. Era sua serena convicção que só ele sabia o que os USA deveriam fazer em matéria de negócios estrangeiros. Do seu alto assento no Senado Republicano conduzia a administração como um boi relutante, para a anexação, se possível, do mundo inteiro. Sempre o detestei, ao mesmo tempo que a sua amizade me encantava. Penso que o problema do Cabot é a timidez. Talvez o fosse e disfarçasse o facto com comentários infindáveis, interrompidos por súbitas actos de traição aos amigos. A vaidade e má fé de Cabot eram duas constantes da vida de Washington. Cabot vai ser o rochedo onde Theodore se afundará”).

Seu filho, Henry Cabot Lodge Jr. (1902-1985), viria a ser embaixador americano nas Nações Unidas no mandato de Eisenhower, senador e candidato a vice-presidente na candidatura de Richard Nixon que viriam a perder para John Kennedy. Foi o primeiro senador a participar numa guerra depois da guerra civil americana, a II guerra mundial, tendo servido como tenente coronel na Itália e em França. Por essa participação, foi tornado membro da Legião de Honra pelo governo francês. Foi um dos grandes diplomatas da guerra fria a partir da sua ida para Saigão no Vietnam como embaixador na presidência Kennedy. Aí tentou organizar um golpe de Estado que depusesse o governo corrupto do presidente Diem e seu irmão, chefe da polícia secreta, ao mesmo tempo que lhes oferecia asilo nos USA. Ambos acabaram assassinados em 1963. Regressou aos USA para tentar a nomeação presidencial pelo partido republicano tendo ganho apenas as primárias no seu Estado. Regressaria ao Vietnam, depois à Alemanha e à Santa Sé como embaixador. Acabaria a sua carreira como chefe da delegação americana aos acordos de paz de Paris (Gif-sur-Yvette) em 1969 e que poriam termo à guerra do Vietnam, a primeira, enorme e dramática derrota militar da história dos USA. Recordo-me perfeitamente desses tempos e do seu nome estar diariamente presente em todos os boletins de notícias.

William Jenning Bryan (Bryan, 1860-1925): político e orador notável do partido democrata oriundo do Nebrasca. Foi o candidato presidencial mais jovem da história dos USA, tendo repetido a candidatura três vezes sem nunca ser eleito. As duas primeiras, 1896 e 1900, contra McKinley e a última contra o candidato proposto por Roosevelt, William Taft. Foi membro da Camara dos Representantes e Secretario de Estado no mandato democrata do Presidente Wilson. Defendeu a neutralidade dos USA na I guerra mundial, circunstância que o forçou a pedir a demissão. Foi um feroz opositor da teoria evolucionista de Darwin por alegados motivos religiosos e humanitários. Era conhecido como “o grande povo” (…”inflamado populista e inimigo dos ricos. A lua se tingiria de sangue por toda uma geração se Byran vencesse”).

Aaron Burr (Burr, 1756-1836), advogado, foi o terceiro vice-presidente dos USA no mandato de Thomaz Jefferson. Antes fora oficial na Guerra Revolucionária Americana. Eleito duas vezes para a Assembleia do Estado de Nova York, foi Procurador Geral do mesmo Estado, posteriormente Senador pelo mesmo Estado e no final da sua carreira Presidente do Senado (“Burr fora despojado, por pouco, da presidência; fora despojado por bastante mais para falar, claro, da coroa do México. Vivera o suficiente para ver outro dos seus filhos ilegítimos, se o boato era verdadeiro, tornar-se Presidente. Tinham-lhe chamado traidor mas, na verdade, Burr fora algo muito pior e mais perigoso para o seu mundo: um sonhador. Devido a essa característica sublime e subversiva, encantara Caroline”).

