“KEIN MENSCH IST ILEGAL”

por José Carreira | 2015.08.27 - 20:23

 

“Nós queremos ser legalizados, mas ainda não conseguimos” afirma Waled, refugiado sírio, ao explicar o que pretendem, o desespero que sentem e o porquê de diversas manifestações que têm ocorrido, a exemplo do que aconteceu bem perto do local onde me encontro a passar uns dias de férias com a família, em Stuttgart.

Homens, mulheres, crianças e idosos estão alojados provisoriamente em contentores, tendas e pavilhões desportivos, até que seja encontrada uma resposta mais eficaz e condizente com o vida humana.

A Alemanha tem tradição como país de acolhimento e a sua reputação converteu-a numa espécie de “terra prometida” para centenas de milhares de pessoas. A última estimativa, apresentada pelo Ministro do Interior Thomas de Mazière, aponta para cerca de 800 000 pessoas que pediram asilo na Alemanha em 2015. Este número é o dobro do atingido aquando do ponto alto da crise dos Balcãs em 1992 e o quádruplo de 2014.

O trabalho das Organizações Não Governamentais e de milhares de voluntários anónimos têm sido fatores determinantes para que a Alemanha, o país que recebe mais refugiados, consiga ser solidária para milhares de pessoas que fogem à guerra.  A mensagem inscrita na camisola dos voluntários é elucidativa: “Kein Mensch ist ilegal” (nenhuma pessoa é ilegal). 

Este fluxo contínuo de sírios, afegãos, iraquianos, iranianos, paquistaneses, russo, sérvios requer uma uma política comum europeia. Merkel considerou, em entrevista à ZDF, que o problema dos refugiados pode tornar-se no maior problema para a Europa, superando a crise grega. A crise migratória é europeia, não pode ser abordada por este ou aquele país isoladamente. Thomas de Mazière já avançou com o putativo encerramento das fronteiras alemãs, caso o resto da Europa recuse partilhar a responsabilidade de acolhimento.

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O aumento exponencial do número de refugiados pode funcionar como uma autêntica bomba relógio pronta a despertar a xenofobia. Há sinais perigosos que não devem ser ignorados.

Joachim Gauck,  Bundespräsidenthat (Presidente da Alemanha), numa visita a um campo de refugiados em Berlim criticou duramente as ações de ataque dos grupos de extrema direita a alojamentos de refugiados, considerando que estes contribuem para uma imagem negativa e injusta da Alemanha (Dunkeldeutschland).

O sentimento da população alemã é algo contraditório, se por um lado são solidários com a crise humanitária que lhes entra no país sem “pedir licença”, por outro lado, sente-se a apreensão e o medo crescentes pelo elevado número de refugiados, cerca de 1% da população só em 2015, sem que se percepcione o limite suportável e que soluções serão encontradas.

A Europa, uma espécie de “El Dorado”, faz-me lembrar, cada vez, um condomínio de luxo que gradualmente se torna numa “gaiola dourada”.

O medo que se instala  na população pode ser o combustível que alguns grupos radicais de extrema direita precisavam para justificar as suas ações violentas e criminosas.

Impõe-se urgentemente uma solução Europeia. O anúncio de Paris e Londres de criação de um centro de comando comum em Calais pode ser o dínamo de novas medidas conjuntas que contribuam para combater as redes de traficantes e aumentar a segurança.

Há mais sinais de alarme, dos quais destaco a questão religiosa. A Eslováquia anunciou que se disponibiliza para aceitar refugiados sírios, desde que sejam cristão… O porta-voz do Ministério do Interior, Ivan Netik, argumentou: “Podíamos aceitar 800 muçulmanos, mas não temos mesquitas na Eslováquia. Como é que muçulmanos se integrariam se não iam gostar de estar aqui?”.

Os ingredientes, quando misturados, podem criar uma receita letal: racismo, refugiados, emigração, religião, desemprego, criminalidade, medo, desconfiança, crise, ressentimento….

 

 

FOTOS: https://www.tagesschau.de