LAMENTAÇÃO SOBRE O MOSTEIRO DA RIBEIRA – SERNANCELHE

por Alberto Correia | 2016.07.13 - 13:08

 

Quem hoje passar na Estrada Nacional N.º 229 que de Trancoso corre para Lamego, a antiga Estrada Real N.º 44 do tempo do Fontismo, um pouco além do pequeno povoado da Ponte do Abade, descendo sobre a margem do Rio Távora, descobrirá, olhando à sua direita, logo ao subir da encosta, um casario de povinho miúdo que se aconchega ao redor de uma edificação que se oferece mais avantajada, por um tempo apercebida como enigma.

Mas logo a placa alevantada na cruz do caminho elucida – MOSTEIRO e logo um olhar primeiro descobre o jeito de uma torre alevantada, o branco da cal de igrejinha modesta e, se o olhar se alargar, é fácil perceber o muro alevantado de uma Cerca que se adivinha na patine amarelenta da pedra como lugar de recreação antiga, com horta, flores, fontezinha cantante, véus de monja passando em recreio.

Mosteiro. Era fácil adivinhar. Pequenino, como a aldeia que cresceu em seu redor, que há cerca de cinco séculos começara a ser erguido no manso desvão da encosta, as águas do Rio Távora correndo-lhe aos pés, terras de cultivo na cercazinha que se fez mimosa, moinho ao fundo e terras de vinha e de outra lavoura que os benfeitores foram doando na extensão da província onde gente piedosa cuidava, desse modo, entesourar seu bem de alma.

A sua origem vem do século XV e cronistas há que afirmam que a fundação primeira terá tido outro lugar. Mas foi daqui que teve nome, da proximidade da Ribeira e não lhe chamaram de outro modo os Irmãos de S. Francisco, cativados pela singeleza do lugar.

No século XVII os fradinhos que aqui moravam tiveram de procurar abrigo em casa de outros seus irmãos porque uma velha dona, moradora em Sernancelhe, parente rica de fidalguias, ela e suas filhas quiseram entregar-se ao silêncio e à oração e licença obtiveram para transferir, dentro da mesma obediência, o ramo masculino da Ordem para a titularidade de monjas clarissas, devotas de Santa Clara, essa irmã, em religião, de Francisco de Assis. De sua obra é o aparato do Mosteiro.

Em 1834 foi extinto, por lei. A última monja morreu pobre. Cerraram-se depois as portas do Cenóbio, que outros donos tiveram, excepto a igreja que ganhara soberbos altares barrocos, imaginária de eleição, tectos pintados figurando celeste corte. A igreja ficou do povo que à volta foi cultivando cereal e hortas. Nos caminhos estreitos foram passando romeiros e feirantes e a ponte sobre o rio não há ainda muito tempo que era de pau.

Hoje passamos no caminho. Fecharam já quase todas as portas. Há muros caídos. Um forno que não coze pão. Cabanais onde só as traves de castanho ainda resistem. Uma fontezinha jorrando água como se chorasse sobre cântaro de raparigas. E silêncio. Como se as monjas tivessem acabado de rezar.

Quem acode a esta desolação!…