Marcus Hanna (Hanna,1837-1904), de origem escocesa-irlandesa, foi empresário e político republicano que participou por pouco tempo na Guerra Civil Americana. Senador pelo Estado de Ohio foi presidente do Comité Republicano. Tentou a sua nomeação para presidente em 1884, tendo falhado para Sherman. Como empresário, foi a sombra financeira dos dois mandatos de McKinley e aquele que abria todas as portas (“Um rico merceeiro chamado Marc Hanna, apelara para uns tantos outros homens ricos, entre os quais se encontrava Hay, a fim de pagarem a promissória e salvarem a lua dum destino sanguinolento. McKinley era um fantoche de Marc Hanna, mas quem tivesse conhecido os dois homens ainda no Ohio, sabia que o presidente era o perfeito animal político. Infinitamente astuto e cheio de recursos, genial na previsão da viragem da opinião publica e na capacidade de então fazer vibrar a corda certa. Hanna era apenas um angariador de fundos”). Dominou setores vitais da economia americana como o carvão e o aço, com os quais participou na construção do canal do Panamá.

William Hearst (Hearst1863-1951), foi o primeiro e um enorme empresário dos media da sociedade americana. Editor e político, criou a primeira e maior rede de jornais e revistas existente no seu tempo: a Hearst Communications que chegou a ser a maior do mundo na área, com um número aproximado de vinte milhões de eleitores. Criou o chamado jornalismo amarelo que hoje poderia ser equiparado ao português CM. O seu primeiro jornal foi o The San Francisco Examiner. Chegado a Nova York entrou em guerra com outro grande nome do ramo, o grupo Pulitzer. Controlava e condicionava a vida política e os políticos com os seus editoriais e manchetes muitas vezes lúgubres, sensacionalistas, escandalosos e ás vezes falsos. Com eles forçou a guerra com Espanha nos anos noventa do século XIX. Chegou a ser membro do congresso pelo partido democrata, falhando todas as metas para que se serviu do seu império mediático: presidente, perfeito da cidade de Nova York e governador da mesma cidade. Após o fim das I guerra mundial, foi um feroz anticomunista depois da revolução russa, nacionalista e isolacionista, foi contra a criação da Sociedade das Nações e apoiante de Roosevelt na década de trinta do século XX. Mau administrador e muitas vezes falido, todos seus ativos foram executados na grande depressão americana. A sua exuberante casa sobre o pacífico, o Hearst Castle, é considerada monumento histórico do Estado. Orson Wells legou-nos no cinema a sua história com Citizen Kane em 1941 (”…era considerado altamente empreendedor, num certo sentido criminoso, cuja especialidade, segundo a malta dos jornais, era crimes e roupa interior, uma combinação irresistível que, em dois anos, conseguira pôr de rastos o New York World de Pulitzer. Viciado em cabeçalhos, pontos de exclamação e cadáveres de mulheres nuas de preferência excitantemente esquartejados. Embora fosse nominalmente democrata e de tendências populistas, lidava imparcialmente com os políticos de todos os tipos. Eles precisavam dele e ele precisava deles. Totalmente impossível de educar, altamente intuitivo atingia o cerne das questões antes de qualquer outra pessoa. …é um verdadeiro patife, fará fortunas. Foi feito para estes tempos degradados. Era generoso, mas não estabelecia amizades e não era visto nos clubes masculinos do seu nível social. Achava-se perfeitamente satisfeito por ficar onde estava, cá fora, mas aterrorizando os que estavam lá dentro. Príncipe negro, ou melhor amarelo vivo, do jornalismo. Nada do que o senhor Hearst publica é verdade, inclusive a história de como os espanhóis fizeram explodir o Maine. O plano fora tão grosseiro quanto sinistro. Fizera com que o Maine fosse pelos ares, a fim de aumentar a circulação do Journal.  …vão agir como se o que lêem fosse verdadeiro ou, o que é pior, como se, verdadeiro ou falso, fosse a única coisa realmente importante.   É assim que os governos actuam, reagindo às noticias”).

