LETRAS @CORdadas

por Miguel Alves | 2016.10.01 - 18:07

 

 

 

 

José Rodrigues Miguéis (1901-1980)

(Prémio da Casa da Imprensa, 1932; Prémio Camilo Branco, 1959)

(Membro da Hispanic Society of Ameria, 1961; Membro da Academia das Ciências de Lisboa, 1976)

(Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, 1979)

 

 

JOSÉ CLAUDINO RODRIGUES MIGUÉIS nasceu em Lisboa, no bairro de Alfama que marcaria profundamente a sua infância, juventude e obra, e morreu em Nova York. Foi aluno do liceu francês e dos liceus Camões e Gil Vicente. Licenciou-se em direito como aluno notável, que nunca exerceu como profissional por não sentir nenhum atrativo na atividade forense, tendo antes consagrado a sua vida à literatura e à pedagogia. Nesta última área, chegou a licenciar-se em ciências pedagógicas na universidade de Bruxelas como bolseiro da Junta de Educação Nacional. Entrou de seguida na atividade docente no ensino secundário e nessa sequência dirigiu com Raul Brandão um conjunto nunca concluído de “Leituras Primárias”, obra que o regime político da época nunca sancionou e até proibiu.

Seu pai era um emigrante galego, tendo herdado dele muitas convicções republicanas e progressistas que o afastaram do regime político em vigor em Portugal. Cedo entrou em conflito com o Estado Novo que o impediu de continuar a lecionar, circunstância que o levou a exilar-se nos Estados Unidos em 1935. Voltaria a Portugal algumas e esparsas vezes, embora algumas delas tenham chegado a períodos de dois anos. Sete anos depois de ter ido para o exílio adquiriu a nacionalidade americana. Neste país, foi redator e colaborador das Seleções do Reader´s Digest, entre outras atividades.

JRM foi um membro ativo e empenhado do grupo da Seara Nova, ao lado de grandes nomes da cultura e da literatura portuguesa: Jaime Cortesão, Raul Brandão, Câmara Reis, António Sérgio, José Gomes Ferreira e Irene Lisboa. Com Bento de Jesus Caraça fundou o jornal semanário “Globo”, que em 1933 foi proibido pela censura. Foi colaborador de jornais como “O Diabo”, “Dário de Lisboa” “República” e “Diário Popular”.

Linguistas como Óscar Lopes e António José Saraiva consideram a obra de JRM enquadrada no chamado realismo ético, com influências estéticas próximas do grupo da “Presença” que preconizava a independência da cultura e da literatura de quaisquer propósitos políticos e ideológicos a par de uma intensa reflexão interior e, numa só aparente contradição, fortemente influenciado por preocupações próximas do neorrealismo português e dos problemas sociais e políticos do seu tempo. Tudo isto com fortes influências colhidas em Dostoiévsky e Raul Brandão de quem era um grande amigo e admirador.

Quero hoje @CORdar um pequeno livro de crónicas de JRM, publicado por ocasião dos 16 anos do jornal “Independente” com o título de “A amargura dos Contrastes”, numa edição de Vasco Rosa de 2004. O livro faz parte de uma coleção de obras de outros autores portugueses selecionados no âmbito dessa comemoração, é constituído por crónicas de JRM em diversos jornais portugueses e em alguns periódicos de colónias emigrantes de portugueses nos USA e editado com base num levantamento cronológico desses textos levado a cabo por John Austin Kerr Jr. levado a cabo em 1977.

Quero @CORdar apenas algumas dessas crónicas e não a sua totalidade. Tendo sobretudo como intenção a saliência de alguns autores desse período que, com JRM, constituíram um período de ouro da cultura e literatura portuguesas, bem como a atualidade de muitos temas que nelas são abordados.

No capítulo “Uma casa portuguesa” estão quatro das melhores crónicas do livro: Revisitei 3: “Lembranças de Raúl Brandão (Nova York, Abril de 1960), Uma visita a Ibituruna (Seara Nova, Dezembro de 1952), Uma flor na campa de Raúl Proença (Diário Popular, 12 de Abril de 1979)”. No fim do livro, uma crónica notável sobre Portugal e os portugueses: “Carta a Viana Moog sobre uma capa das Selecções” (Seara Nova, Março de 1956).

