Instabilidade em todas as coisas

por António Soares | 2014.09.16 - 09:32

 

Adquiri três livros esbeltos e vetustos. As margens das páginas, elegantemente escurecidas pelo tempo, emolduram o conteúdo. Questionei o vendedor sobre a autoria das notas a grafite que adornam os parágrafos de um dos livros. “Se for mesmo escrito no próprio livro lamento a situação”, respondeu.
Não lamente. O livro tem uma história para além do conto.

Na página 50 de “Menina e Moça” (ou “Saudades”), de Bernardim Ribeiro, alguém gatafunhou em caligrafia célere mas perfeitamente legível: “sentido de mudança, de instabilidade em todas as coisas, de certo modo, reflexos de instabilidade interior”.


Esta nota prendeu-me a atenção. Foi como se alguém quisesse gravar na memória e no tempo esta mensagem como uma verdade absoluta, um dogma, um sentimento perene, tão real no século XVI como no XX, ou no XXI: a instabilidade interior manifesta-se na instabilidade em todas as coisas.

Atrevo-me a concordar.