Guia para uma entrevista (in)feliz

por Graça Canto Moniz | 2013.12.02 - 19:03

Como aconteceu com tantos amigos de carteira, a procura de trabalho (há pouco, em Viseu, apesar do elevadíssimo teor da qualidade de vida) levou-me a semana passada a uma entrevista para os lados da Avenida da República, na metrópole. O empregador era um instituto público pelo que botei o meu pezinho de campónia num belo edifício, modernaço e recauchutado (perdão, quero dizer requalificado!) com uma temperatura interior que devia rondar os 30º. Aqueles lisboetas não sabem, de todo, o que é o frio…, a temperatura desce para 10º e julgam-se logo na Sibéria.

“É só aguardar um bocadinho”, disse-me a menina na recepção, de t-shirt branca, à Verão. Imagine-se que até a percepção do tempo é diferente no sul e no centro do país: o “bocadinho” dela equivale a 45 dos meus minutos viseenses. Entretida a ler, o esforço de concentração era constantemente perturbado pela música difundida no moderníssimo sistema stereo de todo o prédio (até na casa de banho) que tocava… Rihhana. Não me pareceu que aquilo fosse rádio, foi mesmo escolhido a dedo, premeditado, personalizado, talvez por acharem que a parola de Viseu gostava da Rihhana, não sei.

“Venha, por favor”. Entrei numa sala com três senhores e sentei-me. Tudo corria bem até me fazerem a pergunta para os 10 milhões: “entre rigor e rapidez o que mais valoriza?”. Pensei uns instantes e passou-me pela cabeça a resposta milionária: “um pouco de ambos, creio”. O calor era tanto que só queria mesmo sair dali pelo que respondi “rigor”, consciente de que os ritmos da modernidade, que fazem mexer o mundo e as massas, são os do “instantâneo”, do “momentâneo” e, por isso, da rapidez. “Ah, mas sabe, hoje em dia, e especialmente na nossa área, não podemos ser muito rigorosos, a rapidez deve imperar”. “Rapidez?! Com esta temperatura?! Bem se vê que os senhores nunca estiveram num país de clima tropical para apreciar os ritmos das vidas humanas por lá”, pensei. Mas, claro, com tanta rapidez, a malta não pode a.p.r.e.c.i.a.r o que seja. Já para não falar no profundo desrespeito à sabedoria tradicional e proverbial que nos ensina: depressa e bem não há quem. Enfim, daqui para a frente me declaro menos rigorosa e mais veloz. Get ready!

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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