“Lembranças de Raúl Brandão” começa por relatar a história da edição das segundas “Leituras Primárias” levadas a cabo por JRM e Câmara Reis e com a aprovação de Raúl Proença. Nesse concurso entrou também Trindade Coelho que o perdeu e, provavelmente, o terá levado ao seu suicídio pouco tempo depois. Tal facto criou em Raúl Proença profundos remorsos que o atormentaram durante largos anos, embora os considerasse sem fundamento. Sobre Raúl Brandão escreve: “A sua posse era, aliás, a do tímido que carrega o peso de um drama: nada tinha de literário. Sorria sempre com espanto e gozo; mas ao apagar-se, o sorriso deixava-lhe um resíduo de atenção penetrante e dolorida. Vocifero no comentário político e da má língua, ele registava-a com a candura divertida, a objectividade de um outsider e um senso agudo do anedótico significativo. Do anedótico ele fez obra, que é vida; os outros, da vida fazem o anedótico. Só falo do passado como ponto de partida”.

Sobre a personalidade de Raúl Brandão, escreve ainda JRM: “Certos homens traziam consigo uma causa e uma promessa, até a sua presença se nos impunha e não porque fossem solenes ou pesporrentes. Diante da sua dignidade sentíamo-nos subalternos, mas não subservientes: dizíamos o que pensávamos, as nossas objecções. A passividade da nossa parte tê-lo-ia ofendido. Ficou imune ao pitoresco nacionalista das romarias e bailados, quadras e cravos de papel, dos moinhos e das caravelas que faz hoje cantar a caixa registadora do turismo. Ao historicismo sebástico, à nostalgia de impérios e quimeras, o seu mar é o dos pescadores, a sua saudade é toda pessoal, intima e discreta, não rácica nem messiânica. Direi que só uma forte personalidade, sob a frágil aparência, lhe permitiu resistir às múltiplas influências duma época de contradições, procuras e desfibramentos, para criar uma obra inteiramente diferente e pessoal, e um estilo de rara fluidez, intimo e subjectivante, que não tem par nem fez escola Quando associado a Eça, diz JRM: “O único traço que, porventura, o liga ao Eça das “Vida dos Santos” é o impressionismo humanitário, o socialismo místico, o insurrecionismo cristão. Por outro lado: caracterizavam-no o humor trágico, transcendente e, no fundo, ibérico (como em Camilo e em Torga), um simbolismo populista em que subjectiva e sublima a realidade. Nada nele é fotográfico nem etnográfico”.

“Uma visita a Ibituruna”: Nesta crónica, JRM escreve sobre Jaime Cortesão e descreve um encontro entre os dois ocorrido no Rio de Janeiro quando Jaime Cortesão aí se encontrava e onde chegou a estar detido embora por um curto espaço de tempo. Impressionou-o, em primeiro lugar a sua casa as reflexões que lhe imprimiu como exilado: “Nas sombras do bairro excêntrico, os livros, os móveis, alguns quadros e objectos de arte popular, um não sei quê de antigo e actual, de distante e presente, tudo me fazia querer que tinha aportado a uma ilha (Não serão as ilhas, porventura, símbolos camoneanos das epatas que marcam o nosso destino, por enquanto errante e marginal?). O expatriado*1 tem destas noções estranhas talvez para os que ficam.

Sobre a personalidade Jaime Cortesão, diz JRM: ”…ele irradia uma profunda e convicta identidade com a nossa grei, a sua obra de poeta, historiador, dramaturgo, ideólogo e homem de acção modelou-se em torno dessa estrutura. Sóbrio, digno, preciso e recatado de gestos e expressões, quase tímido, revestido dessa autoridade branda e justa que é fácil consentir-se, capaz de humor, apto a ser feliz e fazer os outros felizes: mas agora mais depurado, mais essencialmente ele mesmo, como os vinhos que o tempo requintou (mas nele foi antes a têmpera do fogo)”. Associa depois a obra de JC à própria história do país: “Aí está o retrato do tempo da águia (a Renascença Portuguesa, o Infante de Sagres). O tumulto de uma era de transição e aspirações, a última fase de um romantismo fiel á missão do homem. Segue-se o descalabro e o protesto: o clarão de esperança da Seara Nova e o sentimento caloroso, reconfortante, de ver congregados, reagindo contra os erros e a estreiteza, a democracia purificada, a militância e o desapego de si, a crítica construtiva, a confiança no progresso e na verdade”. Curiosa e talvez discutível a tese de JC sobre a epopeia portuguesa dos descobrimentos e que JRM sanciona: “reagiu contra a tese negativista e unilateral da aventura e do materialismo grosseiro dos Descobrimentos, para acentuar a racionalidade do Plano e o carácter necessário, missionário, ecuménico da Expansão Portuguesa, em que não houve só sede de ouro e especiarias (aliás geral na Europa), mas amor do mundo e do descobrimento, sentido órbico, função humana e histórica”.

