Havia alternativa?

por Norberto Pires | 2014.08.04 - 11:00

Colocam-se nesta história do BES/GES/NOVOBANCO/MAUBANCO muitos problemas, nada tranquilizadores.

Se pensarmos que o mundo começou na 6ª feira então, de facto, não havia muito a fazer e não existiam alternativas (o fechar de torneira do BCE obrigava a agir – nos colapsos é assim, faz-se o que é possível).

O problema é que isto do BES tem um historial, polvilhado de informação de péssima qualidade, aliás reconhecida pelo Governador do Banco de Portugal que afirmou ontem, para além de que tinha sido enganado, que tinha sinalizado o problema desde Setembro de 2013 (eu diria que desde que Salgado falhou sucessivamente a declaração de IRS e se esqueceu de 8.5 milhões que a coisa devia ter tido outro rumo).

Ai sim? E então como explicar as sucessivas declarações de tranquilidade e confiança?

Como explicar o ultimo aumento de capital em que milhares de Portugueses foram simplesmente enganados, porque o regulador, a CMVM, os responsáveis políticos, diziam que estava tudo bem, o banco era sólido, havia investidores garantidos (que afinal não apareceram, ainda), etc?

Não deviam supervisor e regulador ter atuado antes, muito antes?

Não era essa a sua obrigação?

Ser mais diligentes e resilientes?

Foram enganados? Mas isso era ou não previsível ou até provável, dado o historial por exemplo no caso do IRS e outros?

E se o tivessem feito, não haveriam então outras soluções?

E essas soluções não seriam melhores do que esta?

Mas mais importante, não se teria evitado a GIGANTESCA (e eventualmente criminosa) PERDA DE VALOR NO BES que destruiu a vida de muita gente? O BES fechou a valer muito menos que 1000 milhões de euros. E a PT, de que momentaneamente muitos se esqueceram, qualquer coisa como 1.4 mil milhões. Uma gigantesca perda de valor.

A ideia que fica é que tudo isto parece ter sido gerido pela Dª Inércia, e fica a dúvida nítida: aqui alguém não fez o seu trabalho. 

Como dizia Luís Marques no Caderno de Economia do Expresso desta semana:

“Alô? Está aí alguém? É necessário que comecem a atender os telefones que não param de tocar”.

 

Nota importante: a afirmação “esta operação não custa nada ao erário público” só é verdadeira se o empréstimo ao Novo Banco for reembolsado na totalidade e pagar os respetivos juros acima dos da dívida pública. Não vi nada sobre juros na comunicação do Governador do Banco de Portugal.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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