Greta Thunberg chegou… e deixou de se falar de Joacine (ou como Israel e os EUA insultaram Portugal)

por Carlos Vieira | 2019.12.09 - 09:31

Agora que Greta Thunberg passou por Portugal, a caminho de Madrid para a  COP 25 Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorre até 13 de Dezembro), as crónicas e comentários nas redes sociais passaram a dar descanso a Joacine Katar Moreira. E ainda bem, visto que a deputada portuguesa apenas agitou o seu hiper-ego, dando azo a alguma maledicência provinciana e conservadora e a um desagradável desaguisado com o partido em cujas listas foi eleita (por muito que ela diga que só a si se deveu a sua eleição), enquanto a jovem sueca é um símbolo galvanizador do movimento Agora Global que leva jovens de todo o mundo a lutarem contra a incompetência dos governantes e a ganância das grandes empresas para fazer face à Emergência Climática que ameaça os ecossistemas e a sobrevivência da humanidade, exigindo mudanças  no sistema de produção poluente e delapidador da natureza e no nosso insustentável modo de vida baseado no consumismo insaciável e no desperdício.

No entanto, apesar da incomensurável distância que vai da quase irrelevância das picardias locais à gigantesca importância da luta global pelo clima, vou deixar esta última para uma próxima crónica para me reter, ainda, nas implicações da votação da deputada do Livre. Eu, que me enojei de ler tantos ataques à deputada, com muito racismo e misogenia à mistura, pela dificuldade em se expressar, gaguejando acentuadamente (como se alguém como Stephen Hawking, um dos maiores cientistas do nosso tempo, falecido em 2018, não pudesse ter partilhado as suas geniais teorias em palestras e apresentações tão brilhantes e pedagógicas como as que fez, apesar da esclerose lateral amiotrófica que o paralizou e fez perder a voz, conseguindo comunicar por intermédio de um dispositivo gerador de fala, accionado através de  movimentos das bochecha e por um sensor infravermelho nos óculos, ligado a um sintetizador, mas que inicialmente, enquanto não dominava essa técnica, deveria ser tão desconfortável de ouvir como a gaguez de Joacine), ou pela excentricidade do seu assessor em matéria de vestuário (prefiro ver um homem de saias – coisa normal noutros países, e mesmo em Portugal entre os sargaceiros da Apúlia e os pauliteiros de Miranda – do que ver deputados e ministros todos vestidos de igual –- fato cinzento ou azul escuro, e muitas deputadas e ministras a imitar esse macambúzio “dress code”), também eu, dizia, não resisto a comentar a deputada Joacine, não pelo estilo, mas antes pela substância do discurso ou da falta dela.

O que verdadeiramente me incomodou  foi a abstenção de Joacine no voto do PCP de condenação de Israel por mais bombardeamentos sobre a população da Faixa de Gaza, (já em 2018 massacres semelhantes foram condenados pela Alemanha, a França, a União Europeia e a ONU) e reafirmando o carácter ilegal dos colonatos israelitas (que Trump reconheceu recentemente, apesar da ONU os considerar ilegais), aprovado com os votos a favor do PCP, BE, PEV, PAN e PS (excepto o deputado Ascenso Simões que se absteve ao lado do Livre) e os votos contra da direita e da extrema-direita. A desculpa de Joacine de que votara contra a sua própria consciência, por não saber qual a posição oficial do Livre (cuja direcção respondeu afirmando ter uma posição inequívoca no seu programa a favor do Estado da Palestina) e invocando dificuldades de comunicação com a direcção do partido e até acusando esta de tentativa de sabotar a sua eleição (que só se deveu a si própria, segundo ela) não augura um futuro político muito promissor para a deputada. Numa questão de princípios como é a da ocupação da Palestina desde há 70 anos, e a humilhação e agressão diária de palestinianos por um Estado e um governo anti-democrático e autoritário, como é que se pode sobrepor a ocupação da consciência por uma dúvida programática, à exigência humanitária de uma Palestina Livre!?…

Esta hesitação de uma deputada que se reivindica de esquerda deu azo a que o embaixador de Israel em Portugal tenha publicado no “Público” uma “Carta aberta a Joacine katar Moreira” onde, usando uma ironia sem piada nenhuma, aconselha a deputada do Livre a não hesitar e a votar sempre pela condenação de Israel,  ao lado da maioria “facilmente conquistada pelos partidos da esquerda radical, infelizmente coadjuvados pelo partido no poder (excepção feita a alguns deputados intelectualmente independentes) que usa Israel como moeda de troca para alimentar uma maioria confortável nos acordos que dela precisam”. O embaixador não só insulta os deputados da República e o partido do governo de Portugal, como quer fazer passar os portugueses por tolos.

O primeiro ministro israelita, Netanyahu, acusado de vários crimes de corrupção (milhares de israelitas manifestaram-se no passado sábado em Telavive, exigindo a sua demissão) prometeu nas últimas eleições que no seu mandato não haveria um Estado palestiniano e aliou-se a duas forças da extrema-direita, esses sim, radicais: o partido religioso nacionalista Casa Judaica e o Poder Judaico, movimento racista que chegou a ser proibido com base em leis antiterroristas,  que reivindica as ideias do rabi Meir Kahane de um Estado judaico sem árabes (que são 1/5 da população de Israel) e a transferência do palestinianos para países árabes vizinhos.

Recordo ainda que, em 2014, quarenta judeus sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, condenaram o massacre a palestinianos em Gaza (2.100 mortos, dos quais 1.700 civis, e 100 mil feridos), e a Rede Internacional de Judeus Anti-Sionistas apelou ao BDS  (boicote, desinvestimento e sanções) contra Israel. Em 2017 o governo israelita legislou para proibir a entrada no país e a expulsão de quem apoie o movimento BDS e o primeiro a ser expulso foi o director-executivo da associação defensora de Direitos Humanos, Human Rights Watch, o que mereceu a condenação da União Europeia e do Secretário-Geral da ONU, António Guterres.  

Não pode haver hesitações quando estão em causa direitos humanos.

Durante o debate plenário na Assembleia da República desta quarta-feira, o líder do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, referiu-se assim à visita não oficial de Benjamin Netanyahu a Portugal: “Daqui a poucas horas, o primeiro-ministro israelita aterrará em Portugal. Benjamin Netanyahu não é só o primeiro-ministro israelita. Corrupto, criminoso de guerra, colonialista, todos os dias atenta contra resoluções das Nações Unidas e vem cá a Portugal à procura de aliados para a criação de um novo apartheid naquela região para garantir que consegue a anexação final do Vale do Jordão“.” Se o Reino Unido negou ser o cicerone da reunião de Benjamin Netanyahu com o secretário de estado norte-americano a pergunta é por que razão Portugal se disponibilizou para esse papel e  lhe dá um carimbo de visita de Estado?”

Netanyahu, acusado em três casos de corrupção pelo Procurador-Geral de Israel, está a ter dificuldades em ser recebido pelos principais líderes europeus (recordo que há um ano Netanyahu recebeu o neofascista italiano Salvini, então ministro do interior, chamando-o de “grande amigo de Israel”). O objectivo maior em Lisboa era encontrar-se com Mike Pompeo, secretário de Estado de Trump. António Costa parece ter gostado de imitar Durão Barroso no papel de mordomo do Imperialismo e dos seus lacaios. E nem um protesto se ouviu pelo insulto a Portugal e ao seu governo ao autorizarem apenas jornalistas estrangeiros credenciados pelos EUA e por Israel na Conferência de Imprensa de Pompeo e Netanyahu,  vedando o acesso aos jornalistas portugueses. Vergonha!

Carlos Vieira