Letras @CORdadas – Fernando Pessoa

por Miguel Alves | 2016.05.26 - 13:38

 

 

 

(Fernando Pessoa, 1888 – 1935)

 

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa. Foi poeta, crítico literário, tradutor e, por força do seu gosto pelo esoterismo, também astrólogo. Todas profissões secundárias, face à dimensão universal de que a sua obra poética é portadora. FP é o maior poeta português depois de Luís de Camões. Deve, de qualquer forma, ser valorizada a sua elevada qualidade como tradutor, já que traduziu Shakespeare e Edgar Alain Poe para português, e para inglês os nossos António Boto e Almada Negreiros.

FP cresceu e foi educado na África do Sul nos cânones do catolicismo de uma escola irlandesa. Foi para aquele país com sete anos de idade com sua mãe, após o seu segundo casamento por procuração, ocorrido por viuvez, e pelo facto de o seu padrasto ter sido nomeado cônsul interino na cidade de Durban. Nessa cidade, foi o melhor aluno na admissão à universidade do Cabo com o melhor ensaio em língua inglês. Recebeu, por isso, o prémio Rainha Vitória. Por força disso, muito cedo aprendeu inglês, língua em que escreveu os seus primeiros poemas. Harold Bloom, um famoso crítico literário, inclui FP entre os vinte e cinco maiores poetas do ocidente, incluindo os ingleses. Regressou definitivamente a Portugal em 1905, vivendo com sua avó Dionísia. Dois anos depois a sua família regressa a Lisboa e FP passa a viver com ela. No ano seguinte a família retorna a Durban e FP volta a viver com a avó que morre pouco tempo depois.

FP matriculou-se no Curso Superior de Letras que nunca acabaria, instalou depois uma tipografia e foi correspondente estrangeiro em escritórios comerciais, ao mesmo tempo que continua a escrever poesia e prosa em português e inglês. Escreve o seu primeiro artigo de crítica literária na revista “Águia” onde idealiza o heterónimo de Ricardo Reis.

FP foi um dos fundadores, a par de Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, Angelo de Lima e Luís de Montalvôr, da revista “Orfheu” em 1915, considerada como a introdutora do modernismo nas artes em Portugal. Em 1921 foi ainda o fundador da revista “Olisipo” onde publicou poemas em inglês, circunstância que também ocorreu com a revista “Times”. Dirigiu e colaborou com a revista “Atena”. Com um seu cunhado criou e dirigiu a “Revista de Comércio e Contabilidade”. Em 1927 surge a revista “Presença”, criada e desenvolvida por João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, José Régio e Adolfo Casais Monteiro. Considerada a revista da consolidação do modernismo nas artes, sobretudo na literatura, FP colaborou nela com assiduidade, bem como muitos dos nomes do “primeiro modernismo. Viria a ser a revista de grandes nomes da literatura portuguesa: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Carlos Queiroz, Mário Eloy, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Pedro Homem de Mello, Olavo de Eça Leal e muitos outros. A revista “Presença” foi ainda a introdutora e divulgadora em Portugal de grandes nomes da literatura mundial desse tempo, nomeadamente Marcel Proust, André Gide, Guillaume Apollinaire, Luigi Pirandello e outros.

Quero hoje @CORdar uma pequena obra de FP e muito pouco conhecida: “O Banqueiro Anarquista” publicado em 1922. “O Banqueiro Anarquista” é um conto em forma de diálogo entre um anónimo e um operário que se tornou banqueiro. “Tínhamos acabado de jantar. De fronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa”.

Situemo-lo em dois patamares: o primeiro em termos sociais e políticos sintetizável na dicotomia Liberdade e Solidariedade/Opressão e Egoísmo e de forma muito precária aquilo que mais tarde viria a ser a doutrina do direitos humanos; um segundo no contexto geral da sua obra e da personalidade angustiada e clivada de FP.