Almirante George Dewey (Dewey,1837-1917) é o herói da conquista da baía de Manila e das Filipinas aos espanhóis. Participara na guerra civil como tenente no controle do Mississípi e conquista de New Orleans nas forças da União. Na guerra com Espanha e na batalha de Manila afundou toda a frota espanhola sofrendo baixas muito reduzidas. Foi uma das figuras apontadas com candidato presidencial aquando da reeleição de McKindley e ele próprio alimentou essa ambição (“Decidi quem será o novo Presidente. Quem? O Almirante Dewey, Herói de Manila “Pode disparar quando estiver pronto” “Não disparem até lhe ver o branco dos olhos”. Mas ele disse essas coisas? Derrotou os espanhóis e trouxe-nos Manila. Se ele quiser, propomo-lo como candidato contra McKindley. Mas quererá ser presidente? Oh aqui toda a gerente quer. É por isso que nos intitulamos uma democracia. De facto, qualquer um pode ser Presidente, especialmente se o Journal (de Hearst) o promover bem”).

General Nelson Milles (Milles,1839-1925) também serviu na Guerra Civil Americana nas hostes da União, tendo participado nas batalhas com os índios, assim como na guerra com Espanha. Comandou o 61º regimento de voluntários de Nova York em 1862. Após a guerra foi comandante do Fort Monroe na Virgínia onde esteve preso o ex presidente confederado Jefferson Davis. Teve que defender-se de hipotéticos maus tratos ao ex presidente. Tal como Dewey, Milles foi também um hipotético candidato presidencial e na altura Chefe do Estado Maior (“Milles pode ser um assombroso general, Chefe do Estado Maior. Mas não passa disso, é um general. “Pavão corajoso” na opinião de Roosevelt”).

Henry Adams (Adams,1838-1918) foi um importante historiador americano membro da família Adams e descendente de dois presidentes americanos. Graduado em Harvard, foi secretário de seu pai quando este era embaixador em Londres no tempo do presidente Lincoln. Jornalista dos mais notáveis do seu tempo, á sua volta girava muito do mundo político e intelectual do seu tempo. Foi autor da história dos USA entre os presidentes Jefferson e Madison. Foi vencedor do Prémio Pulitzer em 1919 (“…neto e bisneto de Presidentes, possuía uma barba toda branca, cuidadosamente aparada em bico, um grande bigode, uma cabeça calva, comprida, rosada e brilhante e uma enorme barriga sempre um tudo nada inclinada para a frente a fim de equilibrar  devidamente a pequena figura redonda que existia apenas para sustentar a grande cabeça redonda, a abarrotar de miolos, do maior historiador, do espírito mais vivo e do maior distribuidor de pessimismo da América”).

Peter Brooks Adams (Brook,1848-1927), irmão de Henry Adams, foi um historiador e cientista político formado em Harvard. Teorizou os ciclos económicos e o crescimento baseado na construção de agregados populacionais. Com o seu desenvolvimento surgem a ganância, a decadência dos valores, a desonestidade e o colapso social. Em “A Lei da Civilização e Decadência,1895” previu a hegemonia económica mundial dos USA afirmando que à medida que surgiam os grandes centros populacionais do oeste americano, os centros do comércio mundial mudar-se-iam para Constantinopla, Veneza, Amesterdão e Londres. Foi nomeado membro da Academia das Artes e Ciências dos USA em 1918. (“A Inglaterra e os Estados Unidos, uma decadente, os outros ignorantes mas educáveis. Descobrira o declínio da Inglaterra através da sua literatura. Essa a nossa tarefa, no sentido de apoiar os interesses judaicos o que, simultaneamente, pode salvar-nos na luta eminente entre a Europa e a América, que eu calculei não deva começar depois de 1914, pois há apenas dois vencedores possíveis: os Estados Unidos e a Rússia. A Rússia tem de expandir-se drasticamente pela Ásia, ou sofrer uma revolução interna. É por isso que temos de rezar para que haja guerra agora. Não a grande guerra futura entre os hemisférios, mas a guerra que nos assegure a posse de toda a Ásia. Ele vai ter a possibilidade de subjugar toda a Ásia e de dar assim á América a herança da Terra, que é o nosso destino escrito nas estrelas (sobre Roosevelt após o assassinato de McKinley). A guerra é o estado natural do homem. Oh! Pela energia. Toda a civilização é centralização”).

