Lá longe, o meu mar…

por Romira Jamba | 2016.02.24 - 00:15

Como é possível, por vezes me questiono, sermos cidadãos polirepartidos por um mundo que já foi infinito, depois imenso e hoje só é grande, mas que da inacessibilidade do passado já só mantém saudade, mito e lenda (ou lenda e mito).

Por vezes me questiono sobre a menina nascida junto a um mar sem fim, azul e quase sempre sereno, que saiu de sua terra sem nada conhecer desse mundo para ela ainda infinito, chegou a este país de gente linda, melancólica e triste e fez do Douro seu confidente…

O tempo de crescer e aprender. De aprender também a ser mulher e mãe. Parece que tudo foi ontem ou à bocado.

Na semana que passou estive dois dias em Berlim, encafuada em aviões, táxis, hotéis e salas de reuniões. Quinta-feira só vou a Madrid e talvez possa regressar ao Porto no dia seguinte.

Às vezes lembro muito a quietude alegre de minha meninice, meus irmãos, meus pais, minhas amigas, minha escola. Mas lembro mais o mar para o qual olhava horas sem fim, talvez já no sonho de ir para lá dele e a minha vida se realizar num constante riscar dos céus, ou por cima dele ou por países dessa Europa desirmanada fora.

O nosso destino é um livro estranho por ler, cujas páginas só podem ser abertas uma por cada dia que passa, sem sabermos se quando chegamos ao fim há um segundo e um terceiro volumes.

A minha africanidade, alegre de natural, tornou-se nostálgica e alheada. Talvez seja isso crescer, ser adulta, mãe e profissional realizada. Talvez seja esse mundo todo, mundo novo, que nos agarra e afasta do outro mundo tão jovial na sua fantástica irresponsabilidade. E até mesmo liberdade.

Hoje pouco sei do ”valer a pena”. Apenas tenho duas certezas que de tão banais são quase idiotas: ser Mulher e Mãe. Aí reside uma plenitude que me tira dos olhos a saudade e me põe no peito uma doçura tão imensa como o meu mar de outrora.

Os sonhos de uma menina e a vida no muito que trouxe, em nada são parecidos. Essas partes todas são a grandeza da existência. De uma abençoada existência.

Quantas africanas tiveram ou têm essa oportunidade?