Não são atribuídas nem muito assinaladas ideias sociais e políticas a FP (afirmou ser “conservador e anti-reaccionário”*1). Este texto desenvolve-se nesta área, mas essa não nos parece ser a sua caraterística maior, embora o seu epílogo com a redefinição do “seu” anarquismo seja bastante mais claro. Nesta área, FP enreda-se em temas da sociologia tentando construir uma lógica individual de forma dialética e avassaladora para provar aquilo que chama o “anarquismo perfeito”. Vejamos os conceitos que FP desenvolve na sua dialética: Qualidades/realidades naturais, desigualdades naturais/desigualdades sociais, ficções/convenções sociais e preconceitos. Aborda ainda conceitos já conhecidos como sejam: revolução, regime revolucionário, ditadura revolucionária, tirania e anarquismo.

Qualidades/realidades naturais, desigualdades naturais/desigualdades sociais são as condições intrínsecas á natureza humana: “A gente nasce homem ou mulher para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce para ser marido ou esposa, rico ou pobre, para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. Aceito, não tenho mesmo outro remédio, que um homem seja superior a mim por o que a natureza lhe deu – o talento, a força, a energia; não aceito que ele seja meu superior por qualidades postiças, com que não saiu do ventre da mãe, mas que lhe aconteceram por bambúrrio logo que apareceu cá fora – a riqueza, a posição social, a vida facilitada, etc”.

Ficções/convenções sociais e preconceitos: Para FP são todas as imposições e construções que a vida social exige, bem como as opções individuais que cada ser humano faz e porque luta nesse contexto e ao longo da sua vida. No seu texto, FP mistura estes conceitos (ficções, convenções, preconceitos), que não são a mesma coisa e nem sempre associáveis. “São as convenções e as ficções sociais que se sobrepõem às realidades naturais – tudo desde a família ao dinheiro, desde aa religião ao Estado. …preconceitos todos, que fazem os homens desiguais artificialmente e lhes impõem inferioridades, sofrimentos, estreitezas que a Natureza não lhes tinha imposto”.

Com este lote de conceitos e trabalhados de uma forma, às vezes ardilosa, e de compreensão difícil numa primeira abordagem, mas sempre na tentativa de ser dedutiva, FP conclui que “a abolição de todas as ficções e de cada uma delas completamente, é uma ficção também. … contribuir para implantar uma ficção social em vez de outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime”.

Chegado aqui, FP desconstrói e destrói os conceitos de regimes intermédios entre uma sociedade de ficções/convenções sociais e preconceitos e uma sociedade livre, bem como o de revolução e anarquismo que terão, supostamente como finalidade eliminá-las. Os primeiros são regimes de adaptação e os outros são ditaduras de guerra. Sobre aqueles ”É impossível; e mais que impossível, é um absurdo. Não há adaptação material senão a uma coisa que já há. Nenhum de nós se pode adaptar materialmente ao meio social do século vinte e três”. Sobre a revolução afirma: “Temos aqui uma tirania nova, uma tirania que não é derivada das ficções sociais. Querem implantar a sociedade livre. É este o argumento em que as bestas que defendem a ditadura do proletariado. O que saiu das agitações políticas de Roma? O Império Romano e o seu despotismo militar. O que saiu da Revolução Francesa? Napoleão e o seu despotismo militar. E você verá o que sai da Revolução Russa… Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre… .” Sobre o anarquismo e os anarquistas dos anos vinte*2, afirma FP: Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma? Diferença, diferença há… eles são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática… E quanto á prática sou mais, sou muito mais anarquista que esses tipos que você citou… eles são o lixo do anarquismo, os fêmeas da grande doutrina libertária”.

Qual é, afinal, o “anarquismo perfeito” deste “O Banqueiro Anarquista” e não Anarquista Banqueiro? “Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro?” Aqui FP indica que um dos caminhos seria isolar-se da civilização: “ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes… quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. O processo era só um – adquiri-lo, adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase atual – a comercial e bancária, meu amigo – do meu anarquismo”.

Conclusões para quê? Vivemos a época da globalização. Uma sociedade ”livre” e, por isso, uma sociedade globalmente anarquista na linha deste conto. De um “anarquismo perfeito”!… Esta espécie de capacidade premonitória de FP, bem autêntica quando falou da “Revolução Russa”, serve de ponte para falarmos um pouco mais da sua personalidade.