Henry James (James,1843-1916) de descendência americana e inglesa numa família de grandes nomes da literatura, é considerado um romancista de transição entre o realismo e o modernismo e dos maiores romancistas de língua inglesa. Irmão de William James, a sua obra lida sobretudo com as relações sociais, políticas e conjugais entre os emigrados ingleses e europeus em que predomina a ambiguidade, caraterística que o faz comparável ao impressionismo na pintura.  E um laureado Nobel nos anos de 1911, 1912 e 1916 (“a encarnação de toda a glória literária. …encantado com a minha eleição para algo intitulado Instituto Nacional de Artes e Letras, que deu á luz uma Academia Americana, versão rústica da vossa Academia Francesa, cerca de meia centena de membros cujas almas, se não os feitos, afirmam ser imortais. Voz profunda de barítono, mas fascinante, um violoncelo e uma flauta tocando simultaneamente. O Senhor James é realmente um mestre. …De uma arte bastante superior á mera política. Porque é que os americanos são tão obcecados com a religião. Na ausência de uma civilização, o que lhes resta?”).

 

O “Império” é uma obra de análise do poder nas suas diversas cambiantes: a economia, os negócios, o dinheiro, a corrupção, a enorme, grande e pequena intriga. Obra fluída, erudita, apaixonante e muito informada. Com personagens notáveis alheias aos seus mecanismos mais sinistros e indiciadores de outros valores que induzem a possibilidade de a política poder ser diferente. Com a cultura como alter ego de aviso, de farol para outros rumos e decisões. Com as mulheres como notáveis adereços, mas plenos de pujança interior e sabedoria a que é impossível ficara alheio. Muito do futuro terá que passar por elas.

Pois não fora Jackson que começara a era da corrupção política que agora floresce? Quando Lincoln se interrogara, uma vez Secretário de Estado da Guerra, se Simon Cameron roubaria, um seu colega da Pensilvânia observara que, bem, talvez ele não roubasse um fogão em brasa. Simon exigira desculpas. O congressista acedera, com as seguintes palavras: creia-me, eu não disse que você não roubaria um fogão em brasa. Lincoln estava apenas a começar a fazer dinheiro como advogado dos caminhos de ferro quando foi eleito; quando estava em duvida acerca de alguma coisa, o senhor Lincoln escrevia sempre dois memorandos: um a favor e outro contra”. Jefferson afirmou que “se tivesse que escolher entre um governo sem empresa e uma empresa sem governo, escolheria uma empresa sem…”. Washington era uma cidade que, embora nunca sentisse a falta de ninguém, também nunca esquecia ninguém. Eu nunca conseguiria apanhar dinheiro à Standar Oil como você o fez. Você e o seu género não se aguentarão eternamente. O futuro está no homem comum, e há muito mais deles do que de vocês. O que explica a razão pela qual esse nobre cidadão tem vindo a adiar as suas provas de corrupção, sabe-se lá se há anos, não para auxiliar a justiça, mas a sua própria carreira. Vamos precisar de um governador que seja dos nossos, um género de tipo excelente com que possamos fazer negócios. Não é candidato, é novo demais para ser posto na prateleira e pobre demais para o cargo.

Ressaltam ainda desta obra uma profecia cumprida e uma dúvida pertinente.

A PROFECIA: ”Viria o tempo em que os homens abastados comprariam os importantes cargos públicos, como aconteceu durante a decadência de Roma. Adams achava que tal práctica era bastante comum. Muitos legisladores estavam à venda”.

A DÚVIDA: “Os americanos acreditariam no que realmente diziam, ou teriam apenas medo daquela sinistra maioria cuja ignorância e energias davam corpo à nação?”.

 

 

 

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Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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