Fundos da torre 7: The Village Grill

por Amadeu Araújo | 2018.08.23 - 14:20

 

 

Barrelas tem a aldeia mais francesa do Portugal, e a mais brasileira também. Se no estio muitos são os emigrantes que regressam para as ‘vacances’, outros há que vieram, há alguns anos, de vez e por cá ficaram. Ficamos nós também em Vila Nova de Paiva, na Rua Egas Moniz, onde oficia Daniel Afonso que crismou o estabelecimento de Village Griill, quando arribou da Grã-Bretanha. Grã é também esta casa, um extraordinário comedor, com grelhador, tachos e sortida garrafeira.

Entrando há “produto de qualidade” para forrar os princípios. Patés e uma latinha de sardinhas, aconchegada com cebola brava. Na garrafeira predominância ao Távora, e ao Varosa, sem esquecer Douro e Dão. Copos, para tão distintos vinhos, de pé alto e mesas amesendadas, redundando, com boa palamenta e melhor baixela. Sentados precisamos aspergir a barriguinha que vem copioso e do autêntico. Sobremodo a carne, mas antes dela, acheguem-se os tomatinhos, junte-se-lhe a alioídea, uma allium cepa para simplificar a cebola que logo atrás vem alheira, coisa supimpa em terra de bom fumeiro e arte na grelha. Enguias e trutas, das pintadinhas, ajudam ao pasmo, sejam de escabeche ou grelhadas na singeleza do peixe de água doce.

Conhecido a Village avancemos ao préstimo que antes do Grill é preciso temperar a forra atirando o espanto. Aqui encontra carne maturada, vinda de animais com boa idade, com alguma gordura e que descansou no mínimo 21 dias após o abate. O processo é natural, o sabor muito mais intenso. Carne maturada a partir de animais gordos, do campo e de pastagem, mas não da farinha que os animais não são abatidos hoje e consumidos amanhã. Ficam na carcaça, descansando os músculos, tenrendo as fibras e depois desmancha. Ao préstimo e às carnes de lá de cima. Dos planaltos do Montemuro ou do Minho a carne tem nome robusto e carece de energia. Não é carnuça para comedores tenros, é carne para corredores de fundo. E é aqui, neste cardápio carnívoro, que a deslocação a Barrelas merece pela elegia. Uma tremenda exaltação, uma missa cantada e sermão assente depois de rilhada a chiça. Os nomes exigem mãos ávidas e goelas desimpedidas que a faquinha, ligeiramente serrilhada, ajuda na festa. Deveria entusiasmar e acolitar o despautério, mas melhor é dizer que a carne vai à grelha sem romarias. Os cortes, à inglesa, mostram-se assertivos. O tomahawk, que apanha a costela inteira da vaca ou se preferirem no simples uma suculenta costeleta e o T-Bone que corta duas carnes distintas: a vazia e o lombo, naquele que os incautos apelidam de bife. Sim comer exige cardápio e dicionário, mas vale a digestão que isto não é só atirar cá para dentro. E nas carnes o The Village Grill leva todos os restaurantes na retaguarda que a vanguarda é para quem sabe. A carne grelhada é servida de forma simples e vale pela qualidade da matéria prima.

Nas guarnições entre feijões e batatas há, nos dias do preceito, um arroz de grão. Na dispensa o que a regulamentação deixa é comprado nas Terras do Demo, sejam as batatas de Lamosa e de Soutosa ou os primores do Alvite. Tudo primores que embalam outras comedorias, que encontram valentia no cardápio, mas a carne é uma odisseia. Comidos e quase abençoados as saídas são outro portento. Quando a há, umas lâminas de maça acompanham o queijo, que também pode vir com duas ou três uvas e marmelada ou doce. Queijo francês e português, curado e amanteigado, novo e velho eu, comedor encartado, atiro-lhe sempre com uma aguardente vínica para abençoar a conta que pode ir aos 60 euros, para 4 mastigantes e sem manigâncias. Se puxarmos pela qualidade o preço não queima, mas sopra. São justas as contas, das carnes e dos vinhos.

O Daniel Afonso que colocou Barrelas na primeira divisão culinária percebe da poda e do aprovisionamento. Começou o Village Grill pela dispensa e sendo boa a matéria, melhor saberá o material.

Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia pelo que lhe garanto, e juro, que aqui comerá sempre carnes deliciosas e no ponto, com atendimento de excelência a preços cordatos.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista