Lágrimas de chorar sozinha

por PN | 2017.02.05 - 09:17

 

Taciturnos se escoam os dias. Se durante a semana ainda nos vamos enganando com o ritmo cada vez mais descompassado das rotinas, o fim-de-semana, enrolado na frieza chuvosa de um inverno inquieto, retém-nos num fechamento, portas adentro de casa, a contar os dias que faltam para o fim do mês ainda agora iniciado.

A maioria das famílias portuguesas enclausura-se assim, a ver cair a chuva pelas janelas, a olhar as ruas desertas e a contar o parco dinheiro existente, esticando-o milagrosamente para e que ao menos, a comida não falte…

Os passeios de domingo, rareados, acabaram por se extinguir por falta de condições para o velho Fiat rolar. Cem quilómetros custam 15 Euros de gasolina, 60% são impostos. O bárbaro IUC não foi pago, o seguro caducou e não foi renovado, o fiel companheiro de há 25 anos já falhou duas revisões e arfa com o esforço. A inspecção anual não foi feita, os 30 euros foram para a mercearia. Os pneus estão carecas e custam, pelo barato, 200 euros. Fora de questão! Não. Acabaram-se os passeios domingueiros…

Mesmo a ida ao café da esquina já foi substituída pela cevada caseira. O Tó, o mais novo, precisa de umas botas e de um agasalho. Terá que esperar pelo próximo inverno. A Joana reclama uma máquina de calcular para as aulas de Matemática. Custa 90 euros. Não é possível. Há ainda os gastos na farmácia, os meus comprimidos para o coração, os antidepressivos para a Alice, que desde que perdeu o emprego, falida a empresa, com o desespero e a esperança perdidas – quem emprega uma mulher com 47 anos? – vai definhando a cada dia que passa…

Somos quatro. O rendimento depois de adelgaçado pelos impostos reduz-se a 700 euros. Tirados os 200 da renda de casa e os 100 de água, luz e gaz, ficam em 400. Transportes públicos, cantina dos garotos (eu levo qualquer coisa na marmita), material escolar… mingam para 300. Contas redondas, comemos os quatro o mês inteiro com 200 euros. 6,6 €/dia, 1,65 € per capita.

A vida é uma festa. A Joana sonha que há-de ter umas sapatilhas para a primavera. A Alice deixou de falar comigo. Com os filhos, cinge-se ao essencial. Fala só com ela, num interminável rosário de revoltas mudas. Por vezes sonha com a despensa cheia, enquanto cose os calcanhares rotos das meias puídas.

No telejornal, um político diz que é preciso fazer sacrifícios. Que o país está no bom caminho. Que o déficit baixou, as exportações aumentaram, o desemprego diminuiu.

Corre uma lágrima silenciosa no rosto de Alice. Não lha seco com receio do gesto dela de repúdio. São lágrimas de chorar sozinha… O Tó adormeceu. A Joana estuda, os olhos a ficarem mais negros no rosto escuro. Quer ser enfermeira para emigrar para a Irlanda. O jantar foi sopa de couves com massa. Se for a pé para o trabalho talvez consiga comprar quatro costeletas de porco para o almoço do próximo domingo. Mas o tempo está tão mau… A acidez do estômago reflui-me à boca. A revolta sobe-me ao peito. Faltam 26 dias para o fim do mês…

No trabalho, colegas meus dizem que “os políticos são uns bandidos“. Não acredito. Eles esforçam-se para um Portugal melhor, todos os dias, na televisão.

“Os pobres são suspeitos”, disse não sei quem, talvez Pascal. É essa a sua maior infelicidade. Porque há sempre um bocado de pão para uma fome, um tamanco para um pé dorido, uma cama de palha num pardieiro. Mas para a suspeita que o pobre levanta não há esmola que baste nem justiça que se invente, nem lei que se escreva.”

AB-Luís, “Dicionário Imperfeito”, (Guim. Ed., 2008).