Da conversa com JC, conclui JRM: “Um povo não vive menos da sua consciência do que de pão. O que importa nos homens é o que os une para o bem, a possibilidade de coexistir e actuar num mínimo de entendimento positivo, sem renunciar aos princípios. A afirmação, mesmo débil, vale sempre mais que a passividade e a negação”

“Uma flor na campa de Raúl Proença”: Ao falar de Raúl Proença, JRM rememora sobretudo dois episódios: o primeiro relativo ao encontro que ambos tiveram em Paris quando RP aí se encontrava exilado, a par das diligências que JRM levava a cabo em Lisboa para angariar fundos no sentido de apoiar e socorrer RP face à quase indigência que ele enfrentava em Paris bem como a sua família. O segundo diz respeito à morte da filha mais velha de RP (“Berta, a sua musa”), apenas com dezassete anos.

  1. Em Paris, RP convidou JRM para almoçar num modesto restaurante na companhia de uma filha: “Ainda hoje não posso perdoar-me a fraqueza de ter consentido, embora com protestos, que ele pagasse a conta. Foi talvez uma desnecessária gratidão que a isso o levou. Desde que ele se exilara, eu organizara no meu escritório do Arco da Bandeira uma colheita de fundos em socorro ao amigo querido e escritor que em Paris vivia com sérias dificuldades. Tinha ele de sustentar cinco filhos e a esposa, de certo modo diminuída pelas sequelas de uma antiga doença. No regresso a casa, a menina que não teria mais de dez anos e veio a morrer de tuberculose anos depois, fitava-me sem falar. Raúl estava seriamente constipado e a sua expressão era a de um homem fatigado e deprimido ao extremo. A certa altura sacou do bolso um lenço encarquilhado de uso como numa bola, olhou-me vexado e disse: “Faço quarente e seis anos e este é o único lenço que tenho em casa”. Esse queixume, único que jamais lhe ouvi, na boca de um homem de tal robustez moral e mental, trespassou-me de dor. Para quem reservamos nós o nosso pranto?”
  2. Sobre a morte da filha Berta de Raúl Proença, lembra-nos JRM: “…loura, de olhos azuis era de uma beleza imensa. Tinha voltado do exílio a Lisboa aos cuidados do tio Luís, funcionário das finanças. Berta sofreu uma infecção da iris. Tratada, perdeu a vista do olho afectado. Cerca de um ano depois, declarou-se a meningite tuberculosa. Entrada na fase terminal, tornava-se imperativa a vinda dos pais, ou de um deles, pelo menos. Luís telegrafou a suplicar a presença urgente da mãe. Logo após a expedição do telegrama, era detido e conduzido à sede da Polícia de Informação. “Então a coisa está para rebentar, não?”. A matilha policial interpretara as cartas como relatórios cifrados da marcha da conspiração e o telegrama era o anúncio do eminente deflagrar da revolução! Compreendendo agora a causa da sua prisão e do interrogatório, Luís caiu sem sentidos”. Ao pedido da vinda provisória de Raúl Proença a Portugal, o ministro do interior, general Vicente de Freitas, afirmou:” Se ele vem a Portugal, mando-o prender nem que seja á cabeceira da filha moribunda”. “Era a cristianíssima brandura do incipiente salazarismo, e não só desse general”.

“Carta a Viana Moog sobre uma capa das Selecções” é uma crónica crítica sobre um texto saído na RD sobre as culturas e povos que foram decisivos na construção da sociedade brasileira. São excertos desse texto: “Os alemães, velhos criadores de impérios; o grande momento da história pioneira do Brasil foi a chegada daqueles primeiros colonos alemães. Esse momento é que deveria marcar o verdadeiro turning point da política migratória e de toda a evolução social, económica e cultural do Brasil”.

