Lapa “ágora” e agora?

por Paulo Albino Santos | 2016.06.25 - 20:44

 

 

Leonardo Benévolo, autor obrigatório nos primeiros anos do curso de arquitetura, define inHistória da Cidade” a ágora como “áreas públicas, destinadas às reuniões políticas, ao comércio, ao teatro, aos jogos desportivos etc.”.

Na sociedade onde foi inventada a democracia, os espaços públicos revestem-se de principal importância, pois é aqui que tudo se decide, é aqui que se faz justiça, comércio, onde se faz e discute política, enfim, um espaço cívico por definição.

Na antiga Grécia, berço das sociedades modernas, onde as suas urbes, embora em escala diferente, em muito se assemelham às cidades contemporâneas, viam as suas polis nascer nas colinas e daí crescerem.

A Lapa cresceu na crista da Serra e organiza-se da mesma forma mas à escala de uma aldeia. Nela podemos identificar as várias zonas que fazem parte da cidade antiga, perfeitamente definidas, que são: As áreas privativas, de cariz habitacional, a área sagrada e a área pública. Com o decorrer dos tempos, e ao fim de muitos séculos, vários edifícios mudaram de donos, de funções, mudou a morfologia social e aumentou a importância religiosa de um dos mais importantes santuários marianos.

Apesar desta (r)evolução, do ponto de vista macro, a aldeia permanece igual e a organização manteve-se assim como a dialéctica entre os vários espaços. Com a sociedade moderna e com a revolução industrial, a máquina adquire uma importância que em algumas alturas se sobrepõe ao homem. Este é um facto que, de certa forma, acabou por se verificar na Lapa. A apropriação dos espaços públicos pela máquina acaba por criar algum caos a par de um comércio ambulante desordenado e sem critério.

Todo o espaço da Lapa está desvirtuado onde a dimensão humana, na sua vertente social desapareceu, e a substituí-lo ficam os automóveis, os vendedores ambulantes, os guarda-sóis e plásticos garridos, os toldes ao gosto do patrocinador, no fundo… a desordem.

Dada a importância histórica, cultural, religiosa e patrimonial do local, urge reverter esta situação. Abraçaram esse desígnio o município e a freguesia para conseguir alterar e conferir a todo aquele conjunto a dignidade que merece e que sempre foi dele.

Como sempre digo, tudo é discutível e há muitas formas de atingir um objetivo, mas o mais importante é que as nossas ações e decisões o cumpram independentemente da forma. Foi na tentativa de cumprir esse objetivo que houve necessidade de intervir em todo aquele espaço. Verificava-se um desequilíbrio em todo o espaço central da Lapa formado pelo largo, pela igreja e colégio e pelas construções envolventes. Esse desequilíbrio é sobretudo do ponto de vista de ocupação territorial por parte das pessoas. A concentração acontece sistematicamente junto às construções porque é aí que existem pontos de atração e interesse. Se queremos equilibrar esta realidade temos de oferecer alternativas noutras partes que antes estavam ocupadas por carros e vendedores ambulantes. A intervenção realizada responde a este objetivo pois cria novas polaridades com a criação de espaços diferenciados para muito do comércio que antes era ambulante. A par disso, o restante mobiliário urbano ajuda no ordenamento nomeadamente viário constituindo-se como obstáculo ao estacionamento limitando o corredor de circulação por entre os bancos de granito estrategicamente colocados para esse efeito.

Agora, a Ágora da Lapa é um espaço com a dignidade que merece, que respira, que dialoga em toda a sua dimensão, onde a circulação de trânsito está limitada apenas ao essencial. Tornou-se um espaço humanizado onde se verifica uma mudança de comportamento relativamente à sua apropriação nomeadamente nas vertentes social e humana.