“Gramática do Inferno

por PN | 2016.12.07 - 10:00

 

(…) “o povo, como qualquer país à beira mar plantado, vergava sob impostos pesadíssimos, corrompendo na miséria e na escuridão.”
Aquilino Ribeiro, O Livro do Menino Deus, Bertrand, 1945

 

Ainda por cima somos hipócritas?
Numa sociedade, os idosos e os recém-nascidos são as duas franjas etárias mais frágeis. Se os anciãos são descartáveis como as Bic’s – honra às exceções – num país com uma tão acentuada quebra demográfica, deveríamos esperar que os segundos fossem tão abençoados como a chuva cálida depois da longa seca. Mas não. Hoje, como se tornado hábito, já não preocupante mas alarmante, há mães a dar à luz e a “largar” os filho nas maternidades – o lugar da “mater”. Não há competência para julgar um ato deste teor. E falar em desumanidade é simplista. Acreditamos que só o mais profundo e exacerbado dos desesperos pode levar uma mãe a abandonar seu filho. Ou um filho a abandonar seu pai… Atrocidades, ambas.
Que maculada cegueira nos tolda a vista e não nos deixa ver quem são os idosos de amanhã. Aqueles que irão ser deixados entregues a si e ao seu temível destino: morrer sozinho pelos filhos desprezado, como nascer sozinho, fugida a mãe a seguir ao parto. Questão cultural? Só muito parcialmente. Há tribos no mais recôndito sertão que festejam e acarinham tanto os nascituros como os anciãos. Questão económica? Será ela o cerne da questão. Mas é certo também que há famílias tão pobres como Job ou os Fandingas e onde avô e neto nunca foram repudiados. Sinais e reflexos dos tempos? Absolutamente. Uma sociedade decadente e amoral, sem valores, é geradora de todas as vilezas. A Escola desprestigiada e agora, ao que se diz, em vias de se tornar luxo de elites; filhos deficientemente formados que irão ser pais com défices de educação acentuados; um neoliberalismo tresvairado e insano que despreza o ser humano, só o apreciando como besta de carga; políticos-governantes espelhando as piores e mais estigmatizantes práticas… tudo conjugado, que sociedade geradora de afetos e valores esperávamos encontrar? Batedores do Inferno não alcançam Paraíso…
Portugal recuou nos últimos anos, décadas no seu processo evolutivo. Voltámos a ser – e já não com o anátema do fascismo – um país não desenvolvido, um país não em vias de desenvolvimento, mas sim um país subdesenvolvido. Que regressão…
Sim, temos mais auto-estradas que tortulhos – lancinantes riscos negros na paisagem sulcada – onde cada vez circulam menos automóveis. Sim, temos Expos megalómanas para atestar e expor o novo-riquismo que agora se paga e pago será pelas gerações vindoiras – os filhos da desgraça. Sim, temos parques escolares alarvemente despesistas na forma sem serem sinónimo de boas práticas no conteúdo, antes atestados da corrupção exarados na “pires” obra. Sim, damos centenas de milhares de “Magalhães” – como o Fernão – às criancinhas tecnológicas para as apodarmos de info-incluídas, mesmo carenciadas da broa, do caldo migado, do ralão corrido. Sim, temos bpn’s de amigos e ex-libris de Negócios à Portuguesa, resgatados com a desgraça de milhões de “inimigos”. Sim, temos muitos acessórios, mas não bastam para colar com cuspo e fel o apressado rótulo do desenvolvimento, apenas adregando ao parolismo, ao arranjismo, ao amiguismo e ao enxame de incompetentes que se vêm cevando nas lautas e marmoreadas manjedoiras da governança, alheados do Estado-monstro que estão a gerar, onde a miséria é pródiga, a riqueza parca e os valores nulos. Hoje os portugueses já não vivem, sobrevivem e – pior ainda – indiferentes ao depauperado estado de sítio reinante em derredor.

 

“Mas depois a noite manteve-se imóvel”
George Steiner, O transporte para San Cristóbal de A. H., Gradiva

Se em democracia um político é sufragado pelo seu programa eleitoral, pelas promessas que traz arrimadas à sua candidatura, que se devia fazer àquele que, uma vez eleito, deita tudo para trás das costas e faz exatamente o mesmo ou pior que aqueles contra quem se apresentou a votos?
Querem alterar a Constituição? Pois comecem por aí:

Artigo I – Todo o político que usando de discursos cínicos e de ilusão tire deles proveito para ludibriar o povo que nele confiou, praticando o oposto do prometido, só tem uma forma de expiação: Pelourinho com ele, de pés e mãos acorrentados às argolas do granito pendentes, exposto ao escárnio, à bosta, ao escarro e à natureza que o pariu. Porque em primeira e derradeira instância, eles são os culpados da “malina” que assola Portugal, agrilhoado à miséria e ao desengano.

 

(texto escrito em 2012)