Hugo Soares, o pateta dos dias que correm

por Silvia Vermelho | 2014.01.21 - 10:23

Hugo Soares era praticamente desconhecido até há umas semanas atrás. Eu tenho-o no meu facebook, aliás, no meu facebook há toda uma série de gente mais ou menos recomendável: a timeline é uma excelente forma de nos mantermos informadas/os acerca do que essa malta política anda por aí a fazer.

Hugo Soares é um “jota”. Quando nasci já havia esta categoria social de ser “jota” e, portanto, aprendi a evitá-la, com sucesso. É que ser chamada/o de “jota” é uma coisa má (pena que tantas vezes se confunda “jota” com “jovem”…).

Hugo Soares é um “jota”, jovem já não o será tanto, mas enfim, hoje em dia prolongamos esta coisa da juventude ad aeternum. Com efeito, Hugo Soares é deputado à Assembleia da República, pelo círculo de Braga, líder da JSD e é um génio.

Hugo Soares é um bom representante do sonho português, do jota-made man que chega a primeiro-ministro ou qualquer coisa do género lá na cúpula. Porque se nas bases já é razoavelzinho, na cúpula, então, é sempre a aviar.

Uma das funções dos jotas, embora não lhes seja exclusiva, é fazer coisas patetas que não dá muito jeito aos ex-jotas-hoje-senadores dos partidos. Ora Hugo Soares é pró em dizer coisas patetas, já sabíamos disso. As últimas semanas demonstraram, contudo, que ele é um génio a fazer coisas patetas, tão patetas como sugerir uma coisa pateta à qual o PSD aplica uma disciplina de voto que faz aprovar uma coisa pateta. Pateta por variadíssimas razões, talvez a primeira delas é o facto deste jurista se prestar ao papel de pateta ao dizer ao país que quer colocar para referendo a co-adopção e a adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Como jurista, Hugo Soares saberá (esperemos que sim…) perfeitamente o que o artigo 115 CRP diz acerca dos referendos versarem sobre uma e uma só matéria, e também saberá, por dominar o juridiquês, que a co-adopção e a adopção são matérias diferentes. Mesmo assim, mesmo pondo em causa a sua razoabilidade na aplicação dos seus conhecimentos académicos, Hugo Soares não se importou de fazer o papel de pateta.

Pateta é aquele que diz (sim, ainda estamos a falar da mesma pessoa) que se “há matéria que deve ser referendada é esta”. Pois claro. Pôr a malta ocupada a defender e a atacar os direitos humanos das minorias é muito menos perigoso do que pôr a malta a falar dos privilégios das minorias – incluindo aquela da qual ele faz parte. Sabemos, portanto, que Hugo Soares aceitaria que este referendo, por ele proposto, culminasse no retrocesso de deixarmos famílias que já existem sem a possibilidade da co-adopção. E Hugo Soares dormiria bem, porque entretanto a minoria de que ele faz parte está mais segura nos seus privilégios. Que importa se, pelo meio, caem direitos de minorias?

Hugo Soares dorme bem com muita coisa que está mal – incluindo a de se poder vir a gastar dez milhões de euros com um referendo a uma matéria aprovada em Assembleia da República há oito meses. Repare-se que a Assembleia da República não mexe uma palha para remover a fórmula assassina das PPP do diploma que as regulamenta, mas eis o PSD a apressar-se a colocar disciplina de voto num referendo à co-adopção (e não apenas à adopção)… porque um pateta se lembrou disto! Ou encomendaram-lhe que se lembrasse disto?

Este texto está cheio das palavras “Hugo Soares” porque acho mesmo que é muito importante darmos um nome à vergonha. Se personalizarmos a vergonha que é este sistema, percebemos que este sistema é feito de pessoas. Pessoas como Hugo Soares, que se aproveitam de pessoas como nós, e que a única maneira de mudar esta situação é nós termos vergonha de deixarmos que pessoas como o pateta Hugo Soares seja desprovido de qualquer sentimento de vergonha sobre a sua servil e conveniente patetice.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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