GRAFITAR ESTEREÓTIPOS

por José Carreira | 2015.08.15 - 13:51

 

 

Entro no carro, aperto o cinto de segurança, estabeleço a ligação do telemóvel com o carro via Bluetooth, ligo o rádio (fiel companheiro de viagem) e entro em piloto automático. Fico com a sensação de  que estou a ouvir a reprodução do som de uma lata de spray em ação. Penso, deve ser uma reportagem sobre a coqueluche nacional, o VHILS, artista reconhecido mundialmente pela originalidade dos seus trabalhos (usa técnicas de grattage – perfurando ou escavando a superfície das paredes – e colagem, apropria-se de espaços e objectos desativados para inscrever as suas mensagens de cariz social, construindo através da destruição). Se acertei quanto à utilização do spray para fazer grafiti, errei por completo no protagonista. A arte urbana, como o grafiti, habitualmente associada aos adolescentes, tem novos protagonistas.

A jornalista diz tratar-se do projeto Lata 65 (https://www.facebook.com/Lata65), criado pela arquitecta Lara Rodrigues. Pessoas com mais de 65 anos dão asas à sua imaginação e criatividade, através da arte urbana fazendo grafitis como meio de socialização e combate à solidão. O coletivo Lata 65 pretende provar que “a idade é só um número”.

IMG_2679 [244340]

Sou apologista da utilização da arte nas ações de intervenção social, uma conjugação que, quando bem articulada, pode dar bons resultados.

Recentemente realizou-se em Viseu um festival de arte urbana que deixou marca na cidade. Gosto especialmente do trabalho realizado no Bairro da Balsa pelo artista AKACorleone. Mas, o que me enche mesmo  as medidas é o “coração apertado” executado pela Liliana Rodrigues na edição de 2014 dos Jardins Efémeros. Convido o leitor a conhecer melhor o trabalho da jovem artista viseense: https://www.behance.net/liliana-rodrigues .

Há quem apelide de revolução geriátrica a estas novas iniciativas que rompem com os estereótipos habitualmente associados à idade. Movimentos em todo o mundo consideram que as pessoas mais velhas não têm que estar presas a preconceitos e a discriminações resultantes da idade. Concordo!

Se considera o projeto Lata 65 arrojado, o que pensa de um grupo de pessoas em idade avançada que se reúne em Londres para ir para espaços abertos e praticar parkour (http://parkourdance.co.uk)?

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ainda bem!