FP criou e “viveu” um conjunto de heterónimos que constituem a componente maior e mais substantiva da sua obra. Tal facto faz diferenciá-lo de outros poetas do modernismo que inventaram máscaras ou figuras literárias semelhantes. FP criou, inventou e viveu poetas inteiros, personalidades globais. Este facto, remete para duas carateristicas salientes da sua personalidade se analisada em termos psicológicos: a saída/abandono da sua interioridade para vivenciar outras, supostamente alheias, assumindo-as e fazendo obra poética delas, não o sendo. Estamos aqui vizinhos de um conceito que será abusivo atribuir-lhe, mas que é incontornável não lembrar: o delírio, bem produtivo, se bem que nunca completamente clivado com a realidade existencial, pessoal e diária do poeta, a par de um eventual processo de fragmentação e dissociação psicológicas. “O Banqueiro Anarquista” como diálogo exclusivo entre apenas duas pessoas e nada como forma literária, poderá ser lido como um sinal dessa fragmentação psicológica de FP que se desdobra em duas personalidades ao longo do texto. (“Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com múltiplos espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade”).

Esta faceta está ligada com uma segunda: a dúvida e questionamento quase sistemáticos e sempre profundamente angustiados sobre a sua própria pessoa, a sua essência e o seu destino. A estes factos não terá sido alheia uma grande depressão que teve em 1920 e em que chegou a admitir ser internado para lhe fazer face. Laterais à sua vasta obra, cuja profundidade e beleza desconcertantes constituem o seu valor e beleza maiores, estão as suas ligações ao esoterismo e ao ocultismo que o levam a consultar o mago Aleister Crowley após o seu rompimento com a sua namorada Ofélia. Também à astrologia, isto é, à procura contínua de respostas para as dúvidas e angústias sobre si próprio, a vida e tudo aquilo que o rodeia. FP tinha hábitos alcoólicos, provavelmente como mecanismos compensatórios para as suas angústias, suspeitando-se que eles tenham estado nas causas da “cólica hepática” que levou á sua morte tão prematura.

Quem são, afinal, estes heterónimos de FP?

Ricardo Reis: É um médico de gostos clássicos e monárquico. Segundo ele, todos os seres vivos acabam de forma inexorável. Faz uso da mitologia pagã. Toda a sua obra é clássica e depurada do não essencial. Viaja para o Brasil como protesto contra a proclamação da república

Álvaro de Campos: É poeta ao longo da vida. Engenheiro inglês especializado em questões da educação. Sentia-se ser sempre e em todo o lado um estrangeiro. Personalidade decadente, mas amigo e defensor das carateristicas da vida moderna. Ao mesmo tempo livre, radical e niilista.

Alberto Caeiro: Nascido em Lisboa, terá vivido quase toda a vida como camponês. Não tinha formação escolar relevante. Considerado o mestre dos heterónimos, nunca escreveu prosa por entender que só a poesia dá conta da realidade. Fazia-a de forma direta, concreta, aparentemente simples mas muito reflexiva. Considerado o poeta-filósofo, acreditava que os seres são e nada mais. Toda a metafísica o irritava.

A viagem intelectual e criativa de FP por personalidades tão diversas e em que cada uma produziu uma obra tão notavelmente superior, e sem que tenha ocorrido uma fixação/dissociação única, terá sido a reserva de segurança para a sua identidade humana e pessoal de forma a que essa não entrasse em definitivo na fratura mental? Parece-nos que nesse território destrutivo não teríamos tido FP. (“Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com múltiplos espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade”). O me de sinto-me, reflexões falsas e única anterior realidade, parecem ter sido essa garantia de integridade. Para felicidade da literatura portuguesa e universal.

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*1. Em nota autobiográfica escrita pelo próprio em 1935.

*2. Nos anos 20 do século passado, o anarquismo internacional era um movimento importante na cena política mundial.

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Outras obras de FP:

Heterónimos:

Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, 1914;

Prosa:

Do livro do Desassossego, 1913;

Da Floresta do Alheamento.

Páginas Intimas e de Auto-Interpretação.

Páginas de Estética e de Teoria e de Crítica Literárias.

Poesia:

Mar Português, 1922;

Mensagem, 1934.

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Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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