JRM responde escrevendo: ”Lá que V. (que, segundo me consta, tem costela holandesa) procure atrair aos alemães a fácil glória de haverem colonizado o Rio Grande do Sul é um pecadilho perdoável num ensaísta recortado pelo figurino cosmopolita um tanto sediço e parvenu. Nenhum sério historiador, observador ou sociólogo brasileiro, para não falar dos estrangeiros, subscreveria semelhantes destemperos. Na angustiosa carência de elementos épicos ou simplesmente pitorescos que pudesse associar aos alemães, teve que recorrer-se dos italianos “exuberantes, católicos e prolíferos” para caracterizar uma obra onde – ó manes do conselheiro Acácio – a alegria vive a cantar no seio da fartura. Que bicho lhe mordeu Viana Moog? De onde lhe veio este súbito prurido dos “criadores de impérios”? O Santo Império Romano, bem sabe, não foi propriamente alemão; nem Frederico, nem Bismark ou Hitler conseguiram criar impérios duradouros dentro ou fora da Europa. Ficaram-se nas tentativas que o mundo pagou bem caras. As duas nações que maior influência económica e política têm exercido sobre o Brasil independente, a Inglaterra e os Estados Unidos, nunca lhe deram emigrantes em massa. Já é uma grossa injustiça que não haja nessa capa, o que mais o descobre que encobre, uma só referência aos milhões de portugueses que, em mais de quatrocentos anos, deram ao Brasil o sangue e a vida, a língua e as crenças, o carácter e a cultura e, confessemos, boa parte dos defeitos inerentes a ambas as nações. …esses alemães de oitocentos e pico encontraram um Brasil feito, geograficamente incorporado, íntegro no carácter no sentimento nacional, na evolução política e social e, enfim, independente. …com todos os defeitos, os portugueses andaram pelo mundo a dar o corpo ao manifesto, a espalhar as ossadas e a alma, a alargar os horizontes da geografia, da humanidade e do tráfico, enquanto outros povos mais privilegiados se deixaram ficar em casa, aquecendo-se ao borralho da civilização e tecendo a teia dos negócios, para maia tarde irem, no encalço e sobre os escombros dos impérios hispânicos, colher por sua vez os frutos da colonial exploração. O que espanta Viana Moog é que não tenham sido alemães, “soberbo gado”, mas os fracos e escassos portugueses, que hajam desbravado e trazido para a vida um tão robusto filho.   Envaidece-me muito que fomos capazes, os portugueses, de ajudar a criar uma nação muito menos dependente dos laços paternos do que outras que há lá no seu vasto e, aí, tão pouco livre continente. Quanto mais o Brasil se afastar de nós, económica e historicamente, mais ele se personalizar e consolidar – mais perto de nós procurará estar no plano do carácter e do sentimento”.

Escreveu ainda JRM, com convicção premonitória porque ainda hoje atual: “Os portugueses – hoje (e há quatro séculos) comparativamente fracos e de certo modo indefesos, sem grande máquina de propaganda cultural e compra de consciências bem lubrificada à força de milhões – carregam o peso das suas faltas e até o das suas virtudes históricas, e tornaram-se o bode expiatório de velhas e extintas rivalidades, de maus humores provocados por outras e maiores ameaças”.

E se, como ele escreve ainda, “é preciso ter a coragem das nossas origens, como a dos nossos defeitos colectivos”, torna-se necessário potenciar, impor e, se necessário, reivindicar, a igualdade de soberanias nesse espaço maior que também é nosso da UE. Quem carregou, afinal, o fardo mais duro, pesado e violento da reconstrução de muitas cidades europeias desfeitas pela Alemanha nazi, mais uma vez de matriz imperial e, felizmente, nunca realizada? Foram as avalanches de portugueses que, clandestinos e a salto, aí chegaram para, clandestinos continuarem, e reconstruirem o que não era deles, enquanto Portugal continuou no obscurantismo político, social e económico durante largos anos. A história parece, infelizmente, repetir-se agora com a emigração qualificada, e cujos custos couberam aos portugueses para outros dela beneficiarem.

Quem foi, afinal, o país que, espontânea e solidariamente, mais se envolveu no acolhimento de refugiados, agora o maior drama da nossa UE? JRM pergunta: “Para quem reservamos nós o nosso pranto?” Esta a resposta atual dos portugueses.

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*1. Diz Eduardo Lourenço: “Entre exílio e expatriação há uma diferença de qualidade e de sentido relativa ao modo como se não tem já a pátria que se teve. Ou inversa e mais profundamente, como se tem a pátria que já se não tem. Ausente, o exilado está essencialmente na terra que deixou. Nesse sentido ninguém tem mais pátria que aquele que a perdeu e a vive como perdida. É difícil que um expatriado não se sinta também a seu modo um exilado. Um expatriado é um homem que largou as amarras, que assume a ausência e se assimila aos poucos a uma nova pátria. É a história natural de todos os emigrantes do mundo”.

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Outras obras de JRM:

Páscoa Feliz (novela), 1932;

Onde a noite se acaba (contos e novelas), 1946;

Uma aventura inquietante (romance), 1958;

A Escola da Paraíso (romance), 1960;

Gente de terceira classe (contos e novelas), 1962;

É proibido apontar – Reflexões de um burguês (crónicas), 1964;

O espelho poliédrico (crónicas), 1972;

O milagre segundo Salomé (romance), 1975;

O pão não cai do céu (romance), 1981;

Idealista num mundo real, 1991.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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