João Manuel: 10 anos de ausência

por Vitor Santos | 2015.05.20 - 18:01

 

Conheci o João Manuel em 1977 quando integrarmos a seleção de futebol do Distrito de Viseu, que disputou os Jogos Nacionais de Futebol Juvenil, em Santarém. Tínhamos 10 anos. Esta seleção era formada por miúdos de Viseu, com a exceção de 4 ou 5 vindos do norte do Distrito. Um deles era o João, vindo de Moimenta da Beira, pela «mão» do Prof. Amaro.

Na década de 70 as assimetrias regionais eram bastante desniveladas. Uma criança de Moimenta da Beira tinha uma vivência diferente de nós – da cidade. As distâncias eram enormes e o tempo que se demorava a percorrê-las intermináveis. E, o João era muito introvertido, humilde e discreto. Em nada facilitava a sua integração no grupo.

Mas isso acontecia fora do campo de futebol. Dentro das 4 linhas, o João era sempre titular. No campo soltava-se e depressa ganhou a consideração de todos nós. Não era fácil. Mas ele, sem muitas palavras, ganhou o seu espaço de forma simples e tranquila.

Com a vinda, mais tarde, para o Viseu e Benfica retomámos o contacto e não mais deixámos de comunicar. Em Coimbra, eu a estudar, o João já na Académica, encontrávamo-nos, casualmente, muitas vezes, pela Praça da República – zona de paragem dos profissionais de futebol na época. Esta pequena história serve para dizer que «cresci» com o João e que foi difícil gerir a tragédia por que passou.

A vida atraiçoou-o. Uma doença de foro neurológico acabou-lhe, primeiro, com a carreira de profissional de futebol e depois levou-lhe a vida.

Em 2005 escrevi que esperava que Viseu e seus clubes não esquecessem de um profissional que os serviu de uma forma inexcedível e de um ser humano de grande valor. O tempo veio, infelizmente, a provar precisamente o contrário.

O Estádio do Fontelo – espaço de referência do desporto viseense, não memoriza nem momentos, nem ídolos. As paredes podiam e deviam perpetuar nomes como o do João. Não é o único. Mas é dos que devia estar presente. Devemos isso, também, às gerações que nos sucedem.

Viseu e Benfica e Académico deviam trabalhar em conjunto – com contributo de outros clubes e com o patrocínio do Município (gestor do Estádio Municipal do Fontelo), na forma de honrar e dignificar os momentos do futebol viseense. As suas figuras. O João Manuel é um dos que não se pode ignorar.

Até sempre João.

 

 

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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