Indignidade

por Norberto Pires | 2014.01.19 - 20:00

Tenho muita dificuldade em reconhecer este PSD e, de facto, às vezes apetece-me atirar a toalha ao chão. Muitas pessoas, e isso é legítimo, terão dúvidas sobre a melhor forma de adoptar ou coadoptar, tentando com isso proteger a única entidade que deve ser protegida: a criança. Essa discussão deve ser feita no parlamento, com serenidade, com o tempo necessário para poder ouvir toda a gente e encontrar uma solução equilibrada, sem paixões, sem dogmas, e, essencialmente, sem demagogia e sem populismo.

Neste assunto não há, nem pode haver, direitos de adultos, nem liberdades, nem nada disso. Só pode haver um único interesse: proteger as crianças e dar-lhes as melhores condições de desenvolvimento possíveis (e isso SIM é urgente resolver, não limitando opções para que nenhuma criança fique sem família). Por isso, sequer misturar neste assunto outras questões como a homossexualidade, heterossexualidade, ou outra forma de viver a sexualidade de cada um, é para mim algo abjeto. Fico aliás com a nítida sensação que em Portugal muita gente, se calhar a maioria, é uma mistura de um TARADO SEXUAL com uma ALCOVITEIRA. Só vêem sexo à frente, adoram falar da vida dos outros e em tudo envolvem as opções sexuais de cada um, tentando, não sei porquê, regular a forma de viver de cada um.

Dito isto, lamento profundamente a total falta de bom-senso que continuamos a mostrar, apesar dos 40 anos de democracia, e o lamentável exemplo dado pelo PSD e pela JSD neste caso, confundindo tudo e todos e misturando assuntos. A lei da adoção tem de estar centrada nas crianças e nos seus direitos, e não pode, de maneira alguma, ser uma forma de resolver o problema de uma família. A adoção serve para encontrar uma família a uma criança que não tem família, e não deve servir para tornar “igual” aquilo que é “diferente”. As famílias formadas por casais homossexuais são diferentes das outras, e quando são formadas é preciso ter perfeita consciência disso mesmo. São famílias, devem ter os mesmos direitos e deveres, mas são diferentes. Não é a lei que torna essas famílias diferentes. É a natureza.

A lei da adoção não deve impossibilitar ou inviabilizar hipóteses. Mas deve estabelecer prioridades e fazer opções, tendo a criança e os seus interesses como único guia (sem qualquer outra motivação), não procurando, por exemplo, fazer “igual” aquilo que é, e vai continuar a ser, naturalmente “diferente”. A lei da adopção não pode ser elaborada para resolver problemas das famílias, mas sim, e somente, os problemas das crianças.

Vivemos tempos de transformação no conceito de família, o que tira o discernimento às pessoas e foca a sua atenção em aspetos laterais. Neste caso, o foco são as crianças e só elas. Baralhar tudo, caminhar para coisas laterais, usar a adopção para resolver problemas de adultos e não das crianças, misturar tudo isso com sexualidade ou direitos de minorias é um inacreditável exercício de demagogia e populismo e UMA BOA RAZÃO para ser contra “referendos” nestas áreas. É que, sem pessoas adultas e com bom-senso, é impossível ter uma conversa equilibrada, séria e saudável.

É que sem equilíbrio, sem bom-senso, sem conversas saudáveis, afastadas de dogmas, um referendo é um plebiscito de uma maioria sobre minorias. E isso dá sempre mau resultado.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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