HIPERLEITORES

por José Carreira | 2015.07.19 - 12:14

 

 

Não é a única razão, mas a falta de leitores da imprensa escrita contribui fortemente para a falta de liberdade dos jornais, cada vez mais encarcerados pelo poder económico que os viabiliza.

Faz-me alguma confusão que pessoas que se batem pela liberdade de expressão dos jornais sejam HIPERLEITORES…

Hiperleitores não porque leiam muito, não posso avaliar, não sei se lêem muito ou pouco, nem vem agora ao caso.

Hiperleitores porque se limitam, apesar dos avisos (os jornais expostos são para venda), junto às caixas de pagamento, onde podemos adquirir os jornais que queiramos ler, a folheá-los e a ler os articulistas e as notícias que lhes interessam nos hipermercados.

Há muitas pessoas que, como resultado da crise que vivemos, não podem gastar euros em jornais. Quando as opções a fazer são entre o leite e o pão e um jornal ou uma revista, não restarão grandes dúvidas quanto à decisão.

Das palavras aos atos vai uma distância infinita, mas talvez pudessem dar uma ajuda com um ato simples, comprar o jornal / revista que lhes interessa dignificando-se e dignificando quem neles trabalha, apesar das limitações e “inconseguimentos”…

Ao comprarem, poderiam no conforto do lar tornar-se “verdadeiros” hiperleitores porque liam com calma, analisavam e formavam melhor a sua opinião, deixando de limitar-se a ler na diagonal um ou outro apontamento ao som da passagem dos códigos de barras dos produtos. É bem mais barato, eu sei, mas não é a mesma coisa…

Quem gosta da imprensa, não raras vezes, desabafa: “muitas vezes não consigo ler, mas compro religiosamente, há décadas, o Expresso”. Para estes a minha vénia, estima e consideração, concordando ou não com as suas visões e ideologias.

Talvez a justificação dos hiperleitores radique na ideia de não quererem contribuir para as grandes fortunas do Belmiro ou do Soares dos Santos…

Mas há outra hipótese, são da esquerda mais radical, gostam muito de jornais mas não os compram, tal como adoram ter carros topo de gama e simultaneamente dizer mal do neoliberalismo, diabolizar o capitalismo e defender os “pobres” dos bairros que não conhecem nem querem conhecer. Enfim, espuma dos tempos…