IRAQUIANOS MONITORIZAM DERRUBE DA ESTÁTUA

por José Carreira | 2014.05.01 - 08:41

 

O feio e o belo são conceitos historicamente tão mutáveis que o grande escritor Umberto Eco lhes dedicou dois magníficos volumes: História da Beleza e História do Feio (Edições Difel).

Embora goste muito de História da Arte não sou, de modo algum, avalizado para fazer crítica de arte. Posso dizer se gosto ou não desta ou daquela obra, como digo se gosto ou não deste ou daquele vinho, mas não me arrogo da competência de dissertar acerca dos aromas, das castas, do grau de acidez, enfim, como diz um bom amigo, “não vá o sapateiro além da chinela”…

Tenho estado atento às reações relativamente à colocação da estátua de Afonso Henriques na rotunda junto ao Palácio do Gelo. Todas as opiniões são válidas, cada um é livre de emitir o seu juízo. Quanto a este ponto, não há dúvidas, estamos conversados!

Contudo, não posso deixar de registar que as reações pavlovianas e populistas têm feito um caminho perigoso e que pouco ou nada contribuem para o debate que deve ser construtivo e não destrutivo.

Se um diz que a estátua é feia, outro defende que se destrua, se um diz mata, o outro manda esfolar. A irritabilidade e a revolta estão latentes em cada caracter digitado na cronologia da rede social de Zuckerberg. Rasgam-se as vestes e fazem-se pedidos aos deuses do Olimpo para que façam a guerra, dizimando o feio e glorificando o belo.

É curioso que tanto se critica a autarquia porque centraliza as decisões e não ausculta a população, como se exige que esta tome medidas e destrua uma obra que nasceu da vontade e investimento populares.

A estátua de D. Afonso Henriques foi colocada em Viseu a 24 de Abril. A escultura – em ferro – é da autoria do artista Augusto Tomás e a encomenda foi feita por uma comissão popular, sem investimento público.

O que diriam os críticos se a autarquia não autorizasse a colocação da estátua, caso a considerasse inestética ou desenquadrada?

2) O que diriam os críticos se a autarquia, por livre arbítrio, ao avaliar a obra a considerasse um atentado à arte e à reputação da cidade que quer ser Património da Humanidade e a mandasse demolir?

Apregoa-se a democracia participativa e a importância da sociedade civil, desde que os resultados não colidam com o que pensam ou gostam…

“Queríamos que a sociedade civil fizesse parte deste projecto, porque este é um monumento do povo, para o povo e feito pelo povo” advogou Fernando Abreu, porta-voz da comissão.

O projeto terá agradado à sociedade civil, mas não na sua totalidade. A comissão terá cometido um erro de palmatória, a saber, pensou “apenas” no povo. Então, caro Fernando Abreu, e os intelectuais? Esses não contam? Deveria ter consultado a nossa elite, detentora de bom gosto inquestionável.

Talvez possamos importar a “equipa de trabalho” que destruiu, em Bagdad, a estátua do ditador Saddam Hussein. Sob a monitorização dos especialistas, as cordas serão atadas por cidadãos horrorizados com o “mamarracho”; apoiados por tanques, previamente requisitados ao RI14, e será dada oportunidade, para quem quiser exorcizar-se, de pontapear e dançar em cima dos destroços….