Infidelidades das Narrativas

por António Soares | 2014.01.17 - 22:31

Há duas situações que, regra geral, irritam quem ouve vivências de outrem. Uma, é achar que ninguém pode ter vivenciado uma experiência semelhante à de quem relata; outra, a infidelidade clara da narrativa.

Na primeira, incluem-se aqueles relatos aos quais respondemos “Sim, ainda no outro dia me aconteceu isso…”, e somos prontamente interrompidos por um “Não, não estás bem a ver…”, ao que respondemos “Eu sei, aconteceu-me praticamente o mesmo!”, “Não, acredita, não estás mesmo a ver…”.

A infidelidade da narrativa é tão irritante quanto o supracitado, mas em maior pelo facto de sabermos claramente dessa infidelidade.

O nosso colega de trabalho, a relatar a uma terceira pessoa uma discussão com o patrão, com as sobrancelhas em ângulo obtuso, os olhos projectados e as narinas dilatadas, imita a situação que relata, com o dedo quase colado ao nariz do ouvinte, grunhindo “Cheguei e disse: ou é ou não é! Comigo é assim, ou é, ou não é!”.

Nós, que presenciámos in loco a situação original, sabemos que esta é a narrativa adulterada de uma situação que, na realidade, decorreu da seguinte forma: o nosso colega aborda o nosso superior com uma pequena flexão da cabeça sobre o peito, sobrancelhas em “s” horizontal, olhos colados à parte superior das órbitas, e clama “Olhe, se pudesse ser… é que também foi para o Xico, há uns tempos… se pudesse ser… Mas se não puder eu percebo, se não pode, não pode.”

Mais irritante ainda, e já nos aconteceu a todos, é quando interpelamos a pessoa para dar alguma fidelidade à narrativa – “Olha que não foi bem assim” – e ela, esquecendo-se que presenciámos a situação, nos atira à cara um “Não, não estás bem a ver…”.