História de crianças que não existem

por Vitor Santos | 2015.04.15 - 17:30

 

Portugal confronta-se com o grave problema de ser cada vez mais um país envelhecido. A taxa de natalidade é baixa. Estas são tendências globais mas para o caso interessa-nos abordar o impacto que vão ter no desporto do interior.

Não se percebe se os números e alertas publicados pelas mais variadas instituições têm sido menosprezados ou a literacia é ainda maior do que aquela que se diz. Esta semana a DGES alertou para o seguinte facto da quebra demográfica: 2020 a 2030, a população em idade de entrar no Ensino Superior (17 -18 anos) vai ter uma quebra à volta de 30%!!!

Esta é a idade da afirmação do jovem atleta. Da transição da formação para sénior. É nesta idade que a maior parte dos atletas interrompem, ou acabam mesmo, a sua atividade desportiva. O investimento de clubes, atletas e famílias tem de ser questionado. Reajustado.

A prática desportiva tem de ser bem definida no objetivo que se pretende. Uma prática ocasional, de saúde e/ou uma que visa a competição? É que ainda não perceberam ou não querem perceber que ambas têm o seu espaço mas que são trabalhadas de forma diferente?!

Vão os clubes continuar a «formar» e depois a necessitarem de contratar atletas para manter as suas equipas seniores? Faz sentido isto? E com que dinheiro?! Manter uma equipa é oneroso. O público deixou de ser fiel ao espetáculo – que é fraco.

Os clubes têm de uma vez por todas de unirem sinergias e traçarem um rumo em conjunto. O Poder Local e Associativo, os Clubes, as Instituições de ensino devem relacionar-se e ter políticas desportivas executáveis, que sejam viáveis – mas que podem não dar votos a curto prazo. Um preço a pagar por quem tem sentido de Estado e de serviço público.

O Interior desertifica-se. As ofertas formativas estão no Litoral e conquistam e satisfazem mais os nossos jovens que acabam, muitos, por nem mais voltar. Quem fica?!

Não é, certamente, em número suficiente de manter em atividade os quadros competitivos – das mais diversas modalidades, da forma atual. De suportarem o estado, já de si falido, dos clubes.

O futuro não tem de ser necessariamente uma fatalidade e muito depende do que fizermos no presente, da nossa capacidade de ação e da coragem para nos reformarmos enquanto organizações.

Manter os mesmos modelos gestão e organização dos clubes é que não vai dar bom resultado. A relação entre estes é conflituosa e numa rivalidade mesquinha que só tem levado à falência de todos. Os protagonismos bacôcos não podem mais ter lugar no desporto. Há gente competente e bem formada disponível para trabalhar.

De uma vez por todas chega do amadorismo, da boa vontade dos mecenas. Produza-se um trabalho de futuro que já devia ter começado ontem.

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

Pub